o país da solidariedade está sozinho?
O país da cooperação internacional está isolado?
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Quando a epidemia de Ebola atingiu a África Ocidental em 2014, os profissionais de saúde cubanos foram os primeiros a se voluntariar para ajudar em Serra Leoa. A diretora da Organização Mundial da Saúde (OMS) na época, Margareth Chan, elogiou o “comprometimento” de Cuba, saudando a ida de 165 médicos que fariam “uma grande diferença em Serra Leoa”. O ministro da Saúde cubano respondeu afirmando: “Cuba é reconhecida por formar profissionais de saúde e por sua generosidade em auxiliar países amigos em busca do desenvolvimento”.
Em 1998, quando o furacão Mitch devastou dez países caribenhos, Cuba foi a primeira a responder ao pedido de ajuda dos líderes da região, inclusive apoiando financeiramente a Nicarágua. Isso ocorreu mesmo após enfrentar um longo período de bloqueio econômico e dificuldades durante o chamado “período especial”, quando a ilha perdeu seus parceiros econômicos devido ao fim da União Soviética e à queda do Muro de Berlim. Inspirado por Che Guevara e liderado na época por Fidel Castro, o país manteve sua postura solidária mesmo em tempos difíceis.
Antes da missão em Serra Leoa, Cuba já havia prestado assistência a mais de trinta países africanos e enviado 132 mil médicos voluntários para 102 nações. Essa expertise se tornou um “serviço de exportação” da ilha, como demonstrado pelo programa Mais Médicos, implementado no Brasil no ano anterior para atender às comunidades mais necessitadas.
A relação com a Venezuela foi ainda mais profunda, envolvendo trocas de serviços médicos e de inteligência por petróleo, além de um programa que alfabetizou um milhão e meio de venezuelanos com a ajuda de missões cubanas. Esse esforço educacional foi semelhante ao realizado por 270 mil estudantes na ilha após a Revolução, que eliminou o analfabetismo em 1961.
Atualmente, enfrentando uma crise energética com sete apagões gerais após a intervenção de Trump na Venezuela e o bloqueio de combustível imposto pelos EUA, Cuba desperta “muita preocupação” da OMS, conforme afirmou o diretor-geral da organização, Tedros Adhanom Ghebreyesus, em uma declaração na quarta-feira (25). Ele destacou que “a saúde deve ser preservada a todo custo e nunca ser submetida à geopolítica, bloqueios energéticos ou cortes de eletricidade”, referindo-se às dificuldades enfrentadas pelos hospitais em Cuba.
Os Estados Unidos não perdoam a ilha por ter seguido seu próprio caminho e por inspirar a luta por justiça e igualdade em jovens de todo o mundo, especialmente na América Latina. Cuba nunca representou uma ameaça militar para os EUA; ao contrário, foi alvo de operações clandestinas, como a invasão da Baía dos Porcos por cubanos exilados em Miami, e de diversas tentativas da CIA de assassinar Fidel Castro. Além disso, os EUA impuseram um bloqueio econômico à ilha no início dos anos 1960, antes mesmo de Cuba se aproximar de russos e chineses.
Agora, Trump e seus aliados, principalmente o secretário de Estado, Marco Rubio, filho de cubanos em Miami, buscam anular o que resta do sonho revolucionário cubano. Embora as conquistas possam parecer modestas para quem não conhece a realidade do hemisfério, persiste a célebre frase de Fidel exposta em um outdoor próximo ao aeroporto: “Esta noite, milhões de crianças vão dormir nas ruas, nenhuma delas é cubana”.
Sim, Cuba enfrenta escassez de recursos, mas não falta solidariedade. Mesmo com a deterioração da revolução devido ao bloqueio econômico que empobreceu o país e ao distanciamento do poder em relação à população, com prisões políticas e controle da imprensa, os cubanos se orgulham de manter todas as crianças na escola, protegidas e abrigadas, mesmo em condições precárias e, muitas vezes, sem eletricidade.
Quando criticam o governo, o que fazem abertamente em qualquer lugar, os cubanos fazem questão de ressaltar a diferença positiva em relação a seus vizinhos caribenhos, a maioria dependente dos Estados Unidos ou em situação econômica ainda pior, como o Haiti. Eles não desejam que Havana se assemelhe a metrópoles como São Paulo e Cidade do México, marcadas por altos índices de criminalidade e desigualdade, onde muitos não têm moradia.
Lembro-me de como fiquei encantado ao ver grupos de crianças uniformizadas caminhando livremente para a escola nas ruas de Havana, sem qualquer medo. Ao compartilhar minha impressão com Maura, uma amiga cubana, ela respondeu: “Por isso nos esforçamos para pensar em uma transição do regime sem perder o legado da revolução. Não queremos nos tornar um país subdesenvolvido, convivendo com a violência e a miséria comuns em grandes cidades da América Latina. Com todas as dificuldades, conquistamos o respeito global”.
Causa-me constrangimento ver países amigos, como o México, negando combustível a Cuba ou oferecendo ajuda insuficiente, como ocorreu com o Brasil, por receio de Donald Trump, enquanto potências europeias ou asiáticas se mostram relutantes em auxiliar efetivamente a ilha. Há décadas, o bloqueio dos EUA a Cuba é considerado ilegal e condenado pela maioria dos países na ONU, porém nenhuma ação concreta foi tomada.
Para reconstruir Cuba e ajudar aqueles que tanto contribuíram para o mundo, inspirando sonhos de justiça social e solidariedade, os países amigos precisam intensificar seus esforços. Mantendo o respeito pela história da ilha, como refletem os barcos com voluntários de diversas nacionalidades na missão Nuestra América, versão cubana da Flotilha da Liberdade. Nesse contexto, os suprimentos são acompanhados de simbolismo e gratidão por toda a generosidade destacada no caso do Ebola.
Não será em vão que as crianças cubanas continuarão a repetir em suas cerimônias de formatura o juramento que simboliza a aspiração e o potencial da humanidade em transformar o mundo: “Seremos como El Che!”.



