Arrastão dos Blocos denuncia ataques do governo Nunes contra o carnaval de rua em SP
Título: Protesto dos Grupos de Carnaval denuncia restrições do governo Nunes ao carnaval de rua em São Paulo
Representantes de 69 grupos de carnaval de rua da cidade de São Paulo realizaram um protesto na noite de quinta-feira (12) para reivindicar melhores condições de organização e participação durante o carnaval de rua. Segundo os manifestantes, o governo liderado por Ricardo Nunes está dificultando a realização do carnaval de rua ao impor regras e restrições às atividades.
Os manifestantes marcharam da Praça Dom José Gaspar, de onde saíram por volta das 20h, até a sede da prefeitura de São Paulo, com muita dança, canto, música e pedidos por um carnaval mais aberto e popular.
Dentre as demandas estão a ampliação do horário para os desfiles dos grupos, sem limitação ao horário comercial, a abertura dos espaços nas ruas e praças, sem cercas e tapumes, além do fornecimento de mais banheiros e água para os participantes. Os grupos que promovem atividades durante a noite podem ser multados em até R$ 15 mil.
“Em São Paulo, o Carnaval não termina tão cedo como em outros lugares do Brasil”, ressaltou Lira Alli, organizadora do Protesto dos Grupos de Carnaval, em entrevista ao jornal É de Manhã, do Brasil de Fato.
“O prefeito está se envolvendo em competições fúteis para determinar qual é o melhor ou maior carnaval do Brasil. Isso não é relevante quando se trata de Carnaval. Ele está tentando promover o carnaval da cidade de São Paulo e desrespeitando quem realmente constrói o carnaval de rua, os grupos tradicionais e comunitários”, afirmou Lira.
Para ela, tem ocorrido uma distorção do carnaval de rua, focada em patrocínios e lucros de grandes empresas, negligenciando a essência da festividade. “É o povo que anima a festa. E surge uma pergunta crucial: por que não é permitido fazer carnaval à noite? O que os trabalhadores, que saem de seus empregos às 18 horas, devem fazer para se divertir? Devem participar de festas privadas?”, questionou.
Além dos problemas mencionados, os manifestantes criticam a redução de recursos para o carnaval de rua pelo governo Nunes. O orçamento para a estrutura e organização do carnaval de rua de São Paulo deste ano foi reduzido em R$ 12 milhões.
Em 2025, a prefeitura de São Paulo investiu R$ 42,5 milhões na infraestrutura do carnaval, com patrocínio de R$ 27,8 milhões da Ambev. Neste ano, o valor foi reduzido para R$ 30,2 milhões, representando uma diminuição de aproximadamente 29%.
“Este ano, nem mesmo os grandes grupos estão recebendo estrutura adequada. Vimos o que aconteceu na semana passada. Na verdade, eles não querem promover o carnaval, apenas lucrar. Isso não tem relação com o carnaval de rua, nem os grandes grupos estão recebendo apoio, não há diálogo e eles precisam ouvir quem realmente faz o carnaval, que somos nós”, afirmou Gel Santos, membro do Bloco do Fuá.
A deputada federal Juliana Cardoso (PT-SP), ex-vereadora da cidade de São Paulo, enfatizou que a atuação de Nunes visa desmantelar tudo que vem do povo em prol do lucro privado. “O Carnaval é uma celebração popular, nascida do povo e construída ao longo de muitos anos para ocupar a cidade de São Paulo. No entanto, Ricardo Nunes trabalhou para comercializar o carnaval para grandes empresas, eliminando os blocos de rua, restringindo o tempo e a estrutura”, disse.
Juliana Matheus, coordenadora da comissão feminina de carnaval de rua de São Paulo, avalia que o governo Nunes está priorizando a segurança do patrocinador em vez das pessoas. “As pessoas estão confinadas como se fossem gado dentro de cercas, não para protegê-las, mas para garantir que apenas a bebida do patrocinador seja vendida dentro dessas cercas. A segurança das pessoas é outra questão, não é necessário colocá-las em cercados. A situação é péssima”, afirmou.
Ela também critica o uso do carnaval para eventos que poderiam ser realizados em qualquer outra época, mas que se aproveitam de recursos que poderiam ser destinados a uma celebração mais popular.
“Este evento com Ivete [Sangalo] no Ibirapuera e o Bloco Skol aqui na Consolação, com a presença do DJ escocês Calvin Harris, não são blocos de carnaval, são shows contratados pelos patrocinadores. Não possuem ligação com o território, com a cidade, não representam as pessoas. São shows que poderiam ocorrer em qualquer época do ano, mas aproveitam a política de carnaval para realizar esse tipo de evento”, critica Juliana.
No dia 8, o evento do Bloco Skol atrasou o tradicional bloco Acadêmicos do Baixo Augusta, superlotou a rua da Consolação e gerou tumulto com a quebra de cercas de proteção e pessoas necessitando de atendimento médico.
Em 10 de fevereiro, o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) emitiu uma recomendação ao governo Nunes para liberar o desfile dos pequenos blocos durante o Carnaval de 2026. A orientação é direcionada aos grupos que não obtiveram autorização após se cadastrarem no sistema da SPTuris, empresa de eventos e turismo da cidade.
O ofício, emitido pela Promotoria de Justiça de Habitação e Urbanismo, é resultado de uma representação apresentada pela Bancada Feminista.
A representação alerta que alguns desses grupos não foram autorizados a desfilar devido a entraves jurídicos e burocráticos impostos pela própria prefeitura. “Diante disso, a proibição do desfile viola o artigo 5º da Constituição Federal, que garante a liberdade de reunião e manifestação”, argumentam as parlamentares.
Na recomendação, o MP-SP destaca que o carnaval “é uma expressão cultural reconhecida como patrimônio imaterial do povo brasileiro e que os blocos de Carnaval, em suas diversas formas e dimensões, representam uma manifestação legítima do direito de reunião e da liberdade de expressão cultural”.



