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Crônica de sábado: a fila

Crônica de sábado: a fila

Crônica de sábado: a fila

Crônica de sábado: a espera na fila

A fila é um universo em suspenso. Nela, não há outra opção senão aguardar. É o momento para bater papo, comentar sobre diversos assuntos, desde o cardápio do almoço até as questões da seleção brasileira, ou até mesmo, para desgosto de alguns, discutir relacionamentos. Para os moradores de São Paulo, a fila pode até ser reconfortante, afinal, se há fila, é sinal de que você está no lugar certo nesta cidade vasta. Para os músicos, a fila é a oportunidade de conquistar uma plateia involuntária e conseguir um trocado para a refeição. Para os apressados, a fila é um espaço para reclamações, impaciência e pedidos de pontualidade absoluta, embora desistam logo em seguida. “Não tem paciência, mas aqui a fila anda rápido”, comentam, protegendo o espaço depois que o rapaz de polo rosa deixa a fila. A fila se desfaz e se recria várias vezes ao dia. É como um organismo vivo, próprio e mutável. Saber quando entrar na fila é como surfar uma onda. E, na fila, pode-se contar com a gentileza de estranhos. Um empréstimo de moeda hoje pode retornar no almoço do dia seguinte ou como sobremesa em dobro, em um gesto sutil que, quanto menos solene, mais belo parece.

Eram cinco minutos para as 7h. Ainda era cedo para os sinos da igreja ecoarem pelo bairro, mas ela já estava lá. E assim como se formou rapidamente, a fila logo se dissipou. Às 9h30, ressurgiu, reunindo dez pessoas. Três outros observavam de fora do galpão. Às 10h, já eram trinta pessoas aguardando o almoço, predominantemente idosos – este é o melhor momento para entrar na fila. Entre as 10h e 10h30, quando a entrada no refeitório é liberada, é o momento em que a fila triplica de tamanho. Em dias de feijoada, a notícia se espalha rapidamente e a fila se estende da banca de jornal da esquina, alcançando 150 pessoas. A fila pode ser ágil, mas a espera pela refeição tem suas vantagens, tornando o tempo na fila uma experiência singular e exclusiva. Uma tirania do estômago, em alto e bom som.

O senhor quase desistiu da fila, mas seu gesto foi interrompido. Ele revirou os bolsos. “Droga, esqueci a moeda no bolso da bermuda!”, lamentou. Seu Antônio tem uma longa barba branca à la Hermeto Pascoal. Eles são parecidos no rosto e até na conversa. Seu Antônio comparece diariamente à fila, mas faz questão de mencionar que é apenas até resolver a questão de sua aposentadoria. “Depois, virei apenas esporadicamente para encontrar os amigos. Fazemos muitas amizades aqui, sabe?”, sorri. Ele é realmente uma pessoa muito amigável. Quase no mesmo instante em que percebeu que esqueceu o dinheiro, recebeu uma moeda emprestada, à qual agradeceu prontamente, oferecendo-se para pagar o almoço do dia seguinte. Encontro marcado: amanhã, às 10h30, na fila.

A fila adentra pelos portões azuis e, então, o tempo segue o ritmo acelerado dos funcionários que servem a comida no balcão. É o tempo da linha de produção, marcado mais pelos ruídos dos talheres de metal do que pelo relógio acima, cujos ponteiros indicam a hora com garfo e faca. Bandejas beges para quem come pouco, bandejas laranjas para quem se serve bem. Olhares de reprovação para quem desperdiça comida são severos e silenciosos. Todos são iguais perante o Bom Prato. Todos são iguais perante a fila. Torcedores do Corinthians e do Palmeiras saboreiam o mesmo bife de fígado com cebola e recebem a mesma mexerica como sobremesa. Operadores de telemarketing e zeladores compartilham a mesma carne de panela com cenoura. Vendedoras de lojas de departamento e moradores de rua celebram o dia da feijoada com o mesmo prazer. Depois, uns se sentam perto da porta para observar o dia passar, enquanto outros retornam ao trabalho apressados. Entregadores de aplicativos se reúnem entre as motos e batem papo, aguardando novos pedidos surgirem. E então, nos deitamos sob o mesmo céu para o sagrado descanso de uma quarta-feira ensolarada.

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