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Os sentidos da folia – Meio

Os sentidos da folia – Meio

Os sentidos da folia – Meio

Tempo é algo que se mensura de forma distinta ao pensarmos no Carnaval. Hoje é oficialmente o primeiro dia da folia e tudo culminará na quarta-feira, como recorda a emblemática música de Vinicius de Moraes e Tom Jobim. Para aqueles que moldam os bastidores da maior festa popular do Brasil, a ideia de que o Carnaval se resume a quatro dias é uma ficção burocrática. Uma ilusão conveniente para turistas e planilhas municipais. Em 2026, ao questionarem o significado de “brincar o Carnaval”, a primeira resposta que emerge das vozes que dão vida à festa — desde o chão de terra batida da Zona da Mata pernambucana até os camarotes climatizados de Salvador — é uma recusa radical à efemeridade.

“O Carnaval é uma forma de existir no mundo, não se limita a esses dias”, define Alessandra Leão, cantora, compositora e pesquisadora que transita entre a música contemporânea e as tradições de Pernambuco. Para ela, e para os mestres com quem convive, o conceito de resistência já não é mais suficiente. O termo correto, o verbo que se conjuga em 2026, é sobre-existência.

Essa sobre-existência é um compromisso em tempo integral. Em Nazaré da Mata, as golas bordadas dos caboclos de lança do Maracatu Rural começam a ser confeccionadas em abril, em um ciclo que não se atém ao ano letivo ou fiscal. “Ninguém participa do Carnaval sem se fundamentar espiritualmente. O maracatuzeiro se prepara espiritualmente, realiza seus rituais, seja na Jurema, seja no Candomblé”, explica Alessandra. A festa é apenas a manifestação visível de uma energia acumulada silenciosamente, o lugar onde se busca a força para enfrentar o restante do ano.

No Rio de Janeiro, a escritora e pesquisadora Rachel Valença, coautora de Três poetas do samba-enredo: Compositores que fizeram história no carnaval, observa o mesmo fenômeno sob a perspectiva das escolas de samba. Ela questiona a lógica racional que levaria alguém a levar seu corpo ao limite sem obter recompensa financeira imediata. “O que leva um ritmista a tocar aquele surdo até a mão sangrar? Ele não ganha nada, chega a brigar por uma vaga na bateria para passar por esse sofrimento”, diz Rachel. Para ela, trata-se de uma “obrigação interior”, uma força histórica superior que arrasta o indivíduo para a rua, ignorando a repressão ou permissividade de cada época.

Isabel Guillen, historiadora em Recife, professora da Universidade Federal de Pernambuco, complementa esse cenário lembrando que a festa é um milagre econômico às avessas. As agremiações são mantidas por pessoas das periferias, muitas vezes de baixa renda, que economizam durante o ano para adquirir a fantasia de rei, pirata ou jardineira. É um exercício de resiliência financeira e criativa que desafia a lógica da escassez.

Brincar em 2026, portanto, é, acima de tudo, um ato de preservação de um modo de vida. Mas enquanto a motivação interna permanece inalterada, o contexto onde ela se manifesta — o Brasil urbano, polarizado e financeirizado — transformou o Carnaval em um espelho de divisões expostas.

Cidades em disputa

Nenhuma cidade brasileira personifica melhor as tensões do Carnaval de 2026 do que São Paulo. A metrópole, onde historicamente parte da população se orgulhava de ser o antro do samba e o motor do trabalho, tornou-se o palco de uma batalha simbólica pelo ethos urbano.

Guilherme Varella, advogado e gestor cultural, autor de Direito à Folia, argumenta que o Carnaval disputa a mentalidade coletiva da cidade. São Paulo entra em colapso quando submetida à lógica do lazer. “Nesse momento, São Paulo é a cidade que não produz, a cidade da alegria, do prazer”, diz Varella. Contudo, essa mudança não é bem recebida pela administração pública atual. Segundo ele, a prefeitura não enxerga a festa como um patrimônio cultural a ser promovido, mas como um entrave urbano e, pior ainda, uma plataforma de demagogia securitária.

“Eles acreditam que o Carnaval é um meio de mostrar serviço na segurança pública, de alimentar um discurso de desordem, de baderna”, analisa Varella. A festa torna-se a desculpa perfeita para o aumento da presença policial e para abordagens indevidas, sob o pretexto de “restaurar a ordem” em algo que, por natureza, é a suspensão da rotina habitual.

