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Mercado de trabalho segue fechado para pessoas trans, mas projetos sociais tentam mudar cenário

Mercado de trabalho segue fechado para pessoas trans, mas projetos sociais tentam mudar cenário

Mercado de trabalho segue fechado para pessoas trans, mas projetos sociais tentam mudar cenário

Mercado de trabalho ainda fechado para pessoas trans, mas iniciativas sociais buscam mudar cenário

Marcela Moraes, uma mulher transgênero, nunca teve um emprego formal e, aos 65 anos, está em busca de uma oportunidade de trabalho na cidade de São Paulo, conhecida como a capital das oportunidades. Seu objetivo é garantir uma renda estável, concluindo o Ensino Médio por meio do Projeto Reinserção Social Transcidadania da Prefeitura paulistana.

A falta de acesso à educação não foi uma escolha para Marcela, mas uma consequência de décadas de discriminação por ser uma mulher trans, o que a excluiu do mercado de trabalho. A discriminação sistêmica nas décadas de 80 e 90 a empurrou para a prostituição como única forma de sobrevivência.

“Eu nunca tive um emprego. Na minha época, ninguém contratava pessoas como eu. Trabalhei nas ruas e não me arrependo. Foi o que me sustentou. Sempre busquei, mas nunca recebi oportunidades. Quando descobriam que eu era trans, recusavam. Nunca fomos respeitadas pela sociedade. Imagine tentar um emprego e ser ridicularizada”, relata.

Mesmo com um passado desafiador, Marcela planeja seu futuro. Após concluir o Ensino Médio, ela almeja estudar História da Arte na Universidade de São Paulo (USP) e trabalhar na área. “Será uma realização imensa para mim”, destaca.

De acordo com uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), apenas 25% das pessoas trans estavam empregadas formalmente em 2023, um índice 6,8 pontos abaixo da população em geral. A disparidade é mais acentuada entre mulheres trans, com uma taxa de emprego formal de 20,7%, comparada a 31,1% entre homens trans.

A diferença também se reflete nos salários. Em média, pessoas trans recebem R$ 2.707 por mês, um valor 32% menor que a média nacional de R$ 3.987. Mesmo entre profissionais com ensino superior completo, trabalhadores trans ganham em média 27,6% a menos que seus pares não trans.

Projetos sociais em ação para transformar a realidade

Iniciativas sociais estão empenhadas em mudar esse cenário. A TransEmpregos é uma plataforma que conecta empresas com vagas disponíveis a pessoas trans em busca de emprego. Além de enviar currículos, a plataforma oferece a oportunidade de participar de cursos de formação e atividades. As empresas parceiras podem anunciar vagas e acessar conteúdos exclusivos para implementar e aprimorar políticas de inclusão.

A TransEmpregos foi fundada em 2013 por Maite Schneider, Laerte Coutinho, Márcia Rocha e Letícia Lanz. A plataforma inicialmente focava na apresentação de currículos às empresas, mas evoluiu para apoiar a criação de ambientes de trabalho acolhedores para os contratados. Ao longo de 12 anos, cerca de 10 mil pessoas foram contratadas por meio da plataforma.

“No início, nosso trabalho era divulgar currículos para possíveis contratações. Com o tempo, expandimos para ajudar as empresas a criar ambientes inclusivos. Percebemos que muitas contratações não se sustentavam devido à falta de aceitação entre colegas”, explica Schneider.

“Atualmente, também colaboramos com empresas interessadas em promover mudanças sociais. Estabelecemos diversas parcerias que visam não apenas a empregabilidade, mas um mundo verdadeiramente inclusivo. Nosso objetivo é que as pessoas sejam avaliadas pelo RH sem preconceitos ou discriminações”, enfatiza Schneider.

Eduarda Soares, de 30 anos, é uma atriz e modelo desempregada há cinco anos. Ela destaca as dificuldades enfrentadas, incluindo a falta de conclusão dos estudos e o preconceito. “Minha maior barreira era terminar os estudos para conseguir um emprego. Além disso, enfrentamos muito preconceito. Dependia do auxílio emergencial, pois a realidade é dura para nós. A desigualdade é evidente”, relata.

