Onde queres Leblon, sou Pernambuco
Zapeando o controle remoto em um daqueles dias meio bestas do começo do ano, caí no Canal Viva (que não se chama mais Canal Viva, agora é GloboPlay Novelas, mas todo mundo segue chamando de Canal Viva). A reprise era de “Por amor”, novela que adorava quando foi exibida pela primeira vez. Vou assistir só a uma cena, pensei. Susana Vieira e Regina Duarte, a Helena da vez, em uma discussão elegante, repleta de climas e indiretas. Na cena seguinte, Paulo José agradece pela oportunidade de emprego que Otavio Augusto está lhe dando. “Prometo que nunca mais vou beber”, diz o Paulo José, enquanto nós, em casa, temos a certeza que ele terá uma recaída. Corta para Viviane Pasmanter e Françoise Forton na cena delicada de uma mãe testemunhando o sofrimento da filha pelo homem que ela não vai ter. Corta de novo e Susana Vieira já está no novo escritório do Antonio Fagundes, se insinuando sem se insinuar, e Fagundes fingindo que não entende suas investidas. Dali fomos para a casa de Vera Holtz, espremida em um espartilho por sua mãe, Eloísa Mafalda, enquanto orienta o cardápio especial do jantar para a hilária empregada doméstica de Ingrid Guimarães. Toca a campainha, Vera fica nervosa. Ingrid abre a porta e é Otavio Augusto com um buquê de flores. Fim de capítulo.
- Pedro Pacífico: Eu trago o seu amor de volta em cinco passos
- Joaquim Ferreira dos Santos: O borogodó das Helenas de Manoel Carlos
Quando me dei conta, assisti ao capítulo inteiro. E confesso que me controlei para não ligar a TV no dia seguinte, no mesmo horário, como se fazia antigamente, e assistir ao capítulo novo (apesar de velho). Por trás da elegância dos diálogos, da inteligência da trama e da capacidade de manter o espectador vidrado na televisão estava o autor, Manoel Carlos. Mesmo com cenas enormes para os padrões de hoje, simplesmente é impossível perder o interesse. E convenhamos: um capítulo que conta com esse elenco, como desgrudar da televisão? Não é à toa que a novela foi vendida para mais de 70 países.
Quando em “All her fault”, uma das séries do momento, a família protagonista da série traz à tona conflitos gravíssimos, todos de uma vez só, em uma ceninha mixuruca de tão inverossímil, deu vontade de ligar para o Manoel Carlos e pedir para ele resolver sozinho o que os gringos não conseguiram. Mais adiante, na revelação de uma troca de bebês (perdão pelo spoiler, agora já foi), a vontade foi de levantar a bandeirinha de impedimento: desculpe, mas essa trama já foi explorada no Brasil, há 30 anos, com muito mais substância e humanidade: chama-se “Por amor”.
Na mesma semana em que o novelista morreu, foi a vez de Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho ganharem os Globos de Ouro por “O agente secreto”. Deu gosto ver no palco um Brasil que nos orgulha, sem coitadismo, bem vestido, inglês bem falado, respeitado como gostamos e deveríamos ser sempre. Assim como em “O som ao redor”, “Aquarius” e “Retratos fantasmas”, o novo filme de Kleber nos leva a uma Recife para além do bolo de rolo: o Cinema São Luiz, o Parque Treze de Maio, o Ginásio Pernambucano, escola mais antiga do Brasil, a lanchonete Chá Mate Brasília, a Vila Santo Antônio, que serve ao filme como a vila dos refugiados da inigualável Tânia Maria, o Edifício Trianon, e sua linda vista para o Rio Capibaribe, sem falar na linda cena do bloco de carnaval na rua. Um circuito de fazer inveja às Helenas de Manoel Carlos.
Onde queres Leblon, sou Pernambuco, escreveu o Caetano. De fato, dois lugares díspares, mas que representam boa parte do que entendemos por Brasil. Mérito das vivências e lembranças que os cronistas Manoel Carlos e Kleber Mendonça Filho imprimem em suas obras.


