Edição de Sábado: Valsa brasileira – Meio
Pouco mais das 18h30, o presidente Lula (PT) desembarcou do carro oficial. Não foi direto cumprimentar seus convidados no salão reservado para a confraternização. Antes, se dirigiu ao quarto da Granja do Torto, residência de veraneio da presidência, e trocou de roupa. Deixou ali o terno e a pompa que sustentara durante o dia cheio, com três reuniões e a cerimônia de assinatura do Pacto Brasil de Enfrentamento ao Feminicídio. Colocou jeans e uma camisa azul clara pouco ajustada ao corpo, deixou-a para fora da calça mesmo. Vestiu-se de informalidade, o tom com que redigiria a noite. Cerca de dez minutos depois, finalmente foi dar as boas-vindas a seus ministros, ao presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos), a líderes partidários e deputados petistas que enchiam as seis mesas com oito cadeiras cada. A conversa próxima nas rodinhas abocanhou boa parte do jantar. Só então, quando todos já se sentiam à vontade, Lula iniciou o discurso mais formal.
Antes da fala, já com o microfone empunhado, pediu que tocasse Disparada, de Geraldo Vandré. “Prepare o seu coração/pras coisas que eu vou contar/eu venho lá do sertão”, cantou. Mas não na postura dos solistas, ereto, acima dos convidados, dominando o espaço, tal qual um karaokê. Naquela noite, Lula não estava isolado, num palco. Cantou ao nível das mesas, entre os líderes. E sua voz foi acompanhada pelo coro improvisado que tomou o salão. Não cantou sozinho.
Em seguida, o presidente disparou a discursar. Voltou ao sertão de Pernambuco, refez em poucas frases o caminho até a política e puxou da memória a derrota de 1989, quando Fernando Collor de Mello lhe atravessou a primeira disputa presidencial. Disse que a eleição deste ano “não está ganha”, mas que vai ganhar. A afirmação soou como quem avisa, aposta e convida ao mesmo tempo. Afagou Motta em público: declarou que o presidente da Câmara deve ter ido dormir muitas noites com “angústias”, mas ainda assim conseguiu aprovar “muita coisa”, votações caras ao governo. Estendeu o gesto ao Congresso como um todo. Reconheceu as divergências de 2025, mas decretou como positivo o saldo da relação. Motta respondeu elogiando o Planalto. Ao fim, o líder do PP, Dr. Luizinho, entregou a Lula uma garrafa de uísque. E só então “saiu a boia”, resumiu um líder partidário.
O pirarucu abriu caminho, seguido da farofa, do pirão, do arroz e da salada. Lula dividia a mesa com Hugo Motta, a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT), o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT), o deputado Arlindo Chinaglia (PT), a primeira-dama, Janja da Silva, e o líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT). Não havia música durante a comilança. O som ambiente era outro: o burburinho constante das conversas ao pé de ouvido que antecedem acordos.
Depois dos respectivos vinhos, uísques, cerveja e sobremesa, Geraldo Vandré voltou à caixa de som para embalar as despedidas. Assim, partiram “caminhando e cantando e seguindo a canção”. Para os que se demoraram um pouco mais a deixar a Granja do Torto, outro ritmo embalou o encerramento: o enredo da escola de samba Acadêmicos de Niterói, que homenageará Lula no Sambódromo no dia 15, e que, antes mesmo de estrear no Grupo Especial da Sapucaí, já se meteu em um imbróglio.
O recado estava dado. As cenas do jantar de quarta-feira, oferecido pelo presidente a expoentes da Câmara, deram a largada informal da pré-campanha eleitoral. Serviram para mostrar que o Planalto está aberto a quem quiser caminhar junto rumo à reeleição de Lula, por mais tortuosa que seja a viagem. Em contrapartida, o governo reiterou o peso dos parlamentares na construção política e na aprovação das propostas que pavimentam esse caminho.
Lula, do alto do quarto ano de seu terceiro mandato, compreende como poucos a importância desse tipo de afago, por mais tardio que ele seja. Parlamentares gostam de ser vistos, ouvidos. A avaliação entre governistas é a de que o clima com a Câmara é o mais harmonioso em muito tempo. E, enquanto calcula os próprios interesses, da garrafa de uísque oferecida a Lula à presença de todos os seus líderes partidários, o Centrão ensaia sua valsa de aproximação.
