Cidade de SP vai na contramão do estado e registra alta de homicídios em 2025
PAULO EDUARDO DIAS
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A cidade de São Paulo apresentou aumento de 6% nos casos de homicídios intencionais na comparação entre os anos de 2024 e 2025. Essa tendência contrasta com a diminuição de 4% no número de vítimas de assassinatos no estado no mesmo período. Os dados divulgados pela Secretaria da Segurança Pública foram publicados nesta sexta-feira (30).
Além da capital, municípios como Suzano, Lorena, Ubatuba e Itapetininga estão entre os que registraram crescimento no número de homicídios intencionais no ano passado. No interior, como um todo, houve uma queda nesse indicador. No estado, os registros passaram de 2.630 vítimas para 2.527, o menor valor desde 2001, quando a série histórica teve início.
Na capital, a maioria dos 530 homicídios ocorridos no ano passado concentrou-se na zona sul, a área mais populosa da cidade. Delegacias em bairros como Capão Redondo, Campo Limpo e Jardim das Imbuias testemunharam um aumento nos registros de óbitos. Um exemplo disso é o 37° DP (Campo Limpo), onde o número de vítimas fatais dobrou de um ano para o outro.
Neste local, em 2023, 26 pessoas perderam a vida. As investigações apontaram que algumas delas foram mortas após confronto entre dois grupos rivais: membros do PCC e de uma organização local chamada Pés de Pato. O conflito teria surgido devido a disputas por pontos de tráfico e pelo chamado “gatonet”, que são ligações clandestinas de TV a cabo.
Uma força-tarefa composta por policiais da delegacia e do DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa) identificou e deteve suspeitos, resultando em um período de relativa tranquilidade, conforme relatado por um dos agentes. Os casos de homicídio diminuíram no ano seguinte, com apenas nove ocorrências reportadas. No entanto, os números voltaram a subir em 2025, quando foram registrados 18 casos.
Investigadores ouvidos descartam a retomada do conflito e apontam o aumento de casos relacionados a brigas em bares, dívidas por drogas e desentendimentos entre vizinhos. Segundo um perito, as cenas de crime espalhadas pela cidade são geralmente isoladas e preservadas para fins de perícia, o que é crucial na tentativa de esclarecer o crime.
Em Suzano, na região metropolitana, o crescimento chegou a 93%, passando de 14 para 27 mortes. Em Lorena, localizada no Vale do Paraíba, o número de vítimas aumentou 35% (de 20 para 27).
O Vale do Paraíba, situado na divisa com o Rio de Janeiro, concentra diversos municípios com aumento no número de vítimas de assassinato. Destacam-se São José dos Campos, com dez mortes a mais, e Ubatuba, com 11 assassinatos.
Algumas das mortes na região, segundo apurações do Ministério Público e da Polícia Militar, estão sendo investigadas como possíveis disputas entre o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho). Entre esses casos está a morte de dois homens em Ubatuba, em dezembro. Segundo a polícia, o conflito regional pode estar ligado ao interesse estratégico pelo porto de São Sebastião.
O coordenador de projetos do Instituto Sou da Paz, Rafael Rocha, destaca que o declínio observado no estado nos últimos anos, com algumas flutuações de aumento em torno de 1%, não é algo inédito na gestão de Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Para ele, a atual administração enfatizou o policiamento ostensivo contra crimes patrimoniais, o que é importante, mas tem um impacto limitado nos homicídios.
“O homicídio muitas vezes não segue uma lógica econômica. Já o latrocínio [roubo seguido de morte] sim. O homicídio pode ocorrer entre pessoas próximas, em brigas de trânsito, envolvendo crimes ou desentendimentos aleatórios nas ruas, apresentando diversas dinâmicas”, ressalta Rocha.
Rocha também aponta que o governo tem relegado a Polícia Civil a um papel de menor destaque, embora o atual secretário de Segurança Pública, Osvaldo Nico Gonçalves, seja um delegado de carreira que assumiu o cargo em dezembro passado.
“A gestão estadual da segurança pública não tem priorizado a investigação, apesar das diferentes dinâmicas criminais presentes”, acrescenta Rocha.
Empresário encontrado morto em Interlagos
Em 2025, um dos homicídios que chamou atenção foi o do empresário Adalberto Amarílio dos Santos Junior, de 35 anos. Seu corpo foi descoberto em 3 de junho em um buraco no autódromo de Interlagos, na zona sul de São Paulo, um dos mais renomados do mundo.
Junior estava desaparecido desde 30 de maio, quando foi ao local para participar de um evento de motocicletas. O caso está sob investigação do DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa). Suspeita-se que ele tenha sido morto após se envolver em uma confusão com seguranças terceirizados que trabalhavam naquele dia.
Fernanda Dandalo, de 35 anos, viúva de Adalberto, aguarda ansiosamente por respostas que possam identificar os responsáveis e trazer conforto à família. “Meu marido pagou para participar de um evento e foi assassinado lá dentro, sem qualquer segurança presente no local”, relata. Nada foi roubado. Sua carteira, dinheiro e cartões estavam com ele. O empresário foi encontrado sem calça e sem calçados, em pé, com um capacete sobre a cabeça.
O laudo do Instituto Médico Legal confirmou que Junior foi vítima de asfixia, caracterizando o homicídio. No dia, cerca de 200 vigilantes estavam presentes no evento. “São oito meses de angústia sem fim. Reviver o 3 de junho de 2025 diariamente tem sido cruel e injusto para a família. Reconhecemos os esforços da polícia, mas ainda não vimos os culpados sendo responsabilizados pelo que fizeram”, desabafou Fernanda.
“A revolta da família reflete a de todos os brasileiros que saem de casa para um passeio e não retornam. Sem motivo aparente, sem explicações. O maior estado do país não consegue garantir o mínimo de segurança ao cidadão honesto que paga seus impostos”, concluiu.
Procurada, a SSP informou que as investigações estão em andamento.