Nascida no Maranhão, Soares veio para São Paulo em busca de melhores oportunidades. Apesar dos obstáculos enfrentados, conseguiu construir sua carreira, mas a pandemia a fez retroceder. “Iniciei minha transição cedo e enfrentei muitas rejeições. Após concluir o ensino médio, desejo trabalhar novamente”, conclui.

Menores taxas de inserção no Nordeste e Centro-Oeste

Segundo um relatório, São Paulo e Rio de Janeiro foram os estados com mais contratações no ano anterior, com 57,1% e 26,2% de pessoas trans empregadas, respectivamente. Esses dados refletem a pesquisa do Ipea, que aponta as regiões Sul (28,4%) e Sudeste (27,4%) com as maiores taxas de empregabilidade, enquanto Nordeste (17,8%) e Centro-Oeste (24%) registram os índices mais baixos.

Bruna Garcia, com 44 anos, busca sair das ruas gradualmente e encontrar um emprego formal após duas décadas. “Quero parar e procurar algo novo aos poucos, pois dependemos disso para sobreviver e realizar tarefas. A ideia é buscar novas oportunidades gradualmente”, destaca.

O preconceito persiste no mercado de trabalho, muitas vezes de forma sutil, mas perceptível para os indivíduos. “Sempre haverá preconceito. Mesmo que não seja explícito, está presente nas mentes das pessoas. Observamos nas conversas e atitudes. Às vezes não dizem diretamente que não há vaga, mas percebo pelo olhar e atitude quando sou tratada de forma diferente”, relata.

O Projeto Nacional de Empregabilidade LGBTQIAPN+ da Coordigualdade, do Ministério Público do Trabalho (MPT), é outra iniciativa que auxilia a população trans na busca por empregos.

O procurador do Trabalho Igor Sousa Gonçalves destaca que o objetivo é “uniformizar e ampliar” as ações na área, consolidando diretrizes para a inclusão da população LGBTQIAPN+ no mercado de trabalho.

“O projeto visa combater a exclusão histórica da população LGBTQIAPN+ do mercado formal de trabalho, promovendo inclusão social e econômica, garantindo acesso a oportunidades dignas e valorizando a diversidade. Além disso, estimula a implementação de políticas públicas e ações afirmativas no setor privado e na administração pública”, ressalta Gonçalves.

No período de 2024-2025, o projeto capacitou 368 pessoas LGBTI+ e registrou 121 contratações formais. “Esses números demonstram que a iniciativa está transformando a capacitação em empregabilidade efetiva, ampliando o debate sobre diversidade e inclusão no mercado de trabalho brasileiro”, destaca o procurador.

Desafios e soluções

Bruna Benevides, presidente da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), destaca que o principal desafio para garantir emprego e permanência da população trans não está relacionado à educação ou qualificação, mas sim a obstáculos institucionais que restringem o acesso e a permanência no emprego.

A “transfobia estrutural no mercado de trabalho, que começa na exclusão escolar e se consolida na recusa de contratação”, é apontada como o cerne do problema. “Pessoas trans, especialmente travestis e mulheres trans negras, enfrentam discriminação explícita em processos seletivos, informalidade forçada, rotatividade, subemprego e assédio no ambiente de trabalho. A exclusão não se deve à falta de qualificação, mas sim a barreiras institucionais, ausência de políticas afirmativas e negação do direito básico ao trabalho digno”, destaca Benevides.

Para enfrentar esse cenário, Benevides defende a atuação direta do Estado por meio de políticas públicas para o emprego, como ações afirmativas, reserva de vagas em concursos e programas públicos, estímulos à contratação com garantia de direitos e fiscalização contra práticas discriminatórias. “O Estado precisa agir de forma direta e estruturada”, ressalta.

“É fundamental garantir nome social, retificação de documentos sem obstáculos, ambientes de trabalho seguros e políticas intersetoriais que conectem educação, trabalho, saúde e assistência. Sem essas medidas, a promessa de empregabilidade permanecerá vazia e a exclusão continuará empurrando vidas trans para a margem”, conclui.

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