“Com certeza, três meses atrás esse jantar não aconteceria. Agora aconteceu, foi possível”, avalia o deputado Pedro Uczai (PT), novo líder do PT na Câmara. Presente no encontro, ele relata que Lula trabalhou ali em dois registros complementares. O primeiro, afetivo, foi o do reconhecimento. O presidente elogiou os deputados pelas matérias aprovadas, como a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. O segundo, mais político, foi o da corresponsabilidade, de topar dividir o bônus. “O Congresso faz parte das vitórias que o próprio governo tem”, resumiu Uczai ao reproduzir o recado de Lula. A mensagem, segundo ele, foi clara: se a economia apresenta indicadores positivos, por exemplo, isso também se deve ao papel do Legislativo. “Vocês fizeram parte dessa história. Então, continuem fazendo parte dessa história”, foi a linha que atravessou o recado do presidente aos parlamentares.
Na avaliação de Uczai, é essa lógica de reciprocidade que ajuda a explicar a aproximação do Centrão. De um lado, o governo se move em direção a Hugo Motta para viabilizar pautas consideradas estratégicas. De outro, Motta e os partidos do bloco fisiológico reavaliam o trajeto com base na experiência acumulada no último ano e na leitura do cenário eleitoral.
Uczai cita ainda o papel do MDB como exemplo dessa inflexão. Com ministérios estratégicos (Planejamento e Orçamento, encabeçado por Simone Tebet; Cidades, por Jader Filho; e Transportes, por Renan Filho), o partido colhe resultados que ajudam a reforçar a aliança. Programas como o Minha Casa, Minha Vida, e os investimentos em infraestrutura liderados por Renan Filho são mencionados como ativos políticos. Para o deputado, essa participação torna natural não apenas a sustentação do governo, mas uma convergência eleitoral. Nos bastidores, o movimento já alcança até a negociação da vice na chapa de Lula, hoje discutida com o MDB e capaz de tensionar antigos arranjos, como a permanência de Geraldo Alckmin na dupla.
O cálculo é pragmático. Ao se reconhecerem como coautores das vitórias do governo, os partidos do Centrão passam a enxergar na continuidade mais um ativo do que um risco concreto. Ao menos essa é a leitura, e a aposta, do Planalto.
Fim da escala 6×1
“Querem produtividade no país? Reduzam a jornada de trabalho. Querem saúde para o trabalhador? Reduzam a jornada de trabalho. Querem qualidade de vida para o povo brasileiro? Reduzam a jornada de trabalho.” A frase, repetida como um refrão, foi dita pelo deputado Pedro Uczai (PT) na terça-feira, ao deixar a reunião da liderança do partido na Câmara. Ali, ao lado da ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, e de toda a bancada petista, selava-se a passagem de bastão de Lindbergh Farias para Uczai no comando do PT da Casa Baixa.
Desde então, o novo líder tem martelado a mesma ideia nos corredores do Congresso. A prioridade do governo é aprovar o fim da escala 6×1. O problema é o relógio. Os ponteiros correm contra o Planalto em duas frentes: o tempo regimental da tramitação e o tempo político da costura de apoios.
Segundo interlocutores próximos a Hugo Motta, a relação do presidente da Câmara com o Planalto sempre foi razoável, mas perdeu o compasso no segundo semestre do ano passado, após uma sequência de atritos envolvendo o então líder do PT, Lindbergh Farias. O ponto de inflexão teria sido a escolha do deputado Guilherme Derrite (PP), aliado do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (àquela altura ainda o nome mais cotado como possível oponente de Lula nas urnas), para relatar o PL Antifacção, projeto gestado no próprio Planalto. Ela veio na sequência da ofensiva da esquerda ao carimbar que o Congresso é o inimigo do povo, que, por sua vez, veio depois da tentativa de se aprovar a PEC da Blindagem. A escolha de Derrite foi lida pelo PT como um gesto político, não apenas regimental, e aprofundou a desconfiança entre as partes. Por ora, no entanto, os ventos são outros.
