Crise hídrica em São Paulo reacende debate sobre Sabesp privatizada e peso na eleição de 2026
A crise hídrica em São Paulo, somada à privatização da Sabesp e ao desgaste da Enel, tende a entrar no centro da disputa pelo governo paulista em 2026, sobretudo como arma de narrativa da oposição contra a imagem de gestor técnico construída em torno do governador Tarcísio de Freitas.
Crise hídrica volta ao centro da política paulista
Com o Sistema Cantareira operando em torno de 24% da capacidade, São Paulo voltou a acender o sinal de alerta para o risco de uma nova crise hídrica, ainda que longe do colapso vivido em 2014. Desde agosto de 2025, o governo estadual passou a reduzir a pressão da água durante a madrugada na Região Metropolitana para preservar os reservatórios. De acordo com a Sabesp, essa medida teria poupado cerca de 70,3 bilhões de litros até o início de janeiro de 2026, volume equivalente ao consumo mensal de 12,3 milhões de pessoas. Ao mesmo tempo, o governo reforça pedidos de uso consciente e orienta a população a evitar desperdícios e usos não essenciais.
Em 2014, a memória ainda viva para o eleitor, o Sistema Cantareira chegou a zero e obrigou a captação do chamado volume morto, alterando a rotina de milhões de moradores e levando o tema água ao centro do debate eleitoral, enquanto Geraldo Alckmin buscava a reeleição. Naquele ano, apesar da pressão e das críticas, o então governador venceu no primeiro turno, com 57,31% dos votos válidos.
Água, voto e desgaste político
Analistas ouvidos pela reportagem apontam que crises em serviços básicos, como água, tendem a gerar desgaste político porque são percebidas pela população como falhas de planejamento estrutural, mesmo quando o governo alega se antecipar a um cenário mais grave. A analista política Isadora Brizola afirma que medidas preventivas, como a redução da pressão à noite, podem ser traduzidas em narrativa de “ineficiência” se a oposição conseguir associar o problema à condução da gestão.
Nesse contexto, a eleição de 2026 deve testar o quanto a imagem de Tarcísio de Freitas como gestor técnico e pragmático funciona como espécie de “colchão político”, capaz de amortecer desgastes pontuais. O cientista político Rafael Cortez pondera que uma crise hídrica pode deteriorar a avaliação do governo, mas dificilmente será o fator determinante nas urnas, a depender do ambiente eleitoral e do elenco de candidatos. Ainda assim, o tema tende a se somar a outros questionamentos sobre a capacidade de planejamento e resposta do governo estadual.
Privatização da Sabesp no alvo da disputa
Diferentemente de 2014, a discussão sobre água em 2026 ocorre em um novo ambiente político, depois da privatização da Sabesp, uma das principais marcas da gestão Tarcísio. Para Isadora Brizola, esse é o ponto que adiciona uma camada extra de conflito, já que a oposição deve buscar ligação direta entre a lógica de mercado, focada em retorno ao acionista, e eventuais riscos à segurança hídrica.
Segundo a analista, a narrativa trabalhada pelos adversários tende a sustentar que, em um serviço essencial, a busca por eficiência financeira não pode se sobrepor à resiliência do sistema e ao fornecimento constante. Assim, qualquer sinal de aperto no abastecimento, mesmo em estágio preventivo, pode ser amplificado como evidência de que a privatização teria fragilizado a estrutura.
Procurada, a Sabesp afirmou que os desafios de abastecimento na Região Metropolitana são históricos, estruturais e amplamente conhecidos, relacionados a um sistema complexo, altamente demandado e exposto a eventos climáticos extremos. A empresa diz executar um conjunto de obras estratégicas para fortalecer a segurança hídrica e a resiliência dos sistemas, tentando blindar a imagem da companhia em meio ao debate eleitoral que se aproxima.
Enel amplia pressão sobre serviços essenciais
Além da água, o histórico recente de interrupções e problemas no fornecimento de energia da Enel na Grande São Paulo se tornou outro ponto sensível na percepção do eleitor sobre eficiência e regulação de serviços privatizados. Rafael Cortez lembra que a rejeição à marca Enel já é alta e pode se somar ao temor de uma nova crise hídrica, criando uma espécie de “pacote” de insatisfação em torno de serviços essenciais.
Isadora Brizola destaca que, ao contrário da crise da água, que ainda está em estágio de alerta, o caso Enel é visto por grande parte da população como exemplo concreto de deterioração do serviço após a privatização. A oposição, portanto, deve tentar conectar os dois temas, água e energia, sob a mesma lógica de concessões privadas e riscos semelhantes. A mensagem sintetizada em frases como “se com a Enel foi assim, com a água pode ser pior” tende a ser simples, direta e facilmente compreendida no debate eleitoral.
Nesse cenário, cada apagão, cada torneira com baixa pressão e cada comunicado oficial das empresas tende a ganhar peso político desproporcional, à medida que a campanha de 2026 se aproxima. Embora os especialistas alertem que a crise hídrica isoladamente talvez não decida a eleição, o acúmulo de episódios em serviços essenciais pode moldar a narrativa sobre competência de governo, planejamento e limites da privatização em áreas sensíveis.


/https://i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/M/v/D2AxYQQFivheiat9YYVg/armas.jpg)

Publicar comentário