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Como começam as guerras civis – Meio

Como começam as guerras civis – Meio

Como começam as guerras civis – Meio

Como as Guerras Civis se Iniciam – Aspectos Iniciais

Qualquer governo autoritário, para se estabelecer além da legalidade que o restringe, deve primeiro suspender simbolicamente a normalidade. O procedimento é familiar: a constante invocação de uma ameaça à segurança nacional, suficientemente vaga para não ser verificada, mas suficientemente insistente para justificar a excepcionalidade. É em nome dessa ameaça que o centro da autoridade é deslocado, que os direitos são relativizados e que a arbitrariedade se torna padrão. Nenhuma ditadura se apresenta, em sua origem, como algo diferente de um governo de salvação.

Essa lógica é a base do governo Trump. Não se trata apenas de um Executivo agressivo ou de um presidente personalista, mas sim da tentativa sistemática de estabelecer um regime de exceção duradouro, até o momento tolerado pelo Congresso e pela Suprema Corte. A legalidade não é formalmente abolida; ela é esvaziada internamente, subordinada à narrativa de uma emergência contínua. O país é governado como se estivesse em guerra — embora essa guerra seja, em grande parte, uma construção política.

Como todo regime de exceção, esse governo se justifica pela luta simultânea contra um inimigo externo e um inimigo interno. Ambos não representam uma ameaça objetiva à segurança dos EUA. O inimigo externo é todo aquele que se opõe ao projeto imperial da Casa Branca, voltado para manter, por décadas, a hegemonia militar, tecnológica e comercial dos Estados Unidos diante da ascensão da China. Já o inimigo interno é qualquer um que resista — em diferentes níveis — à tentativa de recriar uma unidade cultural e moral idealizada, situada nos EUA da década de 1950: predominantemente branca, cristã, masculina e hierárquica. A defesa de direitos passa a ser vista como um desafio à ordem; o desacordo, como deslealdade; e a crítica, como subversão.

Nas últimas semanas, essa lógica se tornou visivelmente brutal. Internacionalmente, a extrema direita agiu sem disfarces: ameaçando a Groenlândia, provocando o Canadá, intervindo na Venezuela, desrespeitando normas e alianças. Mais significativamente, transformou tarifas comerciais em ferramentas de coerção unilateral. Não se trata apenas de equilibrar o comércio dos EUA, mas de punir economicamente qualquer resistência às vontades arbitrárias da Casa Branca. A política comercial deixou de ser uma negociação e passou a ser uma técnica de dominação — países que não se submetem enfrentam sanções imediatas, impostas por decreto presidencial. Internamente, a mesma extremismo se manifestou como estratégia de governo. Agentes do Immigration and Customs Enforcement (ICE) passaram a ocupar bairros inteiros como demonstração de poder; prisões foram conduzidas como demonstrações de autoridade; a violência ultrapassou qualquer justificativa legal.

Um caso emblemático ocorreu em Minneapolis no último sábado, 24 de janeiro: Alex Pretti, um enfermeiro de cuidados intensivos de 37 anos, cidadão americano sem antecedentes criminais, foi morto por agentes do ICE durante um protesto. Vídeos feitos por testemunhas mostram a sequência: Pretti filmava a operação com seu celular quando tentou proteger outros observadores empurrados por agentes federais. Ele foi alvejado com spray de pimenta, derrubado e imobilizado por sete agentes. Um deles retirou uma arma — para a qual Pretti tinha licença legal — de sua cintura. Meses depois, enquanto Pretti permanecia no chão desarmado e imobilizado, os agentes recuaram e dispararam dez tiros. Não houve resistência armada. A arma nunca foi sacada por Pretti. Houve apenas o uso da violência como demonstração de poder. Críticos do governo são cada vez mais equiparados, de maneira cada vez mais explícita, a potenciais terroristas domésticos. Trata-se menos da aplicação da lei e mais da produção calculada do medo.

Nesse contexto, a leitura de Como as Guerras Civis Começam, de Barbara F. Walter, se torna essencial. Publicado em 2022 por uma das principais especialistas em conflitos civis dos EUA — professora na Universidade da Califórnia em San Diego —, o livro não prevê uma guerra civil iminente. Ele oferece algo mais preciso e alarmante: um diagnóstico das condições em que democracias liberais, ao normalizarem a exceção e redefinirem o dissenso como hostilidade, passam a tolerar a violência política como prática legítima de governo.

A guerra civil moderna não é anunciada; ela se infiltra.

O grande mérito do livro está em desmistificar a ideia clássica da guerra civil como uma ruptura súbita e evidente. Contra a concepção de dois exércitos regulares e de um colapso institucional imediato, a autora demonstra que os conflitos civis contemporâneos emergem de maneira gradual, difusa e muitas vezes imperceptível para sociedades que ainda se veem como estáveis. A guerra civil moderna não é anunciada; ela se infiltra. O ponto crítico não é o momento da explosão, mas o processo pelo qual a violência política se torna aceitável.

