'O Pagador de Promessas': clássico de Anselmo Duarte venceu Cannes e levou o Brasil ao Oscar pela 1ª vez; relembre a trajetória
O Pagador de Promessas: clássico de Anselmo Duarte venceu Cannes e levou o Brasil ao Oscar pela 1ª vez; relembre a trajetória
Palma de Ouro para o filme ‘O Pagador de Promessas’ completa 50 anos. Quando a disputa de Melhor Filme Internacional for anunciada no palco do Oscar, neste domingo (15), “O Agente Secreto” será a sexta produção na história a representar o Brasil na categoria. A presença do país na disputa, que já contou com “O Quatrilho” (1996), “O Que É Isso, Companheiro?” (1998), “Central do Brasil” (1999) e o vitorioso “Ainda Estou Aqui” (2025), começou há mais de seis décadas com “O Pagador de Promessas”.
Um caso à parte é o filme “Cidade de Deus”, que recebeu quatro indicações ao Oscar em 2004 (Direção, Roteiro Adaptado, Edição e Fotografia), mas não concorreu na categoria de Filme Internacional. Dirigido por Anselmo Duarte, de Salto (SP), “O Pagador de Promessas” concorreu ao prêmio em 1963, na categoria até então chamada de Melhor Filme Estrangeiro, sendo o primeiro filme brasileiro, e também da América do Sul, indicado ao prêmio.
A estatueta ficou com o francês “Sempre aos Domingos”, mas a indicação marcou definitivamente a entrada do cinema brasileiro no circuito internacional. “A indicação ocorreu em um momento particularmente rico. Havia diferentes tendências convivendo no cinema brasileiro. De um lado, um cinema mais clássico e narrativo, como o próprio filme de Anselmo Duarte; de outro, produções mais experimentais ligadas ao nascente Cinema Novo”, comenta o crítico de cinema e professor universitário de Bauru (SP) Álvaro Cruz.
Antes mesmo da indicação ao Oscar, o longa já havia conquistado reconhecimento internacional ao vencer a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1962, prêmio máximo do evento e, até hoje, único concedido a um filme brasileiro.
A repercussão foi imediata à época. A equipe voltou ao país recebida por multidões, e o impacto internacional do filme foi tão grande que, segundo relatos da época, o então presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, teria pedido uma sessão do longa na Casa Branca.
Baseado na peça do dramaturgo Dias Gomes, o filme acompanha Zé do Burro, vivido por Leonardo Villar, um agricultor simples que promete carregar uma cruz até Salvador, na Bahia, caso seu burro sobreviva após ser atingido por um raio.
Apesar do reconhecimento internacional, “O Pagador de Promessas” não foi unanimidade no Brasil. Na época, o movimento do Cinema Novo defendia um cinema mais político e experimental e viu o filme com desconfiança. O diretor Glauber Rocha, um dos principais nomes do movimento, esteve brevemente ligado à produção, mas depois se tornou crítico da obra, considerada por parte da nova geração como excessivamente clássica e próxima da estética tradicional.
Nascido em Salto, no interior de SP, em 1920, Anselmo Duarte começou no cinema ainda criança, trabalhando em salas de projeção. Antes de dirigir o filme indicado ao Oscar, Duarte era conhecido principalmente como ator e galã das produções da Companhia Cinematográfica Vera Cruz.
Mais de seis décadas depois, o cinema brasileiro volta ao centro das atenções internacionais com “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, também premiado em Cannes nas categorias de Melhor Diretor para o próprio Kleber e Melhor Ator para Wagner Moura.
Para Álvaro, há paralelos entre os dois momentos históricos. “O cinema brasileiro sempre foi um cinema que lutou muito para existir e continua lutando. Foi assim nos anos 60 e continua sendo agora”, pontua.
“Naquele período, havia reconhecimento artístico crescente, mas também instabilidade política e institucional. Pouco depois, viria a ditadura militar. Ainda assim, o Cinema Novo sobreviveria e produziria obras vigorosas, como ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ e ‘Terra em Transe’. Hoje, o cenário repete essa tensão entre reconhecimento e crise. O setor vive debates sobre políticas públicas, financiamento e a regulação dos serviços de streaming”, diz.
Ele aponta ainda que o clássico de 1962 deixa uma lição que continua atual para o cinema brasileiro. “Eu acho que o legado deixado, e que está em ‘O Agente Secreto’, é o diálogo com o público. É possível dialogar com o público mantendo identidade autoral. O público se apega à trama, à história, aos personagens, tem um envolvimento emocional. São filmes que dialogam com o público, mas, ao mesmo tempo, não abrem mão de uma certa experimentação. Filmes que conseguem esse equilíbrio ampliam naturalmente seu alcance”, conclui.



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