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Tons menores? O barulho da Bienal de Veneza.

Tons menores? O barulho da Bienal de Veneza.

Tons menores? O barulho da Bienal de Veneza.

A 61ª Bienal de Arte de Veneza foi inaugurada em 9 de maio último em meio a uma série de polêmicas e manifestações que dizem muito da conjuntura geopolítica que o mundo enfrenta hoje. Realizada desde 1895, o maior evento de arte contemporânea se estrutura em duas grandes exibições principais: o Giardini, onde os países se dividem em pavilhões nacionais e apresentam os projetos de seus artistas; e o Arsenale, um antigo estaleiro naval que abriga o pavilhão central, com obras e expografia concebidas pela curadoria da bienal. Além disso, diversas instituições culturais de Veneza — como o Palazzo Grassi, a Punta della Dogana, o Ca’ Pesaro, a Fondazione Prada e a Galleria dell’Accademia, entre outras — apresentam projetos especiais que compõem a programação, os chamados eventi collaterali, que colocam a arte em diálogo direto com a arquitetura e a cartografia da cidade.

In “Minor Keys” é o título desta edição, com curadoria da camaronesa-suíça Koyo Kouoh, que faleceu prematuramente no início do ano. O conceito curatorial de Koyo foi mantido pela equipe que acompanhava o projeto — minor keys, essa clave em tonalidades menores, mais discreta, que estaria na sombra, à espreita ou mesmo atrás dos sons que se sobressaem. Nas artes visuais, o conceito pode ser expandido como uma frequência de escuta, de silêncio e de presença — individual e coletiva.

De modo paradoxal, nada de tons menores nesta edição. Um dia antes da abertura e pela primeira vez em 131 anos, uma greve geral tomou conta de Veneza: trabalhadores da cultura e artistas fecharam 27 pavilhões nacionais em protesto pela Palestina e por direitos trabalhistas. Artistas também repudiaram a participação de Israel e Rússia na mostra.

O júri da Bienal, presidido pela curadora brasileira Solange Fárkas, renunciou coletivamente à entrega de prêmios. A organização cancelou a premiação e alterou o formato, substituindo o júri técnico pelos próprios visitantes, que votariam em categorias. Novo boicote: em resposta ao novo formato e em solidariedade ao júri renunciante, mais de 80 artistas retiraram suas obras da disputa.

E a arte, no meio de tudo isso? A arte é um campo não capturável por natureza, uma dimensão em que a vida é antecipada. Os artistas são, portanto, a antena parabólica que capta as nuances do futuro e as traduz em obras — um movimento muito menos glamuroso do que parece.

Se a Bienal tem algum papel a cumprir — sendo uma instituição secular que precisa se atualizar no tempo, inclusive no formato da mostra — é permanecer permeável para dar passagem ao que precisa ser visto, ainda que sejam os pavilhões fechados e uma greve. Qualquer coisa diferente disso seria o falso conforto que reproduzimos em condomínios fechados enquanto a realidade se impõe à nossa volta.

A artista Florentina Holzinger em performance, no Pavilhão da Áustria.

Sim, a arte está na Bienal — Paulo Nazareth, com sua álgebra, na Punta della Dogana; a coreógrafa austríaca Florentina Holzinger, com a instalação Sea World, no pavilhão da Áustria; as pinturas de Jenny Saville e Hernan Bas no Ca’ Pesaro. Mas antes, ou junto a isso, tem a vida — o mundo em que vivemos, cheio de excessos, desigualdades e jogos de poder nos quais, na maioria das vezes, não somos os jogadores, mas as peças jogadas. Nesse contexto paradoxal, a arte não traz paz. Pelo contrário, ela é a mosca na sopa, o dedo na ferida, a pergunta indesejada, o termômetro da sociedade, o espelho que nem sempre reflete o que queremos ver.

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