×

Contrariando portaria da PM, Igreja Universal atua irregularmente em quartéis do Paraná

Contrariando portaria da PM, Igreja Universal atua irregularmente em quartéis do Paraná

Contrariando portaria da PM, Igreja Universal atua irregularmente em quartéis do Paraná

Contrariando regulamentação da PM, Igreja Universal opera de forma irregular em quartéis do Paraná

Por José Pires — Jornal Plural Curitiba

A Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) desenvolve o programa Universal nas Forças Policiais (UFP), no qual pastores, também conhecidos como capelães, frequentam diariamente quartéis das polícias militares, bombeiros, guardas municipais e outras forças de segurança em todo o território nacional, incluindo o estado do Paraná.

Com o pretexto de oferecer “assistência espiritual” aos agentes de segurança, os pastores realizam cultos e distribuem bíblias todas as manhãs a policiais, bombeiros e guardas municipais. Além disso, os representantes da igreja participam de eventos oficiais e homenageiam agentes de segurança com atos religiosos nas sedes da Universal.

No entanto, de acordo com a Diretoria de Gestão de Pessoas da Polícia Militar do Paraná, não há capelães voluntários da Igreja Universal registrados no serviço de capelania. O cadastro é um requisito para que religiosos atuem como capelães nos quartéis da PM e do Corpo de Bombeiros, conforme estabelecido em portaria de 2019.

Mesmo operando de forma irregular, conforme relatos de policiais e bombeiros ao Plural, a Igreja Universal do Reino de Deus conseguiu gradualmente se inserir na rotina dos quartéis das forças de segurança do Paraná como se fosse parte integrante das corporações.

Uma pesquisa realizada pelo Plural nas redes sociais do programa Universal nas Forças de Segurança do Paraná (UFP-PR) revela que os capelães da igreja estiveram presente, durante 2025, em pelo menos 145 ocasiões em quartéis de diversas cidades paranaenses. No entanto, os policiais entrevistados pela reportagem afirmam que o número de visitas é muito superior, ultrapassando 1.000 apenas no ano passado.

De acordo com as postagens nas redes sociais do UFP-PR, Curitiba é a cidade que mais recebe os pastores da Universal, sendo o 13º Batalhão de Polícia Militar e o Batalhão de Patrulha Escolar Comunitária (BPEC) os locais mais visitados.

Sob anonimato, o Plural ouviu policiais militares e bombeiros de Curitiba e Região Metropolitana, os quais revelaram que os pastores da Universal têm livre acesso aos quartéis. A presença da igreja é diária e coincide com as trocas de plantão das tropas. Durante esses momentos, os capelães da Universal realizam orações, que se tornaram parte não oficial dos rituais diários das trocas de plantão.

Segundo as fontes, os policiais são abordados para participar das orações e, por vezes, dos cultos durante as trocas de plantão. Tanto agentes que estão finalizando o turno quanto aqueles que já deveriam estar em atividade, realizando patrulhas e atendendo ocorrências, são alvo dessas abordagens.

Embora nem todos os quartéis sejam visitados diariamente, há locais que recebem os capelães mais de uma vez por semana. “Há batalhões dos Bombeiros que são visitados três vezes semanalmente. Somando essas visitas aos batalhões da PM, companhias, delegacias da Polícia Civil e sedes das Guardas Municipais em cerca de 39 cidades do estado, temos milhares de visitas anuais”, afirmou um bombeiro.

Comandantes concedendo permissão

O Plural solicitou informações à PM do Paraná, por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), sobre a atuação dos capelães da Universal nos quartéis da corporação. Em resposta, a Diretoria de Gestão de Pessoas da PM destacou que, de acordo com a Portaria do Comando-Geral nº 1224, de 13 de dezembro de 2019, a igreja não possui capelães voluntários cadastrados.

A portaria mencionada regula o Serviço de Assistência Religiosa e as atividades de Capelania na Polícia Militar do Paraná, definindo os objetivos do serviço e os requisitos para atuação dos capelães voluntários.

Apesar das determinações da Portaria, os capelães da Universal parecem não seguir as exigências formais para atuar como capelães voluntários na PM-PR, pois não constam no sistema de cadastro da Diretoria de Gestão de Pessoas da Polícia Militar do Paraná.

Conforme relatos, a autorização para o acesso dos pastores da IURD aos batalhões é concedida pelos comandantes. Os comandantes autorizam as orações e cultos, que ocorrem na cozinha, pátios e auditórios dos quartéis. Porém, a Portaria 1224 estabelece que os atendimentos dos capelães devem ser realizados em uma sala reservada da unidade, salvo autorização prévia do Comandante para organização de eventos religiosos especiais.

Os comandos dos batalhões, segundo as fontes, incentivam a participação nas atividades religiosas. A não participação, embora não seja uma ordem direta, pode acarretar em represálias, como mudanças de postos de serviço e escalas.

Atuação sem viés religioso?

O programa Universal nas Forças Policiais destaca, em suas publicações nas redes sociais, que promove “momentos de reflexão sem viés religioso”. No entanto, policiais e bombeiros contestam essa afirmação, citando a presença de orações, leituras bíblicas e distribuição de bíblias durante as visitas dos capelães.

Nas postagens do UFP-PR no Facebook, é possível encontrar conteúdos que contradizem a alegação de ausência de viés religioso. Por exemplo, um vídeo publicado em 13 de dezembro de 2025 mostra o Pastor Alessandro Pereira, responsável pelo Universal nas Forças Policiais no Paraná, ministrando um sermão e lendo uma passagem bíblica para policiais no 13º Batalhão da Polícia Militar.

Relação com a Polícia Militar

O Plural solicitou informações sobre a presença da Polícia Militar do Paraná em eventos realizados na sede da Igreja Universal. Em resposta, a Diretoria de Gestão de Pessoas afirmou não possuir registros de participação de policiais em eventos promovidos pela instituição religiosa em 2025.

Embora a participação em atividades religiosas seja permitida de forma voluntária, a presença dos agentes de segurança nos eventos da igreja é evidenciada em publicações nas redes sociais do UFP e nos sites da Igreja Universal e da PMPR.

Intervenção na rotina dos quartéis

A presença da Igreja Universal do Reino de Deus nos quartéis das forças de segurança, especialmente na PM, e seu crescimento expressivo nos últimos anos estão relacionados a diversos fatores. Segundo especialistas, essa aproximação faz parte de um projeto de poder evangélico que busca influenciar as instituições do Estado.

Por meio de estratégias políticas e religiosas, a Universal conquistou espaço nos quartéis, oferecendo suporte emocional aos policiais em um ambiente de trabalho desafiador. A igreja, de acordo com analistas, preenche lacunas deixadas pelo Estado, proporcionando alívio emocional temporário e fortalecendo laços com as tropas.

A presença da IURD nas forças de segurança reflete não apenas deficiências estruturais, como baixos salários e falta de apoio psicológico, mas também revela um projeto de influência duradouro e estratégico da igreja no cenário nacional.

Diante do impacto da Igreja Universal nas forças de segurança, é consenso entre os policiais que a igreja se tornou uma influência significativa nos quartéis, afetando o comportamento dos agentes tanto no ambiente interno das unidades quanto nas ruas.

Fonte: Créditos