‘Lua de mel’ com capital externo não pode ser desperdiçada | Opinião
Os mercados emergentes, Brasil entre eles, estão enfrentando mais uma crise global — a maior interrupção no fornecimento do petróleo da história — com bom desempenho, em uma ruptura com o passado que pode ou não ser provisória. As crises do petróleo anteriores (1973 e 1979) levaram o Brasil à moratória da dívida externa. A quebra do México, seguida das crises russa e asiática, sacudiram o mundo emergente, criando um padrão de turbulências que causaram problemas econômicos domésticos graves e de amplas consequências. Agora não está sendo assim.
O Brasil tem na atual crise uma das moedas que mais se valorizaram no ano, acompanhado de ótima performance das ações. O aumento do risco costuma fazer do canal financeiro um dos principais elementos de contágio para o país, com desvalorização cambial e saída de capitais. No momento, o que é inédito, há forte ingresso de divisas para ações e renda fixa. No ano, são R$ 69 bilhões, ante R$ 25 bilhões de 2025. Pelo Índice IShares MSCI Brasil, o retorno das ações brasileiras foi de 21,69% no ano, superior aos 8,29% do S&P 500 da Bolsa de Nova York e ao índice global (que exclui os EUA), de 7,59%. Brasil e vários emergentes têm melhor desempenho na renda variável que mercados desenvolvidos (Valor, ontem).
Os países emergentes mudaram e a situação política e global mudou mais ainda. Além da ascensão da China ao posto de segunda potência mundial, boa parte dos emergentes fortaleceu suas reservas e reduziu a dependência externa do financiamento para suas dívidas. O Brasil, até há pouco um credor líquido (mais reservas que dívidas em dólar), tem US$ 365 bilhões acumulados, suficientes para enfrentar crises de razoáveis proporções. Além disso, quase nunca teve sua dívida interna com participação expressiva de títulos em dólar ou grande participação de credores estrangeiros — eles mal chegam perto de 10% do total dos débitos em moeda local.
A adaptação ao sistema de câmbio flutuante e de metas de inflação, apesar dos altos e baixos, deu credibilidade ao Banco Central brasileiro e a outros que seguiram o mesmo caminho, aberto por uma série de reformas econômicas. Picos de inflação se tornaram menos frequentes e mais moderados que no passado.
A ruptura dos Estados Unidos com a China, uma cisão geopolítica que traz grandes transtornos econômicos, e a suspensão da ordem internacional baseada em regras mudaram o peso dos países em um mundo que tende a ser multipolar. O Brasil e os emergentes estão sendo reavaliados pelo que poderiam ser nessa nova ordem.
Diante disso, o Brasil tem sido encarado como um parceiro comercial previsível e confiável, dois atributos que passaram a ser agora mais valorizados do que antes. A tradição diplomática mostrou-se um ativo valioso em um mundo polarizado: o país comercia com todo o mundo e não se alinha politicamente a ninguém. Os EUA são o segundo parceiro econômico do Brasil, que tem na China seu maior cliente. Além disso, tem uma posição invejável na oferta global de commodities vitais: alimentos. É o maior exportador de soja, carnes bovina e de frango, açúcar, suco de laranja e café.
Nada disso impediu solavancos e crises ao longo do século, boa parte delas causada por políticas domésticas erradas, mas com a guerra no Golfo Pérsico o Brasil conta com duas vantagens extraordinárias: está geograficamente distante dos conflitos e tornou-se exportador líquido de petróleo (desde 2016), caminhando para se tornar o quinto maior produtor do mundo em poucos anos.
Tudo somado, o risco Brasil, medido pelos CDS (que avaliam a possibilidade de default da dívida soberana), chegou em 8 de maio a seu menor valor no terceiro mandato do presidente Lula — 116, quando em março de 2023 foi de 280. Teve queda de 33,8% em um ano. Além de atrair com isso investidores externos que estão diversificando um pouco seus portfólios em dólar, o país oferece a eles a segunda maior taxa de juros real do mundo.
O Brasil já foi um dos preferidos das finanças mundiais antes, no segundo governo Lula, quando se tornou grau de investimento. Deixou de ser com as políticas ruinosas da presidente Dilma Rousseff depois. É possível que sua atratividade entre os países tenha aumentado pela coleção de ativos reais que possui há um bom tempo, agora revalorizados em novo contexto global. Mas o país tem pés de barro com uma das maiores dívidas entre os emergentes, o que já vem de antes, mas que sofre deterioração rápida e adicional com taxas de juros extravagantes, que se tornarão impagáveis a médio prazo.
Os investidores de curto prazo, que estão acorrendo a ações e renda fixa agora, podem facilmente bater em retirada diante de qualquer sinal de problemas. O que muda de fato a posição do país na arena global é uma boa gestão econômica, que garanta crescimento sustentável. Hoje, a gestão é ruim especialmente na parte fiscal e o país mal cresce 3% sem produzir inflação. Se nada for feito, bons momentos serão novamente desperdiçados.



