Como a (des)informação chega até a gente?
Como a informação chega até nós?
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“Para uma mulher iraniana, expressar-se tem se tornado extremamente desafiador. Parece que sempre há alguém falando por você. Quando finalmente é permitido que você fale, é apenas para validar o que eles já pressupõem. Perguntam: ‘Vocês esperam apoio dos Estados Unidos ou de Israel? O número de mortos realmente chega a 12 mil?’ Mas ninguém nos questionou quando o regime fascista que nos governa se tornou líder em execuções”, declarou a representante do movimento iraniano “Feminists4Jina”, durante uma manifestação em Berlim na semana passada.
A crítica da jovem iraniana, porta-voz de uma organização surgida após os grandes protestos de 2022, em defesa de Jina Mahsa Amina, que faleceu após ser detida por usar o véu “de maneira inadequada”, faz todo sentido ao acompanhar as notícias e opiniões sobre o Irã, país com escassa imprensa independente e limitado acesso à Internet.
No lado ocidental conservador, observa-se a simplificação de um país com mais de 4 mil anos de história, rica cultura e uma população de 86 milhões de habitantes, reduzido a um território de terroristas extremistas e religiosos fanáticos, passível de invasão pelos Estados Unidos. Por outro lado, na mesma região ocidental, existe uma esquerda que não compreende os grandes protestos por liberdade desde a Revolução Islâmica – que, em 1979, instituiu os aiatolás no poder e a imposição da Sharia (lei islâmica) – atribuindo-os simplesmente à influência de potências interessadas em desestabilizar o governo e ampliar seu domínio no Oriente Médio.
No entanto, a situação é muito mais complexa, como alertou a jovem ativista iraniana na Alemanha, representante de um feminismo combativo que já levou duas mulheres de seu país a conquistar o Prêmio Nobel da Paz: Narges Mohammadi, presa pela última vez no ano passado, premiada em 2023; e Shirin Ebadi, laureada 20 anos antes, que foi entrevistada no Irã pela jornalista Adriana Carranca, buscando compreender melhor o país onde atuou como correspondente especial.
“Muitos apoiadores da Revolução Islâmica, como a própria Shirin Ebadi, acreditavam que o Aiatolá Khomeini estabeleceria uma democracia. Ele falava em democracia islâmica, algo que soava plausível para muitos, embora o Irã não seja tão religioso nem predominantemente xiita – abriga ateus e seguidores do Zoroastrismo (religião precedente ao Islã). Muitos ativistas que derrubaram a monarquia – amplamente repudiada pela população – esperavam a instauração de um estado democrático, similar à época de Mohammad Mossadegh, o primeiro-ministro nacionalista deposto (em 1953) por britânicos e americanos. Que ironia”, relata a jornalista.
“Atualmente, o líder supremo detém praticamente a última palavra em todas as questões, inclusive na confirmação das eleições presidenciais, e decisões em várias outras áreas. No poder desde 1989, aos mais de 80 anos, ele está em descompasso com a juventude do país, exausta da vigilância e imposições políticas”, explica.
Para Carranca, os jovens (70% da população nasceu após a revolução) e as mulheres (que ocupam 67% das vagas universitárias) não desistirão da busca pela democracia, imprensa livre, acesso à Internet e igualdade de direitos. “Mesmo os jovens carregam a herança cultural do império persa e percebem-se como herdeiros de 4,5 mil anos de história. Consideram este regime passageiro: o que são quarenta anos diante de cinco mil anos de cultura magnífica?”, questiona Carranca, recordando que o movimento reformista, oposto ao regime, iniciou-se quando a população percebeu que os aiatolás não tinham interesse na democracia.
“Havia muitos jornais reformistas independentes, em farsi, e o governo os fechava, mas reabriam. Certamente, ainda existem até hoje, embora sejam mais perseguidos em momentos de crise. A maioria das informações provém de ONGs, iranianos no exterior – da diáspora – com acesso às redes, e alguns correspondentes internacionais. Obter um visto de jornalista para o Irã não é simples, por isso, a maioria são iraniano-britânicos, iraniano-americanos, trabalhando para veículos ocidentais, mas obter informações do regime, mesmo estando lá, é desafiador. Isso dificulta, mas não impede a circulação de informações sobre o país – ontem mesmo, conversei com uma iraniana”, relata Adriana Carranca.
“Estes protestos mais recentes diferem dos anteriores por envolverem maior participação do interior, de comerciantes, uma população mais diversificada do que os protestos anteriores, compostos principalmente por mulheres e jovens urbanos que protestaram pela morte de Mahsa. Há um forte componente econômico, não apenas devido ao bloqueio ao Irã, mas também pelas decisões do próprio governo, suas falhas e investimentos em áreas não prioritárias para os iranianos, que enfrentam dificuldades com o custo de vida, apagões e deterioração da infraestrutura. O regime está corroído internamente, carecendo de uma liderança capaz de se apresentar como alternativa política, pois os protestos ainda são descentralizados”, explica.
Pergunto se uma intervenção dos Estados Unidos não complicaria ainda mais a vida da oposição iraniana. “Certamente, pois ameaças externas costumam conter os protestos. Os iranianos são nacionalistas e acabam apoiando o governo nesses momentos, como ocorreu durante os bombardeios do ano passado. Uma forma de os Estados Unidos contribuírem seria investir financeiramente em grupos iranianos de direitos humanos, monitoramento, não como intervenção externa. Os iranianos querem e podem reconstruir sua democracia, sem paternalismo”.
Volto ao Instagram das jovens do “Feminists4Jina” e anoto o desfecho do emocionante discurso em Berlim. “Ninguém nos consultou durante quase 5 décadas, levante após levante, enquanto nossos entes queridos eram executados, presos ou alvejados pelo país, seus corpos desaparecidos ou vendidos para as famílias. Ninguém questionou como estupro e assassinato se tornaram tão comuns e fáceis. Ninguém nos consultou, pois nossas vidas só importam quando têm relevância para países ou audiências ocidentais”.
“Exigimos vida, dignidade, liberdade”, ecoa a voz do Irã. Para começar a escutá-la, é prudente desconfiar dos representantes ocidentais – de diversas orientações políticas, da mídia ou dos governos.



