Ao expor seus estupradores, Gisèle Pelicot encoraja outras mulheres a lideram com a violência
Expor Estupradores: Gisèle Pelicot Encoraja Mulheres a Enfrentar a Violência
No dia 2 de novembro de 2020, Gisèle Pelicot, cidadã francesa, dirigiu-se à delegacia de Carpentras, no sul da França, para prestar um depoimento, sem imaginar que havia sido vítima de múltiplos estupros durante uma década, enquanto estava inconsciente.
Seu esposo, Dominique Pelicot, condenado a 20 anos de prisão, costumava drogar Gisèle, que era violentada por outros homens enquanto dormia. Dominique recebeu a sentença máxima prevista no país para esse tipo de crime. Além dele, outros 50 homens foram responsabilizados pela violência, com penas diversas.
A história é minuciosamente narrada no livro Um Hino à Vida, escrito por Gisèle Pelicot e publicado no Brasil em 24 de fevereiro de 2026, pela editora Companhia das Letras.
Abrir-se sobre o caso é uma maneira de assumir “uma postura diante de tudo o que ocorreu e reorganizar-se como indivíduo, como mulher”, conforme a psicóloga Mônica Favoreto, especialista em psicologia jurídica.
Além disso, a obra, que vendeu mais de 60 mil cópias na França em uma semana, auxilia outras mulheres a lidar com a violência doméstica e sexual.
“Identificar essa violência, proveniente de alguém respeitado perante os outros, tido como uma pessoa de bem, já é um desafio. E quando a mulher reconhece, há o peso de, além de se expor, provar que não é a culpada”, destaca Favoreto, que atua como Promotora Legal Popular, acompanhando vítimas de violência.
Ciente das dificuldades que enfrentaria, Gisèle optou por renunciar ao segredo de justiça. Assim, o caso ganhou grande repercussão nos noticiários nos anos seguintes ao início do julgamento de Dominique e dos outros 50 estupradores.
Os detalhes mais íntimos, no entanto, permaneceram guardados com Gisèle até a publicação do livro, cujo subtítulo A Vergonha Precisa Mudar de Lado indica o propósito desse trabalho e dos caminhos que a autora escolheu para contar sua história.
“Nunca serei reduzida a esse corpo martirizado, minha alma não está nele, nem a da jovem que fui, nem a da mulher que me tornei”, escreve a autora.
Em Um Hino à Vida, Gisèle fala sobre o apoio recebido de outras mulheres durante o julgamento. Muitas se identificaram com a história e compartilharam relatos íntimos em cartas, visto que a maioria dos autores de diferentes formas de violência contra a mulher são seus próprios parceiros.
“Como dizer a essas mulheres que me aguardavam, que me agradeciam por uma coragem que eu não reivindicava, que suas presenças do lado de fora atenuavam o que ocorria lá dentro?”, escreve a autora, referindo-se ao apoio que recebia ao chegar ao tribunal.
Enquanto as mulheres se uniam para apoiar a vítima, muitos homens, no tribunal, tentavam desacreditar as denúncias, mesmo diante das provas registradas em fotografias.
“Acabei saindo da sala quando outro advogado, uma figura proeminente, afirmou que o movimento do meu quadril era prova de que eu estava consciente”, diz. Em outro trecho, ela descreve o comportamento de alguns homens no tribunal. “‘Foi a senhora que quis, sra. Pelicot!’, gritavam os advogados, um após o outro, num tom vingativo”.
Dos 51 condenados, 17 apelaram da sentença em primeira instância, porém somente um levou o recurso adiante.
Nas últimas páginas, a autora reafirma a decisão de tornar o processo público como forma de se defender, também, dos homens no tribunal. “Percebi que teriam me massacrado se ninguém estivesse lá para ouvi-los”.
‘Não Deve Aguentar Sozinha’
A exposição de casos de violência motiva outras mulheres a refletirem sobre suas próprias histórias e a se reconhecerem como vítimas, conforme destaca a psicóloga Mônica Favoreto.
“Falar sobre uma situação tão trágica, expor-se, mostrar o processo de superação, levará outras mulheres a perceberem que o que estão enfrentando em casa não é exagero, não é drama, não é algo que devem suportar sozinhas”, afirma.
Dominique, o homem que, por uma década, drogou e entregou a esposa adormecida a outros estupradores, é uma pessoa comum. Em determinado ponto do livro, Gisèle o descreve como um homem gentil.
“Quando falamos de violência doméstica, é essencial lembrar que o agressor é, na maioria das vezes, o pai, o marido, o genitor, alguém de confiança, que trabalha, que tem posição na sociedade”, alerta a psicóloga.
“É um vizinho respeitável e muitas vezes a mulher não percebe que está sofrendo violência porque o agressor é considerado uma pessoa de bem”, acrescenta.
A francesa Gisèle Pelicot conversa com a imprensa após o veredito que condenou seu ex-marido a 20 anos de prisão | Crédito: Miguel Medina/AFP
‘Uma Voz Delicada’
O relato de Gisèle em Um Hino à Vida começa com a descrição da manhã na delegacia e da descoberta da violência. Nas páginas seguintes, a autora recorda a morte precoce de sua mãe, a difícil vida na adolescência e o início do relacionamento com Dominique.
“Chamou muito minha atenção o fato de Gisèle vir de uma classe nada confortável, cheia de dívidas e problemas, às vezes vivendo da mão para a boca”, comenta Julia da Rosa Simões, tradutora da obra, em entrevista ao Brasil de Fato. “Ela era uma pessoa bastante comum, gente como a gente. A simplicidade de sua rotina e a banalidade de sua vida nos aproxima ainda mais dela. Gisèle Pelicot é nossa vizinha, nossa colega de trabalho, nossa prima.”
As recordações da adolescência e do início da vida adulta são intercaladas com o relato cruel do cotidiano após tomar consciência dos estupros.
Vítima e autora, Gisèle compartilha situações íntimas que expõem detalhes dolorosos, como quando teve que contar aos três filhos, ao retornar da delegacia, o que acabara de descobrir.
“Às vezes temos que dar notícias difíceis aos filhos, mas nenhuma jamais será como essa, que ultrapassa completamente qualquer limite do esperado pode se desintegrar, sim, mas não desse jeito”, desabafa.
“Quando fui convidada para fazer a tradução, minha editora me avisou que precisaríamos de muito estômago para trabalhar o texto”, relata Simões. “Eu tinha acompanhado um pouco o caso pela imprensa e sabia desde antes de começar a traduzir que lidaria com material sensível”, acrescenta.
Além do peso emocional do trabalho, a tradutora enfrentou o desafio de “encontrar as palavras adequadas para traduzir o inadmissível”.
“Mas a voz de Gisèle Pelicot é muito delicada. (…) Foi muito importante perceber que tanto a força quanto a delicadeza faziam parte da mensagem que ela queria transmitir”, finaliza.