Salloma Salomão, historiador, músico e educador, eleva o tom da crítica sociológica. Para ele, o Carnaval é “um ato corriqueiro de liberdade e alegria diante da tendência de neopentecostalização e melancolia capitalista do Brasil”. Nesse ambiente árido, onde, avalia Salomão, protestos e manifestações (como ele se refere aos blocos) foram reprimidos ou privatizados, exceto a Marcha Para Jesus, o Carnaval permanece como a única atividade de rua amplamente cultivada pela população. No entanto, ele adverte: o que vemos atualmente é uma comercialização radical, imposta pelo entretenimento em conluio com a administração pública.

Essa comercialização não vem sem riscos. Tadeu Kaçula, sambista e sociólogo, descreve a experiência de brincar o Carnaval em São Paulo hoje como uma aventura, mas não no sentido lúdico. “Tornou-se uma aventura arriscada, colocando a própria vida em perigo”, afirma. A superlotação, resultado de uma estratégia que inflou o Carnaval para atrair megablocos e marcas globais, criou um ambiente onde a infraestrutura urbana entra em colapso.

Varella ressalta que a agenda da cidade tornou-se esquizofrênica: liberal na economia, entregando a festa aos patrocinadores, e conservadora nos costumes. Ele menciona o episódio do golden shower do Carnaval de 2019 como exemplo do radicalismo político do corpo. O Carnaval, ao expor o privado ao público, torna-se a manifestação política mais extrema possível, muito além de uma passeata com faixas. É precisamente por isso que é tão reprimido e controlado.

Trincheira da Identidade

Se o asfalto é um campo de batalha, a identidade sonora, visual e racial da festa é outra arena. O que o Carnaval de 2026 revela sobre o Brasil? Para os envolvidos, evidencia um processo de “embranquecimento” em curso, que não se limita à cor da pele dos foliões, mas à diluição das origens fundamentais da festa.

Tadeu Kaçula é incisivo ao resgatar a história de Dionísio Barbosa, fundador do Grupo Barra Funda em 1914, pioneiro do Carnaval paulistano. Kaçula traça a geografia da segregação: o Carnaval negro teve início na Barra Funda e Higienópolis; quando a elite branca se incomodou, foi deslocado para a Avenida Tiradentes (próxima da Rota); e, por fim, exilado para o Anhembi, à margem do rio e da marginalidade geográfica. Hoje, ele enxerga a invasão da música eletrônica e do sertanejo nos blocos como a continuação desse processo. “É um apagamento flagrante das raízes do samba de São Paulo”, denuncia.

Bernardo Oliveira, crítico e pesquisador carioca, autor de Tom Zé: Estudando o Samba e sócio do selo QTV, compartilha dessa visão crítica, mas voltada para o Rio de Janeiro. Ele classifica como “escrotice” e “apropriação” a presença de blocos que tocam Beatles, Mario Bros ou rock, ignorando a essência do samba. Para Bernardo, a essência do Carnaval reside na tradição ancestral das orquestras de percussão criadas pelas comunidades negras para marcar o tempo e ocupar o espaço. Quando isso é substituído por caixas de som reproduzindo pop, perde-se o significado. “A cultura negra está sendo subjugada aos desejos de uma elite branca”, critica.

Bernardo também aponta a hipocrisia na Sapucaí. Ele destaca que o desfile, muitas vezes romantizado, reflete a “luta social e a manutenção de privilégios”. Famílias de contraventores, brancas e ricas, dominam a festa há décadas, sendo esteticamente sustentadas pelo trabalho do sambista negro da bateria. Ele menciona nominalmente figuras como Gabriel David, herdeiro da Beija-Flor, que transita entre o poder institucional e a tradição do crime organizado, exemplificando como a festa é conduzida.

No entanto, há visões que buscam negociar com essa crise identitária. Rachel Valença, embora purista em relação às baterias de escola de samba — onde considera a introdução de ritmos estranhos uma afronta —, é mais tolerante com os blocos de rua. Ela observa o surgimento dos blocos de Jesus: comunidades evangélicas que, embora condenem a festa, sentem a necessidade humana de participar e organizam seus próprios desfiles. “Se são contra o Carnaval, por que louvar justamente no Carnaval?”, questiona, interpretando isso como evidência de que a atração da festa é irresistível.

Em São Paulo, essa miscigenação resulta no que Guilherme Varella chama de “desidentidade”. Ao contrário de Recife ou Salvador, que possuem tradições dominantes marcantes, São Paulo absorve tudo: desde o bloco LGBTQIA+ de música eletrônica ao desfile tradicional, passando pelo bloco que toca Fábio Jr. “É uma identidade meio difusa”, descreve Varella, sugerindo que essa falta de definição é, paradoxalmente, a essência da cidade.

