Programa Acompanhante de Idosos (PAI) da Prefeitura, saiba como funciona
Programa Acompanhante de Idosos (PAI) da Prefeitura, saiba como funciona
Coordenado pela Área Técnica de Saúde da Pessoa Idosa da Secretaria Municipal da Saúde (SMS), o Programa Acompanhante de Idosos (PAI) oferece cuidado domiciliar a pessoas com 60 anos ou mais em situação de alta vulnerabilidade social e fragilidade clínica, com o objetivo de preservar a autonomia e evitar a institucionalização. A equipe multidisciplinar apoia nas atividades diárias, no acompanhamento de saúde e na socialização.
Essa iniciativa inovadora da Prefeitura atende três idosos da mesma família, residentes na Zona Sul da capital. São eles dona Anízia, uma centenária lúcida de 100 anos, e seus dois filhos, Paulo, 83, e Marinalva, 79. O trio passou a receber cuidados em conjunto por meio desse serviço, demonstrando como a rede pública de saúde é essencial para fortalecer laços familiares, preservar a autonomia e promover qualidade de vida em um núcleo familiar marcado por longevidade, afeto e superação.
Anízia Pereira Lima nasceu em 11 de julho de 1925, no interior da Bahia, em uma região entre roça e cidade pequena, em uma época em que poucas coisas eram registradas com precisão. Seus filhos, Paulo, de 83 anos, e Marinalva, de 79, acreditam que ela possa ser ainda mais velha do que os 100 anos oficialmente documentados.
Crescida em uma família numerosa, Anízia passou a infância no sítio da família e em pequenas cidades da região de Ipiaú. Desde cedo, trabalhou, primeiro cuidando de crianças e depois na cozinha e na lavanderia em Rio de Contas.
Foi em Ipiaú que conheceu o marido, Francisco, que trabalhava em um armazém de cacau. Após a morte dele, Anízia decidiu buscar novas oportunidades e, em 1951, mudou-se para São Paulo com os filhos pequenos, viajando de caminhão até Petrópolis e completando a viagem de trem até a capital paulista.
Em São Paulo, Anízia trabalhou como empregada doméstica em diversos bairros. Viúva e com recursos limitados, enfrentou um dos momentos mais desafiadores de sua vida ao se separar temporariamente dos filhos, que foram para um orfanato em Suzano a pedido dos empregadores.
Paulo recorda ter passado cerca de cinco anos nesse local, onde estudava e trabalhava no campo, em condições simples. Sempre que possível, Anízia percorria longas distâncias a pé para visitá-los, levando alimentos que preparava ou conseguia comprar.
Com o tempo, os filhos deixaram o orfanato e a família se reuniu novamente, estabelecendo-se na região de Cidade Ademar/Vila Constância, na Zona Sul. Atualmente, mãe e filhos vivem em casas no mesmo terreno, mantendo a proximidade construída ao longo de uma vida de superação. “Minha casa é lá embaixo, mas hoje eu durmo com a mamãe. Cuido dela e de Paulo”, diz Marinalva.
Miniaturas de móveis e brinquedos
Primogênito de Dona Anízia, Paulo trabalhou desde jovem: primeiro na lavoura e depois em uma oficina de funilaria e pintura que abriu com o irmão Deusdete. A parceria terminou de forma trágica quando um carro invadiu o quintal da casa e atingiu Deusdete, que faleceu horas depois. Após o incidente, Paulo passou a confeccionar miniaturas de móveis e brinquedos de madeira.
Problemas de saúde decorrentes de hábitos ao longo da vida resultaram na amputação de sua perna em 2020, no início da pandemia. Já a irmã Marinalva, hoje aos 79 anos, também teve uma trajetória marcada por muito trabalho em fábricas e por um casamento afetado pelo alcoolismo do marido. Mãe de quatro filhos, ela se orgulha da família que construiu.
Avanços notáveis
Quando questionada sobre o segredo da longevidade, dona Anízia responde com simplicidade: “É paciência… e a necessidade, né?”. Ela aprecia cantar hinos em casa e saborear comidas simples, especialmente ensopado de carne com batata, seu prato favorito.
A família passou a receber assistência do Programa Acompanhante de Idosos após Paulo ser encaminhado pela UBS Vila Constância, em 2023, devido a dificuldades de locomoção e isolamento social após a amputação da perna. Durante as visitas, a equipe identificou que dona Anízia e Marinalva também necessitavam de apoio, e em 2024, passaram a fazer parte do programa.
Responsável pelo cuidado da família, Ana Maria Prado, acompanhante de idosos com quase 14 anos de experiência no PAI, visita a mãe e os dois filhos duas vezes por semana. Ela estimula atividades físicas e cognitivas, ensina matemática, organiza rotinas, conversa, orienta sobre saúde, autonomia e independência. Além disso, a família recebe visitas de uma auxiliar de enfermagem, enfermeira, assistente social e médica.
“Ao planejar uma atividade, sempre considero algo que traga prazer para eles. Observo o que cada um gosta e pode realizar sem estresse. Frequentemente, são atividades distintas para cada um. Percebo que eles aguardam ansiosamente pelas visitas e o atendimento lhes traz vitalidade. Isso me completa como ser humano”, relata Ana Maria.
Com o acompanhamento, os avanços são evidentes: Paulo recuperou parte de sua autonomia, voltou a trabalhar com madeira e auxilia nas tarefas domésticas; Marinalva passou a ter momentos de descanso e a retomar interesses pessoais; e dona Anízia, mesmo aos 100 anos, permanece lúcida, ativa e engajada nas atividades diárias.
Esses benefícios são refletidos na Avaliação Multidimensional da Pessoa Idosa (Ampi-AB): Paulo e Marinalva conseguiram manter sua classificação pré-frágil, melhoraram suas pontuações nos testes cognitivos e de humor. E, apesar da idade avançada, dona Anízia mantém-se estável e lúcida.
A equipe, os idosos e a família discutem também sobre melhorias na acessibilidade arquitetônica da residência e na continuidade do processo de reabilitação de Paulo.
“A colaboração entre a equipe do PAI e a família tece e fortalece a jornada do cuidado e autocuidado em prol da melhoria da qualidade de vida, com resiliência e adaptações diante das adversidades, promovendo um envelhecimento e velhice ativos e saudáveis. Um presente que continua vivo”, destaca Eliana Yagi.


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