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Inadimplência pressiona, mas lucro dos bancos com crédito atinge maior nível desde 2013

Inadimplência pressiona, mas lucro dos bancos com crédito atinge maior nível desde 2013

Inadimplência pressiona, mas lucro dos bancos com crédito atinge maior nível desde 2013

Dados do Banco Central mostram que o spread bancário — diferença entre os juros pagos pelos bancos para captar recursos e os cobrados nos empréstimos — voltou a subir e alcançou o maior patamar desde o início da série histórica do Índice de Custo de Crédito (ICC), do Banco Central, em 2013. Os dados estão em reportagem da Folha de S.Paulo, que mostra que a elevação do spread ocorre em um contexto de deterioração das condições financeiras das famílias, enquanto os ganhos dos bancos dispararam.

A inadimplência das famílias acima de 90 dias atingiu 4,3%, um dos maiores níveis já registrados, enquanto o comprometimento da renda familiar com dívidas chegou a 29%, recorde em pelo menos duas décadas.

Na segunda-feira (4), o governo federal lançou o Novo Desenrola Brasil, programa que busca ajudar famílias, estudantes e pequenos empreendedores a renegociar dívidas, limpar o nome e recuperar o acesso ao crédito.

Em março deste ano, o ICC chegou a 15,17 pontos percentuais, avanço de 3,46 pontos em relação ao fim de 2020. Pelo critério que considera apenas novas concessões, o spread foi ainda maior: 21,84 pontos percentuais, o nível mais alto desde 2017.

Fonte: Banco Central do Brasil

Rentabilidade dos bancos em alta

Com a taxa básica de juros (Selic) em 14,5% ao ano, o custo do crédito aumentou, elevando também o risco percebido pelos bancos. Nesse cenário, instituições financeiras ampliam os juros cobrados como forma de compensar possíveis perdas com calotes.

Além disso, houve expansão relevante de modalidades de crédito com maior risco, como o crédito pessoal e o uso do cartão de crédito, que tradicionalmente apresentam taxas mais elevadas e maior inadimplência.

Contudo, mesmo diante do aumento dos calotes, a rentabilidade dos bancos brasileiros continua em alta. O retorno sobre o patrimônio (ROE) subiu de menos de 15% em 2023 para cerca de 17% no primeiro semestre de 2025, segundo o mesmo Banco Central.

Historicamente, os grandes bancos do país operam com níveis de rentabilidade superiores aos observados em economias desenvolvidas. Nos últimos 16 anos, a média de ROE no Brasil foi de 17,4%, ante pouco mais de 11% nos Estados Unidos.

Esse desempenho reflete não apenas o spread elevado, mas também a diversificação de receitas —como tarifas, seguros e gestão de recursos— e estratégias de redução de custos operacionais.

Estrutura do spread revela entraves estruturais

O spread bancário funciona como uma margem bruta que precisa cobrir uma série de custos: despesas administrativas, tributos, inadimplência e remuneração do capital.

Dados do Banco Central mostram que a inadimplência responde pela maior fatia dessa composição (33,45%), seguida por despesas administrativas (24,78%), margem financeira (20,9%) e tributos e contribuições ao Fundo Garantidor de Créditos (20,87%).

Especialistas apontam que o Brasil figura entre os países com maior spread do mundo devido a fatores estruturais, como dificuldade de recuperação de garantias, elevada carga tributária e histórico de calotes.

Outro fator relevante é a mudança na composição da carteira de crédito. A participação das pessoas físicas no total emprestado subiu de 58,7% em 2020 para 62,8% em 2025.

Como operações com consumidores tendem a ter maior risco e spreads mais altos, essa mudança contribui para elevar a média geral. Ao mesmo tempo, empresas têm recorrido mais ao mercado de capitais, reduzindo a demanda por crédito bancário tradicional.

A expectativa de economistas é que o spread comece a recuar gradualmente a partir do fim do ano, acompanhando uma possível desaceleração na concessão de crédito.

 

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