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O alvo no Supremo – Meio

O alvo no Supremo – Meio

O alvo no Supremo – Meio

Pelo menos duas pesquisas de opinião, uma encomendada por um partido político, outra pela Faria Lima, ouviram recentemente que mais da metade dos eleitores escolherão seus candidatos ao Senado com base em um único critério: o compromisso com o impeachment de um ministro do Supremo Tribunal Federal. Embora não sejam pesquisas registradas no TSE, os detalhes não podem ser divulgados. Contudo, com março se aproximando e o Carnaval já passado, essa parece ser a tendência.

Para os apoiadores de Bolsonaro, surge um dilema. Eles desejam vincular esse impeachment à libertação de Bolsonaro, por meio de anistia ou outras medidas. Em outras palavras, para o grupo político de Bolsonaro, o impeachment representa uma ameaça, uma chantagem e uma negociação. Busca-se uma anistia, o Supremo finge não perceber e deixa as coisas acontecerem. É por isso que, há mais de um ano, eles vêm tentando plantar a ideia de impeachment de ministros na mente do eleitor. Contudo, até o ano passado, essa estratégia não havia sido eficaz. A razão é simples: a maioria dos eleitores acredita que houve uma tentativa de golpe. A população em geral não considera que tenha havido erro no julgamento do golpe.

Mesmo assim, a narrativa sobre esse impeachment foi sendo reforçada e ganhando força. Embora não tenha conquistado a maioria da sociedade, atraiu um grande número de pessoas. As atitudes controversas do ministro José Antonio Dias Toffoli no caso Master, bem como o contrato de 129 milhões firmado pelo escritório da esposa do ministro Alexandre de Moraes com o banco, levaram a uma percepção popular negativa em relação ao tribunal. Atualmente, o Supremo é visto como corrupto e corporativista.

Nesse contexto, surge cada vez mais a possibilidade de um impeachment de um ministro, qualquer ministro. Toffoli se tornou o principal alvo devido à sua conduta. Ao se recusar a reconhecer publicamente que sua defesa de um sócio era evidente, ou talvez, para ser mais preciso, por simples despreocupação. Ele não se importou com a evidente suspeição. Por que ele não se importou? Talvez porque sentiu a necessidade de encobrir a situação do Banco Master para sobreviver. Ou porque se considera acima da lei e da ética, capaz de tudo. Ou, mais provavelmente, por ambas as razões.

A atuação de Toffoli colocou o Supremo nessa situação de profundo descrédito perante a sociedade. Isso vai além de uma mera campanha do bolsonarismo. Na verdade, no âmago da campanha de Flávio Bolsonaro, essa situação se tornou um problema. Por quê? Porque eles não desejam o impeachment de Toffoli. O que buscam é o impeachment de Alexandre. Ou, no mínimo, ameaçar Alexandre com o impeachment para obter um acordo. Toffoli, para os Bolsonaros, é um aliado. E o caso do Master é um problema que eles preferem ignorar, fingindo que não existe. Por quê? Ainda não está claro. Talvez uma certa residência em Brasília, que recebeu financiamento do BRB, possa ajudar a esclarecer.

Portanto, o que a família Bolsonaro almeja é pressionar o Supremo com um impeachment de Alexandre, obter a anistia de Bolsonaro, fazer um acordo e encerrar o caso do Banco Master. Isso não é algo que comova a sociedade brasileira. A grande ameaça ao Supremo não existia no ano passado. Ela surgiu agora, e a principal razão são as ações do ministro Dias Toffoli em relação ao Banco Master. Toffoli é 70% responsável por colocar o STF na mira. Em essência, os Bolsonaros, de fato, contribuíram para criar esse cenário. Porém, perderam o controle.

