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CRÔNICA: Viramos o jogo | Jornal Espírito Santo Notícias

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A realidade, senhores e senhoras, é que não estamos mais em uma situação de submissão e não nos responsabilizamos mais pela supervisão de seus filhos. Houve um tempo em que eu era babá, originária das redondezas da Comissão, naquela antiga Batalha.

Foi ali, próximo daquelas terras que mais tarde foram invadidas por um homem muito temido, que ordenou que a casa do tio fosse incendiada com ele deitado em um velho colchão de capim.

Não, é impossível esquecer, pois essa lembrança está enraizada em minhas memórias. Eu devia ter entre doze e treze anos quando comecei a trabalhar como babá na residência de um homem abastado da cidade. Ele era rico, religioso e respeitado, com muitos filhos. Eu era a garota pobre do bairro encarregada de cuidar dos gêmeos enquanto a vida transcorria na imponente casa da fazenda.

Foi nesse ambiente que aprendi desde cedo que certas fachadas são habilmente conservadas. O respeitável ancião, aos olhos da cidade, um dia tocou de forma inadequada nos meus seios ainda em desenvolvimento, em meu corpo magro de menina. Era o mesmo homem que, aos domingos, desfilava pela cidade em seu carro branco, com toda a família a caminho da igreja. Vestido impecavelmente, segurando a Bíblia debaixo do braço, com sua reputação intacta. Quem poderia imaginar…

Com a esposa, ele gritava e exercia violência psicológica sobre aquela bela jovem mãe solteira.

Reprovável.

Em seguida veio a casa da costureira. O marido dela também tinha sua reputação na rua – conhecido por gritar, agredir e trair. Eu continuava sendo babá, uma criança cuidando de duas. A filha da casa, com um nome que parecia saído de um livro juvenil, cuspia catarro na parede de azulejos e me mandava limpar. Eu silenciava e limpava.

O tempo seguiu seu curso, como sempre faz.

Já adulta, fui trabalhar na padaria do bairro. Lembro-me da balconista, que possuía um nome de linhagem nobre aristocrata europeia, mas que era constantemente humilhada, sem perceber que já havia sido uma heroína nos clássicos da literatura. Recordo também das festas em Cachoeiro, quando meu expediente terminava e eu me arrumava às pressas para sair pelos fundos. A dona da padaria me expulsava como se estivesse espantando um cachorro de rua, alegando que o perfume barato que eu usava provocava sua rinite.

O tempo continuou passando.

E eu me tornei jornalista.

Em determinado dia, entrei na mesma padaria e comprei um frango assado. Estava estragado. Desta vez não havia saída pela porta dos fundos nem desculpa que valesse. Aquilo virou notícia. Nas mãos da antiga balconista que agora se dedicava à escrita.

 

Há coisas que essa classe branca, dominante e acostumada a impor sua vontade jamais aceitará. Não aceitam a eleição de uma travesti para deputada. Não aceitam que a antiga babá pobre, que um dia foi vítima do respeitável homem da cidade, se torne poetisa, professora, escritora e jornalista.

O ódio deles tem uma explicação simples.

Nós mudamos as regras do jogo.

E agora somos nós que contamos as histórias.

 

Foto: Divulgação – Ilustração

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