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Incertezas globais e internas desafiam a economia | Rumos 2026

Incertezas globais e internas desafiam a economia | Rumos 2026

Incertezas globais e internas desafiam a economia | Rumos 2026

Título: Desafios econômicos diante das incertezas globais e domésticas | Perspectivas para 2026

Assim como ocorreu com o impacto das tarifas em 2025, o ano teve início enfrentando uma ameaça à economia global com o conflito no Oriente Médio, intensificando a incerteza do cenário. Os ataques aumentaram o receio de uma crise de abastecimento de petróleo, levando o preço do barril tipo brent a ultrapassar US$ 110 no domingo, para depois cair abaixo de US$ 100, em meio a uma forte volatilidade nas cotações. Além das indefinições no ambiente externo, o Brasil enfrenta seu principal desafio estrutural – a fragilidade das contas públicas, que lança sombras sobre as perspectivas econômicas a longo prazo. A necessidade de ajuste fiscal em 2027 é crucial para uma redução sustentável das taxas de juros, conforme destacaram economistas no evento “Perspectivas para 2026”, organizado pelo Valor em 2 de março. “O custo de não realizar o ajuste fiscal é alto e tende a aumentar progressivamente, dada a magnitude da dívida pública”, afirmou Fernando Honorato, economista-chefe do Bradesco. A redução das incertezas fiscais torna-se ainda mais relevante em períodos de volatilidade externa.

Esse cenário internacional complexo tende a influenciar as projeções para a economia brasileira. Antes do início do conflito, o Banco Central (BC) indicava o início do ciclo de redução da taxa de juros pelo Comitê de Política Monetária (Copom) em sua reunião deste mês. Agora, surgem dúvidas sobre a extensão e intensidade desse processo de queda da Selic, havendo quem acredite que o BC possa adiar o primeiro corte.

“Provavelmente enfrentaremos pressões inflacionárias de curto prazo, o que afetará os índices anuais e as expectativas”, observa Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados. Ele ressalta a significativa defasagem nos preços da Petrobras e a dificuldade de a estatal não repassar parte desse aumento para o consumidor. Segundo o economista, a inflação ainda está distante da meta de 3%.

A reviravolta causada pela crise no cenário externo pode, por outro lado, beneficiar o Brasil em certa medida, favorecendo a balança comercial. No entanto, a prudência se faz necessária. Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual e ex-secretário do Tesouro, destaca como surpreendente a estabilidade da taxa de câmbio diante do novo panorama de riscos. “A perspectiva dominante ainda pode ser de que o aumento nos preços do petróleo seja temporário. Aguardaremos o Banco Central, que provavelmente iniciará o ciclo de redução dos juros.”

Antes da eclosão do conflito, as expectativas eram mais favoráveis, com indicadores positivos no mercado de trabalho, baixa taxa de desemprego e aumento da renda. A bolsa de valores batia recordes, com entradas de investidores estrangeiros em busca de diversificação de portfólios, e o Brasil era um dos destinos preferidos.

O PIB vem crescendo desde 2021, avançando 2,3% em 2025, embora a economia tenha perdido fôlego no segundo semestre. Claudio Considera, coordenador do Núcleo de Contas Nacionais da FGV Ibre, destaca uma “desaceleração acentuada no final do ano passado”, atribuindo-a às tarifas implementadas pelo governo Trump que prejudicaram as exportações. No entanto, ele ressalta a eficiência do país em buscar novos mercados. Mansueto aponta que o Brasil “teve sorte com os problemas dos EUA. Embora tenham sido negativos para o mundo, foram positivos para os mercados emergentes. A desvalorização do dólar contribuiu significativamente para a queda da inflação aqui e em outros países emergentes”.

Para um crescimento robusto e sustentável, será crucial lidar com o desequilíbrio nas contas públicas, fator determinante para garantir a continuidade da expansão em 2027. “É o grande desafio”, alerta Marcus Pestana, diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI). “O Brasil está em uma trajetória ascendente de endividamento bruto em todo o setor público. A tendência é de deterioração. Para conter o crescimento da dívida, estimamos que seja necessário gerar um superávit primário superior a 2% do PIB”, afirma, referindo-se ao resultado excluindo os gastos com juros.

Pestana destaca que o foco do governo no limite inferior da meta fiscal, em vez do centro, fragilizou a estrutura fiscal. “Muitos analistas e consultores que influenciam decisões de investimento já não consideram a meta. Eles observam a curva da dívida e a relação dívida/PIB.” Mansueto concorda que a dívida está em uma trajetória insustentável. “Ao final deste governo, estimamos um crescimento médio do PIB de 2,5%, 2,6%, com a dívida aumentando pelo menos 10 pontos percentuais em relação ao PIB. Provavelmente alcançará 82% do PIB.”

A incerteza impacta as expectativas. Para Marcos Mendes, pesquisador associado do Insper, poderá haver uma melhora ilusória nas contas devido ao aumento da receita com royalties, o que ajudará a equilibrar as contas primárias de 2026. Por outro lado, a inflação no exterior poderá levar o Fed a desacelerar o ritmo de redução dos juros. “O aumento na receita proveniente da exploração de petróleo será mais do que compensado pelo aumento nos gastos com juros.” Além disso, pode ocorrer desvalorização do real, com impacto sobre a inflação. “Em um cenário extremo, com o petróleo acima de US$ 100 por um longo período, os danos serão significativos.”

Para solucionar os problemas das contas públicas, será essencial abordar questões controversas, como a expansão das despesas obrigatórias, que limitam o espaço para investimentos. O economista Bruno Carazza, colunista do Valor e professor da Fundação Dom Cabral, destaca o aumento expressivo das emendas parlamentares. “Essas emendas estão crescendo, e a contenção agora está principalmente nas mãos do Supremo, em especial com o ministro Flávio Dino, que é relator de uma ação nesse sentido. Ainda não encontramos uma maneira de contornar esses desafios. Em algum momento do próximo governo, independentemente do vencedor das eleições, será necessário lidar com essas questões complexas.”

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