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Casarão, cafezal e cerimonial estão no caminho da duplicação da BR-101

Casarão, cafezal e cerimonial estão no caminho da duplicação da BR-101

Casarão, cafezal e cerimonial estão no caminho da duplicação da BR-101

Uma plantação de café, um espaço para eventos, uma residência histórica e uma fábrica de móveis encontram-se no trajeto das obras do Contorno da BR-101 em Ibiraçu, como parte do projeto de duplicação da rodovia na cidade do Norte do Espírito Santo. Ao todo, aproximadamente 20 propriedades serão desapropriadas para a construção da nova pista.

As famílias e empresas afetadas já estão em fase de negociação com a Ecovias para determinar o valor das compensações financeiras. A maioria dos proprietários entrevistados pela equipe da Folha Vitória expressa insatisfação com a quantia proposta pela concessionária.

Apesar disso, afirmam que irão ceder e entregar os terrenos, uma vez que esgotaram todas as alternativas legais e acordos possíveis.

O aposentado servidor público Adauri Della Valentina é um dos impactados. Ele possui um espaço para eventos construído em um terreno adjacente ao imóvel histórico da família Perut, também sujeito a desapropriação.

Adauri, com 83 anos, investe há 15 anos no salão de festas. O proprietário relata que a concessionária ofereceu pouco mais de R$ 1 milhão pelo terreno, onde também estão localizados uma marcenaria e um chalé alugado para turistas.

Após mais de 10 reuniões de negociação com a Ecovias, Adauri conseguiu um aumento no valor da indenização, porém considera o acréscimo insignificante. Ele afirma que, se tivesse opção, não venderia a propriedade nem por R$ 3 milhões.

“Mas não há saída. Fiz tudo o que estava ao meu alcance. Solicitei um prazo maior, e eles me concederam até o final de junho para sair”, relatou.

Casarão histórico em Ibiraçu sujeito à desapropriação para a construção do Contorno da BR-101. Foto: arquivo pessoal.

Prejuízo com plantação de café

O agricultor Lupiciano Marcos Peruch estima um grande prejuízo com a desapropriação de cerca de três hectares de terra, onde está localizada a plantação de café da família. A nova rodovia dividirá a propriedade ao meio. “Atualmente, o café representa 90% da nossa receita familiar. O impacto disso será significativo para nós”, afirmou o proprietário.

O agricultor ainda busca negociar com a concessionária o valor da porção de terra que será desapropriada. Para ele, o montante da indenização inicial é injusto. Estima que cada hectare tenha um valor entre R$ 200 mil e R$ 300 mil, porém a concessionária ofereceu cerca de R$ 100 mil por hectare.

“Não é correto considerar apenas o valor atual da propriedade. Deve-se levar em conta as perdas ao longo dos anos. É a nossa fonte de renda, tanto para nós quanto para as próximas gerações”, reclamou Lupiciano.

Outra área afetada é a propriedade do marceneiro Marcelo Nunes. Ele informou à Folha Vitória que a Ecovias ofereceu R$ 14 mil por uma parte de seu terreno com cerca de 360 m².

“Acredito que não tenha sido justo, mas infelizmente é assim que funciona: um precisa ceder pelo bem maior, certo? Sei que a obra será benéfica para o município. Agora só quero que isso seja resolvido o mais rápido possível, pois é muita dor de cabeça”, desabafou.

A decisão sobre a indenização do terreno de Nunes foi tomada em uma reunião realizada nesta terça-feira (17). A Folha Vitória conversou com outros proprietários de terras na região que ainda estão em processo de negociação com a Ecovias, incluindo o dono de uma fábrica de móveis. Contudo, ainda não há uma decisão tomada sobre esse terreno.

Casarão histórico em Ibiraçu sujeito à desapropriação para a construção do Contorno da BR-101. Foto: arquivo pessoal

Casarão histórico está na lista das desapropriações

A equipe da Folha Vitória acompanha desde outubro do ano passado a situação da família Perut. Treze pessoas de quatro gerações da família residem em um casarão com mais de 100 anos que abriga as obras do artista plástico capixaba José Paulo Dileta.

