Templários no Brasil? Entenda a verdadeira história da Ordem de Cristo no nosso país
Templários no Brasil? Descubra a verdadeira história da Ordem de Cristo em nosso país
Leia o resumo da notícia
- Ordem dos Templários, ordem religiosa e militar medieval, adquiriu poder na Europa, porém foi dissolvida no século XIV sob acusações de heresia.
- Em Portugal, os bens e membros dos Templários foram transferidos para a Ordem de Cristo, que financiou as expedições marítimas portuguesas, incluindo a chegada ao Brasil em 1500.
- A cruz da Ordem de Cristo nas caravelas de Cabral simboliza a presença indireta dos Templários no Brasil, influenciando a colonização.
- Grupos de extrema direita utilizam símbolos templários para promover ideais conservadores e revisionistas da história brasileira, minimizando o papel de indígenas e africanos.
Que conexão existe entre uma ordem de cavaleiros acusada de heresia na Europa medieval, a cruz vermelha nas velas das caravelas portuguesas e o surgimento de nosso país? Estariam os Templários no Brasil?
Quem eram os Templários?
A Ordem dos Templários foi uma instituição religiosa e militar fundada em 1119, durante as Cruzadas, com o objetivo inicial de proteger peregrinos cristãos na Terra Santa após a Primeira Cruzada. Com o tempo, os templários se tornaram uma das ordens mais poderosas da Europa medieval, adquirindo terras, castelos e influência política e financeira.
A ordem combinava vida monástica com atividade militar, algo inovador para a época. Seus membros faziam votos de pobreza, castidade e obediência, porém a instituição como um todo passou a administrar grandes riquezas. Os templários também foram pioneiros em práticas financeiras, criando sistemas de crédito considerados precursores da banca moderna.
O fim dos templários na Europa
O crescimento do poder templário começou a incomodar reis e autoridades seculares. No início do século XIV, o rei Filipe IV da França, endividado com a ordem, liderou uma ofensiva política contra os cavaleiros. Em 1307, templários foram presos sob acusações de heresia, idolatria e práticas ocultas.
Sob forte pressão do monarca francês, o papa Clemente V dissolveu oficialmente a Ordem dos Templários em 1312. Muitos de seus líderes foram executados. Na maior parte da Europa, os bens templários foram confiscados ou transferidos para outras ordens militares, como a Ordem dos Hospitalários.
Portugal e a criação da Ordem de Cristo
Em Portugal, o destino dos templários foi distinto. O rei Dom Dinis, desconfiando das acusações e interessado em preservar o conhecimento e os recursos da ordem, negociou com o papado uma solução alternativa. Em 1319, foi estabelecida a Ordem de Cristo, que herdou oficialmente os bens, membros e estrutura dos templários em território português.
Na prática, a Ordem de Cristo representou uma reorganização legal dos templários, agora sob um novo nome e sem o estigma das acusações de heresia. A nova ordem desempenhou um papel central na história portuguesa, especialmente durante as Grandes Navegações.
A cruz das caravelas e a expansão marítima
Durante os séculos XV e XVI, a Ordem de Cristo esteve intimamente ligada à expansão ultramarina portuguesa. O infante Dom Henrique, o Navegador, foi grão-mestre da ordem e utilizou seus recursos para financiar expedições marítimas ao redor da costa africana e além.
A famosa cruz vermelha presente nas velas das caravelas portuguesas era, de fato, a cruz da Ordem de Cristo — símbolo que derivava diretamente da tradição templária. Essa cruz tornou-se um emblema da expansão portuguesa e esteve presente em viagens que culminaram na chegada dos europeus à África, à Ásia e, em 1500, ao Brasil.
Existiram Templários no Brasil?
Embora os templários como ordem medieval não existissem oficialmente durante o descobrimento do Brasil, sua herança simbólica, institucional e política chegou ao território americano por meio da Ordem de Cristo.
Dessa forma, pode-se afirmar que a presença templária no Brasil é indireta, representada pelos símbolos, organização e financiamento das expedições portuguesas. A cruz da Ordem de Cristo, estampada nas velas das embarcações de Pedro Álvares Cabral, tornou-se um dos símbolos mais marcantes do início da colonização brasileira.
Uso político dos Templários
Não é incomum ver sites e produtoras de vídeo de extrema direita tentando conectar diretamente a história do Brasil aos templários. Isso se deve a um movimento de conexão entre este grupo e ideias alinhadas ao pensamento político conservador no país.
Segundo o pesquisador João Vitor Fanazia Viegas, da UFMT, “a extrema-direita contemporânea frequentemente se apropria dos símbolos dos templários, reinterpretando as Cruzadas como momentos de confrontação direta entre um ‘Ocidente cristão’ idealizado e um ‘inimigo islâmico’”.
Grupos bolsonaristas e conservadores apropriam símbolos medievais (Cruzadas, ordens militares) para glorificar Portugal e “embranquecer” a história brasileira, minimizando indígenas e africanos.
Em artigo publicado na revista Dossiê, o professor de história medieval da Universidade Federal do Piauí João Paulo Charrone, a produtora audiovisual de extrema direita Brasil Paralelo usa os símbolos da Idade Média e a suposta conexão indireta de Cabral com os Templários como um projeto de futuro derivado de uma narrativa revisionista que procura (re)construir uma identidade nacional brasileira pelo viés supremacista.