Através de extensa pesquisa comparativa, Walter identifica um conjunto consistente de mecanismos. O mais crucial é a anocracia: sistemas intermediários nos quais instituições democráticas sobrevivem formalmente, mas perdem legitimidade substantiva. Nessas circunstâncias, o Estado mantém sua capacidade repressiva, mas perde sua capacidade integradora. A legalidade permanece em vigor, porém deixa de organizar expectativas compartilhadas. É nesse limbo que a violência deixa de ser tabu e passa a ser considerada uma alternativa viável.

Esse processo é acompanhado pela fragmentação da política. À medida que a confiança nas instituições se deteriora, o conflito deixa de ser regulado por regras comuns e passa a ser encarado como uma disputa existencial entre grupos. O oponente político não é mais alguém com quem se compete, mas alguém que ameaça a sobrevivência do grupo. A criminalização do dissenso deixa de ser uma exceção e passa a ser uma técnica regular de governo.

Outro elemento central é a perda de prestígio. Walter aponta que guerras civis recentes costumam ser precedidas por processos nos quais grupos dominantes — ou que se percebem como tais — começam a experimentar declínio econômico, cultural ou demográfico. Essa sensação de deslocamento, independentemente de sua base objetiva, gera um profundo ressentimento político e torna aceitável o uso da força como meio de restaurar a hierarquia, inclusive através da mobilização de segmentos socialmente marginalizados como força auxiliar da repressão.

Complementando esse quadro está o colapso da esperança institucional. Quando parcelas significativas da sociedade perdem a crença de que o sistema político seja capaz de produzir resultados satisfatórios de forma legal, cresce a disposição para soluções extralegais. O ponto não é a miséria absoluta, mas a percepção de bloqueio: a convicção de que os canais legítimos foram capturados ou esvaziados. A política deixa de mediar conflitos e passa a ser vista como um jogo fraudulento.

Esses mecanismos não geram automaticamente uma guerra civil. Eles preparam o terreno. A escalada geralmente é acelerada por eventos específicos — crises econômicas, decisões judiciais polarizadoras ou políticas deliberadamente provocativas. O erro mais comum, segundo Walter, é confundir esses aceleradores com a causa. Quando isso acontece, o diagnóstico chega tarde demais.

O excepcionalismo americano — a ideia de que instituições sólidas seriam suficientes para conter esse tipo de dinâmica — não resiste à análise comparativa.

É a partir desse arcabouço que a autora analisa os EUA. Sua análise é desconfortável exatamente porque não depende unicamente de Trump como causa. O trumpismo surge como um intensificador de tendências mais antigas: a erosão institucional, a fragmentação política e a diminuição da confiança na mediação democrática. O excepcionalismo americano — a crença de que instituições sólidas seriam suficientes para conter esse tipo de dinâmica — não resiste à análise comparativa.

Nesse ponto, os eventos recentes ganham relevância explicativa. A atuação do ICE como uma força de intimidação territorial corresponde ao padrão descrito por Walter de militarização difusa do conflito interno. Não se trata apenas de aplicar a lei migratória, mas de instilar medo, testar limites institucionais e demonstrar domínio político. Ao redefinir o desacordo como uma ameaça à segurança nacional, o governo transforma o conflito político em uma questão de ordem pública.

O sinal mais alarmante é a fragmentação do monopólio da violência. Quando os cidadãos começam a se armar não contra criminosos, mas contra agentes do Estado, a autoridade deixa de ser vista como árbitro e passa a ser percebida como parte do conflito. A violência torna-se descentralizada, moralmente justificada e progressivamente difícil de conter — exatamente o ponto em que, segundo Walter, as democracias não são mais apenas instáveis, mas estruturalmente vulneráveis.

Nada disso sugere que os EUA estejam à beira de uma guerra civil aberta. A própria Walter é cuidadosa em rejeitar previsões deterministas. O argumento do livro é mais rigoroso — e mais alarmante. As condições para o surgimento de tal cenário estão sendo gradualmente estabelecidas. Ignorar esse processo por ele não se apresentar de forma clássica é repetir o erro cometido por sociedades que, olhando para trás, não perceberam quando o conflito começou. O ponto decisivo serão as eleições de meio de mandato deste ano, destinadas a renovar a Câmara dos Deputados e o Senado. Uma vitória fraudulenta do Partido Republicano não significará apenas a continuidade do processo de autocratização, mas também a possibilidade de que, diante da impossibilidade de resistência institucional, os riscos de resistência armada por parte da oposição aumentem.

O poder de Como as Guerras Civis Começam reside justamente nesse alerta. As guerras civis raramente começam quando todos reconhecem que já começaram. Tornam-se possíveis quando a exceção se torna rotina, quando a violência se torna comum e quando a política deixa de cumprir seu papel integrador. O livro de Barbara F. Walter não prediz o colapso americano; ele desmistifica, com rigor analítico, a ideia de que democracias em declínio estão imunes a tal cenário.

*Cientista político, editor da revista Insight Inteligência e professor do IESP-UERJ

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