Crônica – O Carioca das praias | Jornal Espírito Santo Notícias
O vendedor ambulante Marcos Antônio da Silva faleceu nesta manhã de domingo por complicações oriundas de uma cirurgia no pâncreas. Velório e sepultamento no Cemitério da Aparecidinha, em Piúma
Não era todo dia. Mas bastava o sol aparecer e a praia encher que ele vinha. Que fosse sábado ou domingo, feriados, lá estava ele. Caminhava devagar entre amendoeiras, coqueiros, mesas e sombrinhas, carregando nas mãos baldinhos, pazinhas, brinquedos de plásticos e, no rosto, aquela expressão mansa de quem sabia que o dia só precisava ser simples para ser bom. Que tivesse gente se banhando e criança ao redor. Assim era Marcos Antônio da Silva, Carioca, como todos o chamavam.
Aposentado, 70 anos, carioca de origem e capixaba de coração. Há 26 anos escolheu Piúma para viver, como quem escolhe um lugar para descansar a alma. No verão e nos feriados, não tinha tempo ruim: virava vendedor ambulante nas praias de Piúma e Iriri para complementar a renda. No fundo no fundo, parecia vender mais sorrisos do que brinquedos, principalmente às crianças, que o cercavam curiosas.
Na manhã silenciosa deste domingo 08, por volta das seis horas, Carioca fechou os olhos pela última vez. Foi na UTI do Hospital Evangélico de Cachoeiro de Itapemirim, após complicações de uma cirurgia para retirada de um câncer no pâncreas. Devoto de Nossa Senhora Aparecida, partiu como viveu: sem alarde.
No Residencial Marimar, no bairro Acaiaca, o vazio agora é visível. Não haverá mais o barulho das chegadas e saídas de Marcos com seus brinquedos, nem a motinha elétrica, conquista recente — encostada ali, como promessa de dias que não vieram. A doença foi, aos poucos, limitando o trabalho, até que ele precisou parar. Morava sozinho, contudo, nunca esteve só: dividia a casa e a vida com Jack, sua calopsita, e com a cadela Milícia que tanto amava.
A família de sangue mora no Rio de Janeiro e não virá para o velório. Entretanto, Piúma, essa família escolhida, cuidou de tudo. Uma família que o tinha como mais do que amigo acompanhou internações, exames, despedidas. O velório acontece na Capela do Cemitério da Aparecidinha, onde também será o sepultamento, às 16 horas.
Eduardo Peixoto, comerciante e amigo, é quem organiza os trâmites. Fala de Marcos com a voz embargada, como quem fala de alguém da própria casa. Era o Carioca quem cuidava dos animais, olhava a casa, quando Eduardo viajava com a esposa. Sempre disponível, sempre presente.
— Ele tinha um carinho especial pela minha filha. Ela o chamava de Vô Careca — conta Eduardo. — Buscava ela na creche de vez em quando. Era muito prestativo. Morava sozinho, mas vivia para ajudar. Moravam ele, a cachorra e a calopsita.
Filhinha de Eduardo e o Vô Careca
Jacqueline Ribeiro, a Jack, fala com o coração em pedaços e o celular de Marcos nas mãos. O WhatsApp não para: mensagens, despedidas, lembranças. Orgulho misturado à dor.
— Ele era trabalhador, honesto, amava os animais. Odiava qualquer covardia com eles. Ficamos separados há seis anos, mas mantínhamos uma amizade muito forte, quase uma cumplicidade. Acompanhei ele em todas as cirurgias, exames, consultas. Era eu e ele. Ele esperou minha visita para partir.
Talvez seja isso que reste: a certeza de que Marcos foi visto, foi cuidado, foi amado. Que deixou marcas leves — como pegadas na areia — nas praias por onde passou. E que, quando o sol voltar a brilhar forte em Piúma e Iriri, alguém ainda vai sentir falta daquele Carioca caminhando devagar, entre mesas e sombrinhas, levando brinquedos… e um pouco de humanidade junto.
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