O Jim Jones mineiro
Por Cleber Lourenço
O incidente que motiva este texto não é um mero detalhe secundário, nem uma anedota trágica a ser rapidamente esquecida. Durante uma marcha política organizada por simpatizantes do deputado Nikolas Ferreira, em uma rodovia federal, uma mulher foi atingida por um raio. A manifestação prosseguiu apesar dos alertas meteorológicos oficiais que apontavam alto risco de chuvas intensas e descargas elétricas. Pessoas ficaram feridas. O perigo era conhecido. A decisão de continuar adiante foi deliberada.
Portanto, não se trata de um evento imprevisível ou de uma tragédia inevitável. Havia informação, havia aviso e havia tempo para recuar. Mesmo assim, optou-se por manter a marcha, como se a demonstração política fosse mais importante do que a segurança dos participantes. Quando o raio atingiu, não atingiu apenas corpos. Foi uma escolha consciente.
Dias depois, a mulher atingida afirmou, em entrevista, que se tivesse falecido “não seria um problema”, pois a causa era “justa”. A declaração por si só já seria inquietante, ao normalizar a própria morte como um efeito colateral aceitável da atividade política. Ela revela o quanto a lógica do sacrifício já estava internalizada. No entanto, a situação se agravou quando o próprio Nikolas decidiu comentar publicamente sobre a afirmação.
A resposta não foi de prudência, mas de exaltação. Ao invés de assumir responsabilidade, houve retórica inflamada. O deputado escreveu que “a vida não tem valor quando vivida sem propósito” e criticou o que chamou de “covardia disfarçada de prudência”. Não houve reconhecimento de erro, reflexão sobre segurança ou sequer um gesto mínimo de cuidado com aqueles que se expuseram ao perigo. Houve celebração. Houve aplauso simbólico à ideia de que morrer pode ser aceitável, desde que por uma causa considerada nobre.
Aqui é onde o caso transcende a imprudência em uma manifestação política e revela algo estruturalmente mais perigoso. Existem frases que não requerem interpretação, mas sim alarme. Quando um parlamentar afirma que a vida humana só tem valor se estiver subordinada a um propósito superior — um propósito que ele próprio se atribui o direito de definir —, não se trata apenas de opinião, mas de doutrinação política baseada na desvalorização da vida.
A partir desse ponto, a política deixa de ser um debate público e começa a flertar com a lógica de um culto. A segurança é transformada em medo, a prudência em covardia, a legalidade em obstáculo, o cuidado em fraqueza moral. O corpo deixa de ser sujeito de direitos e passa a ser um instrumento simbólico. O risco deixa de ser um problema a ser evitado, tornando-se uma prova de fé a ser exibida. O ferimento é convertido em certificado de pureza. A irresponsabilidade, em virtude.
Esse tipo de discurso tem um propósito claro: isentar a liderança de qualquer responsabilidade concreta. Se o risco é considerado virtuoso, não há erro. Se a morte é vista como nobre, não há culpa. Se o sofrimento é encarado como um sinal de comprometimento, toda crítica se torna um ataque covarde. Trata-se de uma engenharia retórica que transforma vítimas em símbolos e líderes em intocáveis.
Esse método não é novo. A história está repleta de líderes que descobriram que a morte mobiliza mais do que a vida e que o sacrifício emociona mais do que a cautela. O padrão se repete com frequência impressionante: desumanizar os questionadores, ridicularizar os que buscam responsabilidade, tratar os seguidores como massa útil desde que estejam dispostos a se expor. Sempre há um discurso sobre despertar, propósito, rompimento com a vida cotidiana e rejeição da “mediocridade” da existência protegida.
Jim Jones foi um líder religioso norte-americano que, na década de 1970, estabeleceu uma seita baseada na obediência total e no sacrifício em nome de uma causa. Em 1978, na Guiana, mais de 900 pessoas morreram em um suicídio coletivo após serem convencidas de que a morte era preferível à vida fora daquela comunidade.
A analogia pode incomodar, mas não é um insulto gratuito. É a identificação de um padrão retórico. Não se está sugerindo a presença de uma seita literal (por enquanto) ou de um culto religioso formal. Está-se apontando para uma estratégia política: relativizar a vida, glorificar o risco e transformar o sofrimento alheio em instrumento pedagógico. Quando alguém ensina que a vida só tem valor se servir a uma causa maior, a próxima etapa é determinar quais vidas podem ser descartadas. E, invariavelmente, nunca é a do líder.
Não se trata de fé. Não se trata da mulher ferida. Não se trata de convicções pessoais. Trata-se de um agente público que, diante de um cenário de risco real, opta por utilizar a dor como narrativa e a possibilidade de morte como argumento político. Trata-se de alguém que, ao ver pessoas machucadas, responde com epopeia ao invés de responsabilidade.
Isso não é coragem. É covardia sob a roupagem de heroísmo. É fácil glorificar o risco quando se está protegido pelo mandato, pelo microfone, pela distância física do perigo. A verdadeira coragem é assumir a responsabilidade quando o raio cai, quando o corpo cai, quando a retórica encontra a crua realidade.
O Brasil testemunhou muitas vezes esse enredo para fingir ignorância. Sempre que alguém propaga a ideia de que a vida tem pouco valor e a causa vale tudo, o desfecho é previsível. Não é grandioso, não é redentor, não é heroico. É composto de corpos que não estavam no controle, de seguidores convencidos de que morrer era aceitável.
Por isso, o título deste texto não é uma provocação gratuita. É um alerta. Sempre que um líder político passa a enxergar a morte como virtude, o risco como prova de fé e a vida como irrelevante, ele deixa de atuar como representante público e começa a se comportar como aquilo que a história já conhece bem. É assim que surgem os Jim Jones — inclusive os de Minas.