Entre os moradores, encontram-se a matriarca da família, Aurora Perut Barbosa, de 100 anos, e o patriarca, Pedro Barbosa, de 97. Eles devem desocupar o imóvel até o dia 26 de março.

O neto do casal, Daniel Perut, tenta obter o tombamento do casarão, tanto em âmbito municipal quanto federal. A intenção, com o reconhecimento da importância histórica do imóvel, era evitar a desapropriação e buscar que a Ecovias Capixaba alterasse o trajeto da rodovia, desviando-se da propriedade da família Perut.

No entanto, à medida que o tempo passa, Daniel percebe que não conseguirá evitar a perda do imóvel. “Infelizmente, terei que ceder. Não é nossa vontade nem da família, mas não temos escolha. É uma pena, pois perderemos parte da história de Ibiraçu”, lamentou.

Além do valor histórico e cultural do casarão, Daniel menciona que o valor financeiro do imóvel também não foi devidamente reconhecido. O representante da família indica que a concessionária ofereceu menos de R$ 1 milhão. No entanto, conforme sua avaliação particular, o valor é de R$ 6 milhões.

“Compreendo a importância e a necessidade da estrada, mas deveriam considerar a situação de dois idosos no final da vida. Não é um valor justo. E não é suficiente para proporcionar um fim de vida digno para meus avós. Porém, faremos o possível para cuidar deles e garantir seu conforto”, relatou.

Casarão histórico em Ibiraçu sujeito à desapropriação para a construção do Contorno da BR-101. Foto: arquivo pessoal

Família busca reconhecimento do casarão como patrimônio histórico

Daniel tem buscado obter o tombamento do casarão, porém sem sucesso. O representante da família Perut relata que tem solicitado o apoio da Prefeitura de Ibiraçu há meses, mas a resposta foi a inviabilidade do tombamento, com base em análises técnicas realizadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

O parecer está documentado no processo de desapropriação. O Iphan, por sua vez, respondeu à defesa dos Perut que, embora o imóvel não seja tombado em nível federal, não há impedimento para o reconhecimento em âmbito municipal, “caso haja valores históricos, artísticos e culturais locais”. A resposta do órgão, enviada por e-mail, também está anexada ao processo.

A Folha Vitória tentou contato tanto com a Prefeitura de Ibiraçu quanto com o Iphan, porém, até o momento, não obteve retorno. Em 3 de outubro de 2025, o Iphan informou que “o imóvel citado não é tombado por esta Autarquia. O Instituto se pronuncia apenas sobre assuntos relacionados a patrimônios tombados e registrados em nível federal”.

Durante o mês de março atual, foram realizadas diversas tentativas de contato com os órgãos, porém as solicitações ainda não foram respondidas. A prefeitura comunicou apenas que “o processo está sob análise do executivo”. O espaço permanece aberto para futuras manifestações.

Casarão histórico em Ibiraçu sujeito à desapropriação para a construção do Contorno da BR-101. Foto: arquivo pessoal

Manifestação da Ecovias

A Folha Vitória procurou a Ecovias para abordar a preocupação dos proprietários dos terrenos quanto ao baixo valor oferecido pelas áreas. A empresa afirmou que os valores de indenização seguem estritamente critérios técnicos estabelecidos na legislação vigente.

“Para cada propriedade, é realizada uma vistoria detalhada, com medições e levantamento das características da área, que embasam a elaboração do Relatório de Metodologia Avaliatória (RMA), aprovado pela ANTT. Esse estudo define parâmetros objetivos para a avaliação, garantindo imparcialidade e transparência em todo o processo”, informou a empresa em comunicado.

A concessionária garantiu que mantém-se aberta ao diálogo com os proprietários, “buscando conduzir as negociações de forma respeitosa, transparente e visando a elaboração de soluções consensuais desde o início”.

Quanto ao casarão histórico, a Ecovias mencionou que eventuais prazos e condições relacionados à desocupação estão sendo tratados no contexto do processo judicial em curso.

“A Ecovias continuará cumprindo todas as determinações legais e decisões judiciais, permanecendo disponível para dialogar com a família ao longo de todo o processo”, declarou em nota.

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