Entre governistas, a avaliação é de que o fim da escala 6×1 reúne um ativo raro: popularidade e impacto direto no cotidiano do eleitor. Não embarcar nessa agenda pode sair caro. Segundo fontes do Planalto, está em amadurecimento uma proposta do próprio governo, a ser enviada ao Congresso em regime de urgência, com o objetivo de aglutinar as quatro iniciativas hoje em tramitação. O Planalto, porém, descarta qualquer modelo que resulte, na prática, em aumento da carga horária semanal. O recurso à urgência serviria justamente para vencer o obstáculo do tempo legislativo. Propostas com esse status não passam pelas comissões e devem ser apreciadas em até 45 dias. Se o prazo for estourado pode inclusive trancar a pauta da Casa.
A movimentação, contudo, não é exclusiva do governo. Apresentar uma proposta própria que consolide os projetos existentes também entrou no radar da oposição. O líder oposicionista na Câmara, Cabo Gilberto (PL), admitiu apoio ao fim da escala 6×1, desde que as horas trabalhadas em seis dias sejam redistribuídas em cinco. Para alcançar esse “meio-termo”, diz, sua bancada estuda protocolar um texto alternativo. O debate, pondera, ainda está imaturo. Por enquanto, a oposição tem mais com o que se preocupar. O governo também.
O obstáculo Master
Na mesma terça-feira em que Pedro Uczai era apresentado como o novo líder do PT na Câmara, o Salão Verde se enchia de deputados do PL. Aos montes, formaram um círculo no centro do espaço. E riam, e conversavam, e celebravam. Haviam finalmente alcançado, e até ultrapassado, o número de assinaturas necessário para protocolar o requerimento de criação de uma CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) destinada a investigar o Banco Master e a fraude financeira envolvendo a instituição. Para a instalação de uma comissão mista, são exigidas 171 assinaturas de deputados e 27 de senadores, o equivalente a um terço da Câmara e do Senado. Segundo o deputado Carlos Jordy (PL), o pedido reuniu o apoio de 42 senadores e 236 deputados.
Esperaram a imprensa se posicionar e só então anunciaram o feito, em coletiva. O recém-empossado líder da oposição na Casa, Cabo Gilberto, ocupou o centro diante do microfone. Logo atrás, comprimiam-se rostos conhecidos da tropa bolsonarista: Capitão Alden, Chris Tonietto, Altineu Côrtes, Caroline de Toni, Delegado Caveira, Domingos Sávio, Helio Lopes, Rodolfo Nogueira, Bia Kicis, Zé Trovão, Sargento Gonçalves, Coronel Fernanda, além do senador Magno Malta. Somavam-se ainda Marcel Van Hattem e Adriana Lima, do Novo. O último a romper o cordão humano e alcançar o microfone foi Jordy, responsável pela articulação que viabilizou a coleta das assinaturas.
Cabo Gilberto abriu espaço para que Jordy tomasse a palavra. O deputado concentrou a fala em críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao governo Lula. Com a Corte na mira, questionou a condução do caso pelo relator, Dias Toffoli. “Esse ministro jamais era pra ser relator do caso, era pra ser investigado”, afirmou. Em relação ao Executivo, citou o ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski, lembrando sua atuação como consultor do Banco Master após deixar o STF e classificando sua posterior saída do governo como uma “confissão de culpa”. Também mencionou “agendas secretas” envolvendo o então dono do banco, Daniel Vorcaro, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e o presidente Lula.
A ofensiva se estendeu à base governista no Congresso. Jordy acusou o antigo líder do PT, Lindbergh Farias, de “jogo de cena” ao sinalizar apoio à apuração do caso. Argumentou que os pedidos de CPI citados pelo petista não avançariam e defendeu que apenas a CPMI protocolada pelo PL reunia condições reais de instalação. “Se ele quer fazer a apuração do caso, se quer que esse governo seja levado a sério, tem que assinar o nosso pedido de CPMI”, disse. O discurso dialogava com um ambiente político mais amplo. A mobilização em torno do caso Master atravessou, sem pedir licença, a pauta do Legislativo. E provocou uma disputa pelos holofotes.
