Governo da França reconhece falha que poderia ter evitado abuso de Gisèle Pelicot
Título: Governo da França admite falha que poderia ter prevenido abuso contra Gisèle Pelicot
O Ministério da Justiça da França divulgou um relatório nesta semana, revelando que deficiências na investigação de um caso de estupro em 1999 poderiam ter evitado os abusos sofridos por Gisèle Pelicot. Seu ex-marido, Dominique Pelicot, foi condenado em dezembro de 2024 por ter organizado estupros contra ela entre 2011 e 2020.
Gisèle era drogada e agredida por estranhos recrutados por Dominique na internet enquanto estava inconsciente. Ele recebeu uma sentença de 20 anos de prisão de um tribunal em Avignon.
A investigação do governo francês revelou que, antes desses crimes, Dominique poderia ter sido vinculado a uma tentativa de estupro contra uma corretora imobiliária em 1999, em Villeparisis, na região de Seine-et-Marne, próxima a Paris. O caso só foi reaberto em 2022, quando ele confessou após ser identificado por meio de DNA encontrado no local do crime.
Naquela época, Dominique já estava sob investigação pelos estupros contra a esposa, descobertos em 2020, quando foi preso por filmar mulheres em um shopping na região de Mazan. A polícia encontrou cerca de 4.000 vídeos de abusos contra Gisèle em seu computador.
O relatório indica, no entanto, que a identificação poderia ter ocorrido em 2010. Nesse ano, Dominique foi preso na região metropolitana de Paris, também por filmar mulheres desconhecidas, e teve uma amostra de DNA coletada. O material correspondia ao DNA encontrado no estupro de 1999.
No entanto, o resultado da análise foi enviado por carta ao Tribunal de Justiça de Meaux, responsável pelo caso de Nanterre. O Ministério da Justiça constatou que não há evidências de que a corte tenha recebido o documento que poderia levar à condenação de Dominique.
Diante desse fato, o ministério anunciou que irá alterar os procedimentos de envio de resultados de análises de DNA, que atualmente são enviados pelo correio. A recomendação é que esses documentos passem a ser transmitidos exclusivamente de forma digital.
Na sexta-feira (16), a Promotoria de Nanterre informou à agência AFP que Dominique será alvo de novas investigações. Além do estupro de 1999, ele está sendo investigado por um caso de violência sexual seguida de assassinato ocorrido na cidade em 1991. Em ambos os casos, as vítimas eram corretoras de imóveis.
Dominique nega envolvimento no crime de 1991, e o relatório do Ministério da Justiça aponta que o Tribunal de Justiça de Paris perdeu evidências apreendidas na cena do crime, incluindo roupas que poderiam conter vestígios de DNA.
Caso Pelicot
O caso de Dominique Pelicot ganhou destaque internacional após Gisèle solicitar que o julgamento fosse público, argumentando que “a vergonha precisa mudar de lado”. Durante o julgamento, ela declarou: “Quando ouço essas mulheres, esposas dos acusados, dizendo que seus maridos não são estupradores, eu pensava o mesmo. Quando decidi remover o sigilo, queria que elas dissessem: ‘Se a senhora Pelicot fez isso, nós também podemos’. Não quero mais que elas sintam vergonha. A vergonha não é nossa, é deles. Não expresso nem minha raiva nem meu ódio, mas a determinação de mudar esta sociedade”.
Dominique alegou ter crescido em um ambiente familiar prejudicial, com um pai “autoritário e tirânico”. Segundo sua advogada, ele passou por uma série de traumas na infância antes de “se entregar à perversidade”. A defesa argumenta que o réu possui dupla personalidade.
Ele recrutou cerca de 50 homens, principalmente por meio de fóruns online. Em seu depoimento, afirmou ter deixado claro aos estranhos que a esposa estava inconsciente e que não deveriam tentar acordá-la.
Alguns dos réus contestaram essa versão e afirmaram terem sido enganados. Segundo eles, Dominique informou que Gisèle estava apenas dormindo e consentia com as ações do então marido.



