O elefante na sala entre Trump e petroleiras que miram Venezuela: o Iraque
O presidente Donald Trump apresentou de forma simplista a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela: entrar, obter o petróleo e iniciar as exportações. No entanto, a experiência das grandes companhias petrolíferas no Iraque pós-invasão revelou que a realidade será consideravelmente mais complexa.
Em 2003, os EUA invadiram o Iraque e capturaram Saddam Hussein, seu líder. Mais de vinte anos depois, as forças especiais norte-americanas prenderam o ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro em Caracas — outro ditador que controlava bilhões de barris de petróleo bruto.
Apesar dessa conexão direta, a situação na Venezuela difere em muitos aspectos: não há conflito armado, nem presença de tropas dos EUA em solo venezuelano, tampouco sistemas sociais e políticos radicalmente distintos.
No entanto, as repercussões da invasão do Iraque oferecem valiosas lições para as empresas petrolíferas que cogitam adentrar na Venezuela.
De acordo com analistas, será provavelmente necessário vários anos para que as grandes companhias petrolíferas decidam realizar investimentos significativos na Venezuela, principalmente devido à previsão de enfrentarem desafios imprevisíveis e potencialmente instáveis em termos de segurança.
Para essas empresas, “será uma tarefa extremamente árdua”, afirmou Bill Farren-Price, pesquisador sênior do Instituto de Estudos de Energia de Oxford. “Os esforços para reconstruir as indústrias petrolíferas — mesmo em grandes produtores como o Iraque e a Venezuela — demandam anos.”
A experiência no Iraque
Dias após a invasão dos EUA e seus aliados no Iraque, o então Secretário Adjunto de Defesa, Paul Wolfowitz, declarou perante uma comissão do Congresso que as vastas reservas de petróleo do país poderiam cobrir os custos da reconstrução iraquiana.
Isso não se concretizou.
“O governo Bush acreditava que os EUA, o Iraque e a indústria do petróleo colheriam os benefícios econômicos (do petróleo iraquiano) muito mais rapidamente do que de fato ocorreu”, disse Mohamad Bazzi, diretor do Centro de Estudos do Oriente Próximo da Universidade de Nova York, à CNN.
A indústria petrolífera do Iraque foi nacionalizada e afastada das empresas ocidentais desde os anos 1970.
Logo após a invasão, os EUA dissolveram as forças armadas iraquianas e removeram milhares de membros do Partido Baath, de Hussein, de cargos públicos no Iraque. Isso colocou órgãos governamentais — incluindo o Ministério do Petróleo — temporariamente sob controle dos EUA.
Um governo interino iraquiano assumiu o poder no ano seguinte, mas apenas por volta de 2009, segundo analistas da CNN, é que as autoridades começaram a oferecer contratos a empresas petrolíferas estrangeiras.
Contudo, os contratos oferecidos pelo governo não eram atrativos para essas empresas, conforme Raad Alkadiri, sócio-gerente da 3TEN32 Associates, consultoria de risco político que assessora companhias petrolíferas.
Alkadiri, que atuou como assessor de diplomatas britânicos no Iraque entre 2003 e 2007, ressaltou que os contratos essencialmente convidavam empresas estrangeiras a atuar no Iraque como prestadoras de serviços, em vez de conceder-lhes direitos de propriedade sobre as reservas de petróleo. Ele acrescentou que somente recentemente o governo iraquiano começou a apresentar condições mais vantajosas.
“A promessa e a ambição que cercavam as mentes das companhias petrolíferas antes da invasão… foram frustradas rapidamente quando os iraquianos implementaram seu próprio sistema”, disse Alkadiri à CNN Internacional.
Não foram apenas os fatores econômicos que deixaram as companhias petrolíferas estrangeiras apreensivas. A situação de segurança no Iraque deteriorou-se rapidamente após a invasão, em grande parte devido ao vácuo de poder.
“Assim, nos anos posteriores à invasão dos EUA, houve saques de petróleo, ataques e sabotagem da infraestrutura petrolífera existente, além do desenvolvimento da insurgência e, posteriormente, da guerra civil no próprio Iraque”, explicou Bazzi, da NYU.
Relevância para a Venezuela
É muito cedo para prever a evolução da situação de segurança na Venezuela.
Porém, o governo Trump optou por manter remanescentes do regime de Maduro no poder, ao contrário do que ocorreu no Iraque após a invasão, afirmou Carlos Solar, pesquisador sênior de Segurança Latino-Americana do Royal United Services Institute.
Segundo Solar, existem grupos armados na Venezuela que poderiam instaurar um “cenário de segurança caótico”, muito mais incontrolável do que negociar com Delcy Rodríguez, a presidente interina do país e ex-vice-presidente e ministra da Energia de Maduro.
A Venezuela é um “país altamente militarizado”, conforme Solar, com quatro principais grupos armados: o exército venezuelano, gangues do crime organizado, grupos guerrilheiros colombianos e coletivos, grupos paramilitares leais a Maduro que impõem o regime em muitos bairros.
Em vez de enviar tropas americanas, o governo Trump está se preparando para recorrer a empresas militares privadas para proteger os ativos de petróleo e energia na Venezuela, de acordo com duas fontes informadas sobre os planos, citadas pela CNN Internacional.
Durante a Guerra do Iraque, os EUA investiram bilhões em empresas privadas de segurança, logística e reconstrução, embora esses serviços tenham sido marcados por controvérsias, como o assassinato de civis iraquianos.
“A situação de segurança é realmente grave”, alertou Amy Myers Jaffe, diretora do Laboratório de Energia, Justiça Climática e Sustentabilidade da Universidade de Nova York.
Atualmente, segundo ela, existem muitas incertezas que impedem as grandes companhias petrolíferas de justificarem o investimento de grandes quantias para retomar significativamente as operações na Venezuela.
“A lição do Iraque é que não se trata apenas da quantidade de petróleo disponível, mas sim do desenrolar dos acontecimentos na prática”, acrescentou.
Com informações de Isabelle Khurshudyan, Zachary Cohen e Kylie Atwood, da CNN Internacional