Economia da desigualdade

Talvez a resposta mais contundente sobre o Brasil de 2026 venha da economia da festa. O Carnaval atua como uma “lente ampliada da desigualdade social”, uma “afirmação exagerada da realidade”, conforme menciona Varella, citando a socióloga Maria Isaura Pereira de Queiroz.

Alessandra Leão relata a humilhação diária imposta à cultura popular em Pernambuco. Enquanto os grandes palcos recebem verbas vultosas e artistas populares, as agremiações tradicionais são tratadas com descaso. Ela compartilha a história de um mestre de maracatu que, ao entrar em um camarim, se surpreendeu ao encontrar frutas e água, pois estava habituado a receber apenas “um sanduíche de meio pão” como alimento para seu grupo. “A cultura popular continua sendo mal remunerada e desrespeitada. Um maracatu sair às ruas, nessa perspectiva, é um ato de desafio.”

Isabel Guillen aponta uma consequência nociva dessa comercialização em Recife: o “Carnaval de palco” está sufocando o “Carnaval de rua”. Os jovens das periferias, seduzidos pela fama instantânea dos shows no Marco Zero, deixam de se interessar em desfilar nas agremiações tradicionais, que demandam compromisso e trabalho árduo o ano todo. “Isso está matando as agremiações”, alerta a historiadora.

O contraste é gritante quando olhamos para Salvador. Edivaldo Bolagi, produtor cultural, descreve a Bahia como um “caldeirão de contradições antropofágicas”. Ele relata a opulência exagerada dos camarotes, mencionando o episódio de um xeque árabe que desembarcou em jato particular, cercado por dezenas de mulheres e seguranças, tentando “privatizar” um trecho da via pública com um cheque em branco para o dono do camarote. “É a megalomania, a grandiosidade faraônica”, afirma.

Bolagi também expõe a complexidade racial e social da festa baiana por meio do fenômeno do cantor O Kannalha. Suas letras sexualmente explícitas são entoadas a plenos pulmões pela elite branca nos camarotes de R$ 4 mil, em uma validação social que ignora a dupla interpretação, enquanto a mesma elite paga caro para ver uma sambista cantar sobre a favela, desde que esteja protegida atrás das grades do camarote VIP. Ao mesmo tempo, ele destaca que o Nordeste de Amaralina, comunidade periférica e estigmatizada pela violência policial, realiza o maior Carnaval de bairro da cidade com índice zero de violência, demonstrando que o perigo muitas vezes não está onde o preconceito aponta.

Ética do encontro

Frente a essa apropriação, risco e desigualdade, o que resta? Resta a ética do encontro e o respeito ao sagrado da festa. Alessandra Leão oferece uma lição prática que serve como metáfora para o Brasil de 2026: “A gente não atravessa a orquestra no meio”.

Em Pernambuco, há um código de conduta tácito, porém rigoroso. Se um maracatu está passando, não se atravessa o cortejo. Se duas agremiações se encontram, a mais recente pede passagem e abaixa o estandarte para a mais antiga. “São normas de convivência e de hierarquia histórica”, explica Alessandra. Ela relata ter presenciado uma mãe repreender severamente a filha que tentou atravessar um maracatu: “Você não tem o direito de fazer isso”. Em um país onde o espaço público é tratado como terra de ninguém ou propriedade privada, essa etiqueta carnavalesca é um exemplo de civilidade.

Salloma Salomão lembra que, apesar de tudo, o Carnaval é um “vestígio de ritos africanos e festividades indígenas” que sobreviveu à catequização e à comercialização. Ele destaca a importância de grupos como o Ilú Obá De Min, composto por mulheres que tocam tambor desafiando a supremacia masculina, como exemplos de que a festa ainda abriga núcleos de transformação genuína.

Espelho partido

Brincar o Carnaval em 2026, portanto, não é um ato de alienação. É encarar a potência do furacão. A festa não nega a realidade brasileira; ela a intensifica. Se o país é racista, o Carnaval escancara o racismo na seleção do repertório e na distribuição geográfica dos blocos. Se o país é desigual, a festa ergue barreiras de camarotes que segregam quem degusta caviar de quem se contenta com “meio pão”.

No entanto, é também nessa brecha dessa engrenagem impiedosa que a vida pulsa com mais vigor. Seja na mão ferida do ritmista no Rio, na gola bordada em Nazaré da Mata, ou na persistência de um bloco pequeno em ocupar as ruas de São Paulo contra a burocracia.

Como resume Salloma Salomão: “É a contrapartida de uma caretice generalizada”. Em uma soc