E é aí que entra a direita radical. Ela está com os Bolsonaros, mas, ao mesmo tempo, não está. Está quando se trata de votos. Não está quando implica em perder votos. Flávio evita falar sobre Toffoli ou sobre o Master. Lula, por sua vez, não. A máquina de assessoria de imprensa do Planalto está vazando informações, para qualquer colunista interessado, que Lula instruiu a Polícia Federal a investigar quem quer que seja necessário, que Lula alertou Toffoli sobre tal e tal questão, e assim por diante. Essas notícias veiculadas em diversos veículos são estratégicas. São um aviso. Lula está se desvinculando do caso. Ele não irá interceder por ninguém e se afastará de qualquer pessoa envolvida. A notícia não é positiva nem para o secretário da Casa Civil, Ruy Costa, nem para o líder no Senado, Jacques Wagner. Além disso, não é favorável a uma boa parte do Centrão no Congresso.

É evidente, em Brasília, que Daniel Vorcaro não é o topo da pirâmide. Ele é o rosto visível do Master, mas representa outras pessoas nos bastidores. Se de fato é um laranja, de quem ele é laranja? Independentemente disso, figuras influentes do mundo dos negócios, como Nelson Tanure, e da política, como o presidente do União-Brasil, Antonio Rueda, e do Progressistas, Ciro Nogueira, estão envolvidos de alguma forma com o Master. Qual é exatamente a relação deles com o Master? São apenas atores secundários? Estão entre os políticos que facilitaram o acesso? Entre os empresários com quem Vorcaro fez negócios? Ou há mais envolvido? Especialmente Rueda e Nogueira estão implicados em que nível? A Polícia Federal suspeita que Tanure não era apenas um parceiro de negócios ocasional, mas possivelmente um sócio oculto.

Quanto mais personalidades importantes surgirem, mais a necessidade de um bode expiatório se tornará evidente. Escolher alguém com peso suficiente, mas não tanto a ponto de causar grande impacto, pode ser essencial. Em um cenário de crise, no qual muitos poderosos sintam o frio na espinha, pode ocorrer uma situação em que Toffoli se torne o alvo perfeito. O grupo do União Progressista no Congresso pressionará, o PL não ficará de fora, Lula já afirmou que não defenderá. Essa pauta será vendida como moralizante e pronto. Se isso ocorrer em um contexto no qual uma parcela significativa de senadores foi eleita com a promessa de um impeachment desse tipo, o jogo político se organizará.

No entanto, nada é definitivo. O fato de Toffoli ter deixado a relatoria ajuda a acalmar os ânimos. Por outro lado, a decisão de Alexandre de prender um presidente de sindicato que o criticou contribui para acirrar os ânimos. Ele está atraindo as atenções. Na política, e, sim, o Supremo se tornou político, nada é inevitável, tudo é construído.

Se o Supremo deseja evitar se tornar o epicentro de uma crise iminente, é crucial agir com transparência. Isso depende muito de os ministros compreenderem as mensagens das pesquisas e os anseios do povo.

O papel do Supremo mudou ao longo dos anos. Antes, os ministros eram discretos, mas agora estão em evidência. Eles gostam do destaque. Concedem entrevistas, fazem discursos inflamados em plenário, promovem julgamentos que param o país de tempos em tempos. O Supremo, que sempre foi reservado ao longo da história da República, agora está no centro das atenções.

Há um preço nisso. Mais pessoas estão atentas. Mais indivíduos percebem que o Supremo faz parte do jogo político. Até o momento, em nossa democracia, presidentes perderam seus mandatos, assim como deputados e senadores. Governadores, prefeitos e parlamentares de todos os níveis cumpriram penas de prisão. Alguns por dias, outros por meses, como Lula que ficou quase dois anos detido. Bolsonaro corre o risco de enfrentar um destino similar. O maior erro que os ministros podem cometer é não reconhecer a possibilidade de serem as próximas vítimas nesse enredo em evolução. Eles podem sofrer um impeachment e serem condenados à prisão. O Brasil é caótico, a Justiça não é igual para todos, porém, já não é mais um país onde os poderosos escapam impunes. O país, às vezes, é implacável.

A tempestade está se formando. Ainda há tempo para os ministros do Supremo reverterem esse cenário. A soberba não é uma boa conselheira.

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