Professora encontra vidro em copo d’água: o gole amargo da educação
O ambiente escolar, historicamente percebido como um porto seguro sediando a construção de vínculos e de conhecimento, ontem foi gravemente atingido por uma lâmina de vidro.
O caso aconteceu na Escola Municipal Professora Ildete Mendonça Barbosa, em São José dos Campos, no interior de São Paulo, durante uma aula prática de laboratório.
Um estudante utilizou uma lâmina de vidro de microscópio (usada para análise de materiais) e a colocou dentro do copo da professora Michele Ramos. O recipiente não era totalmente transparente, e ela não conseguiu ver o vidro imediatamente, mas o comportamento dos alunos chamou sua atenção antes de beber sua água.
Em um desabafo posterior nas redes sociais, a professora afirmou que não bebeu a água porque percebeu um clima de agitação, cochichos e risadas na sala, e que ninguém a avisou diretamente sobre o risco real que corria. Resultado: os três alunos envolvidos foram suspensos da escola até o fim do semestre letivo, o caso foi registrado na Polícia Civil e encaminhado para a Delegacia da Infância e da Juventude (DIJU), iniciada a investigação, e a professora precisou buscar atendimento médico para afastamento devido ao abalo psicológico.
Ato de crueldade e o colapso do respeito
Em suas redes sociais a professora deixa questionamentos cortantes: “Em que momento isso passou a ser normal? Que tipo de educação essas crianças estão recebendo em casa? Os alunos estão completamente fora do limite”. O episódio é tão absurdo que diante dessa cruel inconsequência dos alunos, sentimos alívio pelo desfecho.
O ato poderia ter culminado em uma tragédia física irreparável, e serve como um sintoma alarmante de uma fratura muito mais profunda na alma da educação contemporânea.
Não se trata de uma mera “travessura de mau gosto”. Essa história nos obriga a encarar de frente o colapso do respeito à figura do educador. Quando a sala de aula se transforma em um cenário de perigo real para quem ensina, fica evidente que os pactos civilizatórios básicos foram rompidos.
O que fazer diante da crise na educação?
As perguntas que a professora Michele fez em seu desabafo ecoam nos corredores pedagógicos de todas as escolas, públicas e privadas de todo o Brasil. Me solidarizo à professora, e acrescento outra questão: o que faremos agora?”
Sobre os executores diretos dessa ação, a resposta deve considerar, antes de tudo, a formação desses jovens. É preciso que eles compreendam, por meio de intervenções multidisciplinares, a real dimensão do que praticaram, para que seja possível a autoresponsabilização, e posteriormente, a imposição das sanções adequadas. A ordem dos fatores altera o produto: punir sem intervir adequadamente incrementa o problema estrutural, não o soluciona.
Não podemos também ignorar outro contexto perturbador nesse absurdo: a plateia. Os outros estudantes que, conhecendo o perigo, assistiram passivamente à cena, revelando a cumplicidade de uma anestesia social assustadora, onde o sofrimento alheio é tratado como entretenimento ou como algo que simplesmente “não é problema meu”.
Escola e polícia fizeram suas intervenções, dentro do que entenderam adequado. Eu insisto: e nós?? O que faremos?? Qual o nosso papel na restauração da aliança entre a família e a escola??
É inegável que nosso país está enfrentando um “apagão de professores”. Adoecimento mental, medo, sentimento de desamparo, além da baixa remuneração, tem tirado vocacionados das salas de aula. Proteger o professor é, em última análise, proteger o próprio futuro da nação.
Educação relacional não é matriz curricular, é dever de todos. Nós, através do exemplo, temos a responsabilidade de ensinar a conviver, a respeitar e a valorizar a existência do próximo.
E a propósito do copo que foi dado à professora Michele, encerro com um trecho da música
“Gota d’Água”, de Chico Buarque:
Já lhe dei meu corpo, minha alegria
Já estanquei meu sangue quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa
Por favor
Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d’água”.



