Merx: corrupção policial abala campanha de Tarcísio em SP
A Operação Merx, deflagrada na última sexta-feira (28) pelo Ministério Público de São Paulo e pela Corregedoria da Polícia Civil, escancarou um esquema de corrupção que cobrava propina para liberar cargas ilegais de celulares e eletrônicos. Sete mandados de prisão foram expedidos, e cinco suspeitos já estão detidos — entre eles três policiais civis, um advogado e um empresário do Paraná. O caso não é apenas mais um capítulo da criminalidade paulista. Ele joga luz sobre a gestão da segurança pública no estado e sobre quem são os responsáveis por ela.
A investigação revelou que o grupo cobrava até 70% do valor das cargas apreendidas para liberá-las. Em conversas obtidas pelo MP, um advogado envolvido no esquema chamava o dinheiro de “caixinha da alegria”. Em pelo menos quatro episódios desde 2024, a propina somou aproximadamente R$ 2,35 milhões. O esquema funcionava com a conivência de agentes que deveriam justamente coibir esse tipo de crime. Os mandados de busca e apreensão foram cumpridos em três estados, evidenciando a capilaridade da rede criminosa.
O ex-secretário de Segurança Pública de São Paulo, Guilherme Derrite (PP), comandou a pasta até se afastar para disputar uma vaga ao Senado. Durante sua gestão, as denúncias de corrupção nas polícias se acumularam. Em agosto de 2024, a própria Corregedoria registrou 340 investigações contra policiais civis e militares. A Operação Merx é o desfecho mais recente de uma cultura de impunidade que o governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) não conseguiu — ou não quis — conter.
A candidata ao Senado Simone Tebet (PSB) aproveitou o desdobramento dos fatos para criticar duramente o ex-secretário. Durante entrevista na última quarta-feira (26), Tebet afirmou que Derrite precisa se explicar sobre o que aconteceu na segurança pública de SP sob sua supervisão. “São denúncias de envolvimento da polícia com o crime organizado que aconteceram durante a gestão dele. A população precisa saber quem foi conivente”, declarou. Tebet e Derrite aparecem tecnicamente empatados na disputa pelas duas vagas ao Senado por São Paulo, segundo pesquisa Quaest divulgada na mesma semana. A diferença entre os dois candidatos é de apenas dois pontos percentuais, dentro da margem de erro.
O governador Tarcísio de Freitas, que construiu sua imagem pública justamente em torno do discurso de segurança, agora enfrenta o desgaste de ver a administração que ele comanda ser alvo de denúncias graves. Durante o primeiro dia da propaganda eleitoral no rádio e na TV, o tema segurança foi o carro-chefe da campanha tarcisista. Mas a Operação Merx soa como um balde de água fria nas promessas de combate ao crime. O horário eleitoral, que começou na sexta-feira (28), exibiu inserções de Tarcísio destacando a redução de roubos e furtos na capital, números contestados pela oposição.
Enquanto Tarcísio tenta se distanciar do bolsonarismo mais radical — e enfrenta o afastamento de parte da ala raiz, que busca refúgio no deputado Ricardo Salles (Novo) —, o escândalo policial expõe uma fragilidade difícil de esconder. O governador não pode simplesmente atribuir a culpa a Derrite, já que foi ele quem o manteve à frente da pasta até a véspera da eleição. A relação entre os dois sempre foi de estreita aliança política, e Derrite foi peça-chave na articulação da candidatura tarcisista à reeleição.
A oposição paulista, liderada por Fernando Haddad (PT), também não perdeu tempo. Durante sabatina na rádio CBN na manhã deste sábado (29), Haddad afirmou que o governo Tarcísio “virou um balcão de negócios” e que a segurança pública em SP está sendo tratada como moeda de troca política. “O que vimos com a Operação Merx foi o que sempre denunciamos: a polícia sendo usada para interesses privados, enquanto o cidadão comum fica desprotegido”, declarou o candidato do PT ao governo. Haddad também lembrou que, em 2025, sua equipe de campanha já havia denunciado indícios de corrupção em delegacias da Grande São Paulo.
O caso já chega ao Tribunal Superior Eleitoral. Aliados de Tebet e de Haddad anunciaram que vão pedir a investigação de eventual uso político do esquema para beneficiar candidaturas da base governista. A legislação eleitoral proíbe a utilização da máquina pública para favorecimento eleitoral, e a linha entre omissão e cumplicidade pode se tornar o centro do debate nas próximas semanas. Especialistas ouvidos pela RedeBrasil apontam que, se houver comprovação de que Derrite tinha conhecimento dos desvios e não agiu, o caso pode configurar improbidade administrativa.
Para o eleitor paulista, o cenário é de incerteza. A segurança pública sempre foi o ponto forte da gestão Tarcísio nas pesquisas de opinião. Com a Operação Merx, esse pilar começa a ruir. A dúvida que fica é até que ponto o caso vai influenciar a reta final da campanha, que ainda tem mais de trinta dias de horário eleitoral pela frente. O MP-SP promete novas fases da investigação nas próximas semanas, o que mantém o tema aquecido no debate público.
A Operação Merx, ironicamente batizada com a palavra latina para “mercadoria”, transformou a segurança pública paulista em produto de barganha. Para o eleitor que acompanha de perto a campanha, fica a pergunta: quem mais estava ciente do esquema? E, mais importante, quantos “Merx” ainda estão por vir?
RedeBrasil




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