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A ruptura da ordem mundial e como olhar para a frente

A ruptura da ordem mundial e como olhar para a frente

A ruptura da ordem mundial e como olhar para a frente

Título: A transformação da ordem global e perspectivas para o futuro

Organizações como ONU e OMC revelaram-se incapazes de resolver conflitos e estão perdendo relevância; as soluções diretas e individuais das grandes potências representam um risco, porém parecem ser inevitáveis.

Donald Trump completou o primeiro ano de seu segundo mandato em 20 de janeiro de 2025. No dia seguinte, o presidente norte-americano desembarcou em Davos, na Suíça, e surpreendeu os líderes globais com sua abordagem – até agora, mais retórica e diplomática – sobre o controle da Groenlândia.

Ainda em Davos, Trump oficializou o lançamento do Conselho da Paz, uma organização multinacional criada para resolver inicialmente o conflito entre Israel e Hamas na Faixa de Gaza. Posteriormente, o conselho seria utilizado para solucionar outros conflitos globais e, na prática, substituir a ONU (Organização das Nações Unidas), conforme sugerido pelo próprio presidente dos EUA. De acordo com o documento constitutivo do Conselho da Paz, é evidente que o protagonismo será mantido pelo republicano mesmo após deixar a Casa Branca.

O marco do primeiro ano do novo governo americano foi significativo, pois as retrospectivas tradicionais desse período, compilando as decisões impactantes do presidente, ajudam a dimensionar as transformações que ganharam destaque com as ações de Trump.

Nesse curto espaço de tempo, o estilo direto de Trump forçou outros líderes mundiais a reconhecerem uma realidade que vinha sendo ignorada nos grandes fóruns: uma nova ordem global está se delineando.

O sistema em desenvolvimento em nada se assemelha ao sonho de uma globalização multilateral imaginado no século 20, principalmente no período pós-Segunda Guerra Mundial, a partir de 1945.

O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, proferiu o discurso mais lúcido em Davos sobre o tema, afirmando que havia uma fantasia na qual todos acreditavam, mas agora há uma ruptura e a antiga ordem não retornará.

O ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Friedrich Merz, afirmou que a ordem internacional dos últimos 30 anos está sendo substituída por uma disputa aberta entre potências.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, declarou a necessidade de adaptação a essa nova realidade. Ela enfatizou que a nostalgia não trará de volta a antiga ordem e que é essencial que a Europa se ajuste a essa mudança permanente.

A ORDEM DOS VENCEDORES

O fim da Segunda Guerra Mundial estabeleceu o arranjo tradicional dos vencedores, consolidando os Estados Unidos como uma grande potência e também o antagonismo entre os americanos e a então extinta União Soviética. O mundo foi bipolar por décadas, com o desejo de uma governança global como base desse modelo. Essa governança seria alcançada por meio de organizações internacionais capazes de resolver conflitos globais, promover a paz e impulsionar o desenvolvimento mundial.

Na esteira desse ideal de governança global, o FMI (Fundo Monetário Internacional) e o Banco Mundial foram criados na Conferência de Bretton Woods em 1944, seguidos pela ONU em 1945. Essas três instituições, com suas sedes nos Estados Unidos, empregam cerca de 59.000 burocratas ao redor do mundo.

Após o estabelecimento do FMI, Banco Mundial e ONU, a burocracia internacional continuou a crescer, com o surgimento de novas ramificações e organizações multilaterais. Foram assinados tratados e criado um ecossistema complexo de diplomatas, organizações governamentais e não governamentais, funcionários públicos, privados e até voluntários.

Esse sistema tornou-se gigantesco, com a pretensão de estabelecer normas e regular tudo o que ocorre no planeta. Contudo, é importante ressaltar que essa casta de burocratas, que ocupa posições-chave, não foi eleita por voto direto, mas sim designada por acordos e negociações diplomáticas entre diversos países.

Esse modelo funcionou com certo equilíbrio em suas primeiras décadas. A ONU definiu parâmetros para a criação do Estado de Israel em 1948, e os Estados Unidos e a União Soviética orientaram as ações durante a Guerra Fria, além de firmarem tratados sobre a proliferação de armas nucleares. Após a queda do Muro de Berlim em 1989 e o colapso da URSS em 1991, uma hegemonia econômica americana foi estabelecida, perdurando até cerca de 2010.

Nesse período, surgiu o artigo “O Fim da História”, do cientista político e economista norte-americano Francis Fukuyama. Sua tese simples, porém não tão precisa como imaginado, enfatizava a consolidação irreversível da hegemonia das democracias com um modelo de economia liberal e de mercado, em contraposição ao modelo centralizado e autocrático do antigo bloco soviético.

Hoje, a supremacia dos Estados Unidos está desafiada e ameaçada pela China, um país que popularizou o capitalismo de Estado. A mudança no cenário do comércio mundial reflete esse desafio, com a China emergindo como principal parceiro comercial em muitos países.

O MUNDO PRÉ-CHINA

Antes da ascensão da China no cenário geopolítico, o establishment econômico liberal pró-globalização contribuiu para financiar o crescimento e a estabilidade das organizações multilaterais. A liderança dos EUA na imposição de regras sem contestação foi a norma.

A criação da Organização Mundial do Comércio em 1995, com sede em Genebra, visava pacificar os conflitos comerciais globais, porém não obteve sucesso. O organismo está praticamente paralisado desde 2019.

A questão ambiental ganhou destaque global com eventos como a Eco 92, as COPs, o Protocolo de Kyoto em 1997 e o Acordo de Paris em 2015.

Com o crescimento da burocracia e a proliferação de organizações e siglas, a ONU, juntamente com outras entidades multilaterais, tornou-se cada vez mais proeminente na regulação global, embora muitas vezes sem a legitimidade do voto direto.

Esse modelo, que atuava na pretensão de regular todas as questões globais, funcionou com certa estabilidade em suas primeiras décadas, até que a China desafiou essa ordem estabelecida.

MUDANÇA GEOPOLÍTICA

O cenário geopolítico está passando por transformações significativas, com a hegemonia econômica e política dos EUA sendo desafiada pela ascensão da China. Esse novo panorama exige novas abordagens para a interação entre os países do mundo.

A China, com seu capitalismo de Estado liderado por Xi Jinping, representa uma ameaça real à supremacia econômica americana. O avanço chinês é descrito por Martin Wolf, em artigo no Financial Times, como neomercantilismo.

É fundamental destacar que a ascensão da China difere de ameaças anteriores enfrentadas pelos EUA, como a japonesa nos anos 1970 e 1980 e a dos tigres asiáticos nos anos 1990. A China representa um desafio contínuo devido à sua abrangência e influência crescentes em diversas áreas.

A China não apenas avança economicamente, mas também exerce poder através de soft power, com produções culturais de sucesso em mercados globais.

Essas mudanças geopolíticas têm levado a uma reavaliação do papel das organizações multilaterais como a ONU, que enfrenta um crescente questionamento de sua eficácia e relevância no cenário atual.

INTERREGNO

O mundo vive um momento de transição, conforme definido pelo filósofo Antonio Gramsci como interregno, caracterizado pela morte do antigo e a emergência do novo. Nesse contexto, é necessário repensar as estruturas multilaterais diante das transformações globais em curso.

Essa nova realidade requer líderes capazes de enfrentar os desafios do século 21, abandonando modelos obsoletos em prol de construir um sistema internacional mais alinhado com as demandas atuais. É fundamental olhar para frente e buscar soluções inovadoras para os dilemas globais.

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