Ainda na terça, a CPI do Crime Organizado previa ouvir o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, que declinou do convite. Indicou o secretário de Segurança Pública, Sandro Avelar, mas quem compareceu foi o secretário-executivo Alexandre Patury, o “substituto do substituto”, o que levou ao cancelamento da reunião. No dia seguinte, foi a vez de o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, adiar sua oitiva, sob a justificativa de viagem à Europa. Um dia antes, a Polícia Federal havia prendido o ex-presidente do Rioprevidência, indicado por seu governo. Castro deverá prestar depoimento na próxima semana sobre os investimentos do fundo no Banco Master.
No Senado, a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), presidida por Renan Calheiros (MDB), instalou uma subcomissão, uma espécie de “mini-CPI” para acompanhar as investigações relacionadas ao caso, com previsão de depoimentos e requisição de documentos. Integrante da base do governo, Calheiros afirmou que seus questionamentos se estenderão a Lula. “Todos que estiveram na reunião podem colaborar com essa comissão. Ao presidente da República, pretendemos fazer algumas perguntas por escrito”, disse, referindo-se a encontros de Vorcaro no Palácio do Planalto que não constaram na agenda oficial.
Mas a maior ofensiva partia daquele microfone tomado por Jordy. Ele ancora sua estratégia no artigo 21 do regimento interno do Congresso Nacional, que prevê que, uma vez lido em sessão conjunta o requerimento de criação de uma CPMI com as assinaturas exigidas, sua instalação é automática. Ou seja, não depende de deliberação do plenário nem de juízo político do presidente do Congresso. Tradicionalmente, essa leitura ocorre na sessão seguinte ou na primeira sessão convocada após a confirmação do quórum. “Não cabe conveniência. O presidente do Congresso não decide se instala ou não. Se não o fizer, pode incorrer em crime de responsabilidade”, esbravejou Jordy. A rigidez da norma, no entanto, esbarra na maleabilidade do calendário.
Quem sabe faz a hora
A primeira sessão conjunta do Congresso Nacional concentra outra prioridade da oposição: a votação que decidirá se o Legislativo mantém ou derruba o veto do presidente Lula ao projeto da dosimetria. A pauta é essencial para parlamentares bolsonaristas, que poderão (ou não) dar uma reposta ao eleitorado, uma vez que o projeto reduz penas de envolvidos nos atos de 8 de janeiro, inclusive do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Como o presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União Brasil), ainda não se mostra disposto a autorizar a leitura do requerimento da CPMI, a convocação dessa sessão vem sendo postergada.
Na quarta-feira, o líder da oposição no Congresso, senador Izalci Lucas (PL), ligou para Alcolumbre em busca de uma definição. Ele não é o único líder de partidos de direita que tenta exercer pressão, ouvindo que a conversa fica para depois do Carnaval. O adiamento acende um alerta duplo. Se a sessão escorregar para março ou, no limite, abril, a CPMI do Master passa a correr contra um relógio ainda mais apertado. Teria pouco fôlego político para produzir efeitos concretos antes de ser engolida pelo calendário eleitoral. O prazo inicial de funcionamento é de 180 dias, prorrogável por mais 90, mas, a partir de julho, o Congresso esvazia. Quem se propõe a investigar deixa a cadeira para ocupar o palanque.
Nesse compasso truncado, a oposição corre o risco de tropeçar no próprio passo e acabar criando um conflito de agendas que fragiliza sua pauta dupla. “A CPMI acabou atrapalhando a votação da dosimetria”, admite Izalci.
Do lado do governo, a votação do veto também permanece no horizonte. Integrantes do Planalto afirmam que ainda construirão os votos necessários para barrar a derrubada. Admitem, no entanto, que qualquer costura neste sentido ficou, igualmente, para depois do Carnaval. Depois do Carnaval, também, Lula promete outro jantar, desta vez para a Casa Alta. Parece que depois da folia Ratinho Jr. e Flávio Bolsonaro também iniciam suas campanhas presidenciais no Brasil, depois de viagens internacionais. Tem coisa que só começa mesmo depois do Carnaval.



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