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Comissão de mortos e desaparecidos vê tortura em quarto branco do ‘BBB 26’

Comissão de mortos e desaparecidos vê tortura em quarto branco do ‘BBB 26’

Comissão de mortos e desaparecidos vê tortura em quarto branco do ‘BBB 26’

Comissão de mortos e desaparecidos vê tortura em quarto branco do ‘BBB 26’

Comissão vinculada aos Direitos Humanos aponta semelhanças entre quarto branco do ‘BBB 26’ e métodos da ditadura, alertando para a banalização do sofrimento e pedindo revisão na dinâmica

Por Redação
01/02/2026 | 11:40 Atualização: 01/02/2026 | 11:50

Quarto Branco do BBB26. Foto: Reprodução/Globo

O que é importante saber:

  • Comissão divulga carta aberta à produção do BBB 26 criticando o quarto branco
  • Comparação entre privação de sono e enclausuramento com práticas da ditadura militar
  • Rafaella Jaqueira desmaia após mais de 120 horas confinada na dinâmica
  • Vera Facciolla Paiva, filha de Rubens Paiva, assina o documento
  • Globo ainda não se pronunciou sobre o caso desde sábado (31)

O debate sobre os limites de um reality show em busca de audiência ganhou peso com a intervenção da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) em relação ao quarto branco do BBB 26. Vinculada ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, a comissão enviou uma carta à produção do programa criticando a dinâmica por reproduzir métodos de tortura, ultrapassando os limites aceitáveis do entretenimento televisivo.

A CEMDP destaca que as provas e punições aplicadas no quarto branco lembram de forma alarmante os métodos utilizados durante a ditadura civil-militar brasileira. A comissão menciona privação de sono, enclausuramento, desorientação espacial, perda da noção do tempo e a exigência de manter posições físicas difíceis por longos períodos como elementos típicos de cenários de tortura, agora transformados em atração para milhões de espectadores.

Os membros da comissão argumentam que o problema vai além do jogo em si. A carta aponta que o quarto branco já foi apresentado em edições passadas do reality, porém, houve uma intensificação desta dinâmica nesta temporada, culminando no episódio mais recente. Para o colegiado, ao testar os limites físicos e psicológicos dos participantes, a emissora também desafia “os limites da nossa própria humanidade”, ao transformar sofrimento extremo em entretenimento.

Do ponto de vista jurídico, o documento baseia-se em princípios constitucionais. A CEMDP destaca que o artigo 5º da Constituição Federal proíbe absolutamente a tortura e o tratamento degradante, valores que não podem ser relativizados nem por consentimento dos envolvidos nem pela promessa de prêmio em dinheiro. O texto também menciona o artigo 221, que determina que concessões públicas de rádio e TV devem respeitar finalidades educativas e culturais e os “valores éticos e sociais da pessoa e da família”, padrão que, segundo a comissão, não condiz com a exploração de sofrimento extremo como espetáculo.

Dirigida formalmente à direção da Globo, a carta foi endereçada a Leonora Bardini, executiva responsável pela área de conteúdos da emissora. O documento é assinado por representantes de diversas frentes: Diva Soares Santana, em nome dos familiares de mortos e desaparecidos políticos; Vera Facciolla Paiva e Maria Cecília Adão, pela sociedade civil; a deputada Natália Bonavides, da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados; e a procuradora regional da República Eugênia Augusta Gonzaga. Desde a abertura, o texto cita uma frase de Wagner Moura — “Se um trauma pode ser passado de geração em geração, os valores também podem” — para relacionar o entretenimento televisivo à responsabilidade de preservar a memória de violações de direitos humanos.

A CEMDP dedica parte da carta a explicar por que considera particularmente grave a associação entre o quarto branco e práticas empregadas em regimes autoritários latino-americanos. A carta destaca que uma das participantes foi forçada a permanecer de pé sobre um pedestal de diâmetro mínimo por horas, postura identificada pelo grupo como método de tortura documentado nesses contextos. A comissão alerta que reproduzir imagens desse tipo em um reality show, sob a ideia de resistência física e mental, contribui para dessensibilizar o público diante do sofrimento alheio e enfraquece a compreensão social sobre a gravidade da violência estatal.

O órgão também questiona a alegação de que os participantes entram na dinâmica voluntariamente em busca de fama ou prêmio em dinheiro. Para os signatários, o consentimento não justifica situações que possam ser consideradas tratamento cruel ou degradante, especialmente quando se trata de uma concessão pública de TV. A carta defende que a memória das vítimas da repressão requer vigilância constante para evitar que práticas ligadas à tortura sejam normalizadas sob a fachada de um jogo.

Além de criticar as escolhas editoriais do reality, a CEMDP ressalta sua história institucional. Estabelecida em 1995 pela Lei 9.140/95, a comissão foi a primeira instância do Estado dedicada a localizar e reconhecer mortos e desaparecidos políticos da Ditadura Militar. Após ter suas atividades interrompidas no final de 2022, o colegiado foi recriado e reinstalado pelo governo federal em 2024, retomando ações de memória, verdade e reparação para familiares de vítimas de violência estatal. A intervenção no caso do BBB 26 é apresentada como parte do esforço de manter viva a discussão sobre tortura e suas consequências sociais.

O incidente que gerou a controvérsia ocorreu no quarto branco desta edição do programa. Confinados desde 12 de janeiro, Chaiany Andrade, Gabriela Saporito, Leandro Rocha, Matheus Moreira e Rafaella Jaqueira competiam por uma vaga no elenco após não serem escolhidos pelo público nas casas de vidro. O grupo ficou isolado em um ambiente totalmente fechado, com pouca água e biscoitos, sob ruídos constantes e condições que visavam exaurir o corpo e confundir a noção de tempo.

A dinâmica foi encerrada na madrugada de 18 de janeiro, quando Rafaella Jaqueira passou mal e desmaiou enquanto tentava se equilibrar em pé em uma plataforma ao lado dos outros competidores. A prova já ultrapassava as 120 horas de duração, estabelecendo um recorde para o reality. A participante recebeu cuidados médicos e foi eliminada da competição, enquanto Tadeu Schmidt anunciou que Chaiany Andrade, Gabriela Saporito, Leandro Rocha e Matheus Moreira se tornariam oficialmente membros do elenco do Big Brother Brasil.

Na carta, a CEMDP destaca que situações como essas não podem ser simplificadas como “resistência” ou “superação” dos participantes em busca do prêmio. O grupo solicita explicitamente que a emissora reconsidere o uso de práticas que associam sofrimento físico e psicológico ao entretenimento, especialmente em um país que ainda enfrenta traumas não resolvidos da repressão estatal. A comissão menciona estudos de psicologia e sociologia sobre a transmissão transgeracional de traumas, defendendo que a TV aberta desempenha um papel significativo na formação dos valores compartilhados entre as gerações.

O documento conclui com um apelo à sociedade para questionar a aceitação desse tipo de dinâmica. Para a comissão, tolerar o quarto branco como simples formato de jogo é compactuar com a trivialização de experiências que remetem à violência estatal. A carta enfatiza que a memória dos mortos e desaparecidos políticos exige uma postura de rejeição a qualquer forma de dessensibilização diante do sofrimento. Procurada pelo site Notícias da TV (UOL) desde sábado (31), a Globo ainda não se manifestou até a publicação deste texto, mantendo-se aberto o espaço para um posicionamento da emissora.

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