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A neurociência entrou na escola. A pedagogia permanece?

A neurociência entrou na escola. A pedagogia permanece?

A neurociência entrou na escola. A pedagogia permanece?

Tenho ouvido uma nova língua franca circulando nas escolas, nos congressos de educadores e gestores, nas propagandas de escolas privadas, nos programas de educação pública. E não é o inglês, apesar da onda crescente de escolas bilíngues. É o neuroeducacional. Frases e termos como “aprendizagem baseada no cérebro”, “plasticidade neuronal” e “janelas de desenvolvimento” entraram de vez para o jargão da educação básica brasileira.

Conceitos que antes eram restritos à psiquiatria e à neurologia, hoje estão incorporados à ciência da educação. Esta democratização do saber, acentuada pela internet e pela Inteligência Artificial, trouxe a neurociência para escola.

O que é isto, afinal?

A neurociência cognitiva é uma ciência extremamente séria. Àqueles que desejem aprofundar o conhecimento sobre a substância empírica e implicações pedagógicas reais, tenho algumas sugestões:

– Os estudos de Stanislas Dehaene, renomado neurocientista cognitivo francês, sobre leitura e numeracia; e

– A investigação de Mary Helen Immordino-Yang, PhD em Educação pela Universidade de Harvard, sobre emoção e aprendizagem;

Mas será mesmo que a versão que tem chegado às escolas brasileiras tem a mesma substância empírica? Não é a primeira vez que “neuromitos” são disseminados em cursos de formações de professores, em materiais didáticos e, sobretudo, nos argumentos de marketing das escolas. Eu mesmo já acreditei em vários dele e repetia-os a esmo.

A “teoria dos estilos de aprendizagem” (visual, auditivo, cinestésico) foi refutada pela literatura científica há mais de uma década. O mito dos “dois hemisférios cerebrais” com funções opostas não resiste a qualquer manual de neurociência atual. A ideia de que os primeiros três anos de vida determinam irreversivelmente o potencial cognitivo da criança mostrou-se uma simplificação grosseira de dados muito mais matizados.

Isto não é um “privilégio” dos brasileiros. Um estudo publicado no British Journal of Educational Psychology mostrou que mais de 90% dos professores britânicos e neerlandeses acreditavam em pelo menos um neuromito consolidado.

A neurociência seduz porque tem legitimidade

Convenhamos que a pedagogia sempre foi uma disciplina meio suspeita. Tida por muitos como subjetiva, dependente do professor individual, difícil de quantificar, filosófica. A neurociência preenche esta lacuna porque chega com scanners de ressonância magnética funcional, com gráficos, estatísticas e com a autoridade visual do cérebro iluminado.

Hoje já é possível fotografar até o que acontece com o cérebro enquanto alguém aprende. Mas uma imagem do córtex pré-frontal ativado durante uma tarefa cognitiva não dita o conteúdo de uma aula de História. Os limites da arquitetura mental para a recepção desse conteúdo, sim.

Existe uma distância imensa entre um laboratório de neuroimagem e uma sala de aula com trinta adolescentes, cheia de decisões pedagógicas que nenhum scanner é capaz de tomar.

A pedagogia exige escolhas bem difíceis: o que ensinar, em que ordem, com qual grau de exigência, como avaliar. Como educador, tenho reservas com “neuroeducação de vitrine” que ofereça saídas confortáveis como se tudo dependesse do cérebro de cada criança, e tudo fosse processo válido.

Há que se cuidar da adoção de linguagens que mascarem uma fuga de responsabilidades. Não se pode parar de formar professores que ensinem melhor somente para falar do funcionamento de cérebros. Receio que, em vez de currículos bem sequenciados e didáticas efetivas, instalem-se “ambientes estimulantes para a neuroplasticidade” nas escolas.

Outro aspecto que não pode estar em risco é o da avaliação. O lugar da discussão sobre avaliações honestas da aprendizagem em grupo não pode ser visto apenas como processo neuronal de cada aluno. E onde fica a sua função social e coletiva?

Um bom professor é insubstituível

Se eu fosse pai, acenderia um sinal de alerta quando a escola do meu filho ou filha apresentasse no seu projeto pedagógico e a palavra “neurociência” mais frequentemente do que currículo, sequência didática ou avaliação. Ou que adotasse materiais didáticos vendidos com o argumento de que respeitam as “janelas de desenvolvimento neurológico” da criança, sem uma única referência empírica verificável.

É óbvio que a neurociência pode, sim, informar a pedagogia. Há várias aplicabilidades reais: sugerir que a aprendizagem com intervalos pode ser mais eficaz que o estudo concentrado, explicar por que a carga cognitiva importa no design de materiais, fundamentar a importância do sono e do movimento para a consolidação da memória. Sem contar o seu papel na inclusão de neurodivergentes. Tudo isso é inquestionavelmente agregador.

A neurociência pode e deve fundamentar a prática pedagógica. Afinal, a pedagogia sobreviveu décadas baseada em intuições que a ciência agora valida ou corrige.

O que não se pode fazer é substituir o professor bem formado, que conhece o conteúdo, que sabe sequenciar didaticamente o seu ensino, que é capaz de avaliar com critério e que não confunde empatia com negligência ou omissão.

Sem dúvidas que a pedagogia é muito mais trabalhosa porque é multifatorial e lida com a complexidade humana que a neuroimagem isola. No entanto, ela não pode deixar de ser o coração da escola simplesmente porque a neurociência tem maior objetividade biológica. O neurocientista contribui muito com a docência, mas não substitui um bom professor e uma prática pedagógica bem experimentada.

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