Fed e BCB seguem roteiro previsto de manutenção das taxas de juros | Opinião
O Federal Reserve dos Estados Unidos encerrou os cortes nas taxas de juros e as manteve entre 3,5% e 3,75%, indicando uma possível pausa prolongada. Apesar de não ter revelado os próximos passos, o comunicado da última reunião do Comitê de Mercado Aberto (Fomc) apontou que a economia está crescendo em um “ritmo sólido”, com sinais de estabilização na taxa de desemprego. Isso diminui a urgência de novas ações na política monetária. Os investidores especulam que ainda poderão ocorrer dois cortes nas taxas, a partir do meio do ano. As perspectivas econômicas estão mudando para um crescimento acima do esperado, inflação mais resiliente e um mercado de trabalho mais estável do que se temia. Por sua vez, o Banco Central do Brasil optou por manter as taxas, mas sinalizou a possibilidade de iniciar um ciclo de redução dos juros na próxima reunião, em março.
A mudança no panorama dos riscos, com destaque para a desaceleração do mercado de trabalho, levou o Fed a reduzir as taxas nas últimas três reuniões consecutivas. Segundo Jerome Powell, presidente do Fed, os dados mais recentes indicam uma situação mais favorável. Atualmente, embora esteja mais difícil conseguir emprego (com 0,9 vaga para cada candidato), não há grandes demissões em massa.
Os dados negativos divulgados recentemente são, em grande parte, atribuídos à saída em massa do setor público, impulsionada pelo presidente Donald Trump, que ofereceu incentivos para demissões voluntárias, além de cortes significativos em diversos departamentos, de acordo com a consultoria Oxford Economics. Cerca de 274 mil servidores públicos foram dispensados, algo não visto em tal escala desde o fim da Segunda Guerra Mundial. A Oxford estima que a abertura de 35 mil vagas mensais é suficiente para manter a taxa de desemprego estável, devido à redução no número de candidatos imigrantes e ao envelhecimento da população, que impacta a força de trabalho.
A economia dos Estados Unidos está em uma posição favorável e, com os estímulos do pacote de redução de impostos em vigor desde o início do ano, pode melhorar ainda mais. As famílias serão beneficiadas com a redução de US$ 440 bilhões em taxas e impostos, e parte desse montante será destinada ao consumo, que já se mantinha forte antes mesmo dos cortes tributários. Os investimentos em Inteligência Artificial estão em ascensão, impulsionando a expansão econômica e elevando os índices da bolsa de valores. O aumento da riqueza impulsiona o consumo, com um número recorde de lares investindo em ações.
Enquanto a expansão econômica ocorre em um ano de eleições parlamentares decisivas para o futuro político de Trump, a inflação ainda é uma preocupação, especialmente com a economia crescendo acima de seu potencial. O índice de preços de gastos do consumo atingiu 3% nos últimos doze meses, impondo um limite para novas reduções nas taxas de juros. Powell e outros membros do Fed consideram que a taxa de juros está atualmente no patamar mais alto do intervalo estimado para a taxa neutra, o que não estimula nem contrai a atividade econômica. Essa posição permite ao Fed tomar decisões com cautela, levando em consideração os sinais positivos, como a estabilização dos preços após os aumentos causados pelas tarifas, e a queda da inflação nos serviços.
No entanto, o Fed enfrenta uma transição desafiadora, com o fim do mandato de Jerome Powell em maio. A pressão de Trump por uma redução expressiva nas taxas de juros, incluindo ataques públicos ao presidente do banco e até mesmo um processo do Departamento de Justiça por gastos excessivos na reforma das instalações, coloca em xeque a independência da instituição. Trump busca alguém alinhado com sua política monetária, o que ameaça a autonomia do Fed.
Em contrapartida ao esperado, o Comitê de Política Monetária indicou claramente uma “flexibilização da política monetária” em sua próxima reunião em março. O comunicado do Banco Central é mais sucinto e não faz menção à necessidade de uma política contracionista prolongada. O Copom agirá com cautela diante de um cenário marcado por expectativas de inflação elevadas, atividade econômica resiliente e pressões no mercado de trabalho.



