Portugal prende 37 em operação contra neonazistas que atacaram brasileiros
(FOLHAPRESS) A Unidade de Contraterrorismo da Polícia Judiciária de Portugal desencadeou, nesta terça-feira (20), uma das maiores operações já realizadas no país contra grupos neonazistas. Denominada de Operação Irmandade, a investida resultou na prisão de 37 pessoas até o momento. As investigações tiveram início no início de 2024 e devem continuar por mais alguns meses.
Todos os detidos são membros do grupo ultranacionalista 1143, número que faz referência ao ano de fundação de Portugal. O líder do grupo, Mário Machado, reconhecido como o neonazista mais proeminente do país, está detido em Lisboa desde maio de 2025 por incitação ao ódio e à violência contra mulheres de esquerda. Ele estaria ainda dirigindo o 1143 de dentro da prisão, o que poderá agravar sua pena de dois anos e dez meses.
“A comunicação e a transferência de informações continuam ocorrendo de dentro para fora”, afirmou Patrícia Silveira, diretora da Unidade de Contraterrorismo.
“As autoridades precisarão investigar se isso realmente acontece e, em caso afirmativo, como essas mensagens saíram da prisão, se foram, por exemplo, recados enviados durante visitas”, disse o advogado brasileiro Leonildo Camillo de Souza Júnior.
Residente de Guimarães, ele representa uma jornalista brasileira que foi ameaçada por Bruno Silva, outro membro do 1143, que está sob prisão preventiva desde outubro do ano passado. “Há um forte componente de gênero. As vítimas, geralmente, são mulheres”, destacou Luís Neves, diretor-geral da Polícia Judiciária.
Silva, brasileiro naturalizado português, ganhou notoriedade ao anunciar nas redes sociais que oferecia um apartamento em Lisboa para quem lhe entregasse as cabeças de cem brasileiros. Nas publicações, ele se autodefinia como “o português mais racista de Portugal”.
Em comunicado sobre a Operação Irmandade, a Polícia Judiciária declarou que os detidos “adotavam e propagavam a ideologia nazista, intrínseca à cultura nacional-socialista e à extrema direita radical e violenta, agindo por motivos racistas e xenófobos, com o intuito de intimidar, perseguir e coagir minorias e etnias, especialmente imigrantes”. Durante as prisões, foram apreendidas armas e material de propaganda.
A partir de quarta-feira (21), os detidos serão interrogados. “É possível que vários deles, como Bruno Silva, permaneçam em prisão preventiva”, afirmou Camillo Júnior. “Os depoimentos são essenciais para compreender o funcionamento desses grupos e identificar outros membros. Computadores e celulares apreendidos também têm grande importância.” A polícia está tentando investigar, entre outros pontos, conexões do 1143 com redes extremistas internacionais.
As investigações sobre neonazismo em Portugal se intensificaram após pressão da União Europeia. Um relatório divulgado em junho pela Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância registrou “um aumento significativo do discurso de ódio” no país, direcionado principalmente a migrantes, ciganos, pessoas negras e à comunidade LGBTQIA+. Conforme o documento, as denúncias judiciais por crimes de ódio aumentaram cinco vezes entre 2019 e 2024.
Nas redes sociais, Bruno Silva declara apoio ao partido Chega, cujo líder, André Ventura, é candidato à Presidência de Portugal. Em novembro do ano passado, o vice-presidente da sigla, Pedro Frazão, enviou um vídeo ao congresso do grupo Reconquista, que defende o mesmo ideário do 1143 e também tem membros presos por crimes de ódio.
No vídeo, Frazão defendeu a “remigração”, termo utilizado para a deportação forçada de imigrantes, mesmo os regularizados. “É a única política capaz de restaurar a ordem, a segurança e a esperança em nosso país”, disse o deputado.
O Chega mantém uma relação ambígua com grupos extremistas. Ventura já criticou Mário Machado. “Ele não possui o perfil adequado para o Chega. Tenho sido o freio para esse tipo de pessoas que fazem apologia da violência. Indivíduos que dizem que mulheres de esquerda devem ser violentadas nunca terão espaço no Chega”, afirmou em entrevista concedida há cinco anos ao semanário Sol.
Em janeiro de 2025, porém, o líder do partido fez uma menção velada ao grupo de Mário Machado ao apoiar a tese da remigração. Ventura publicou nas redes sociais uma foto vestido como piloto da TAP, ao lado de um cartão de embarque. “Este bilhete de embarque certifica sua participação no voo de retorno ao seu país de origem”, dizia a legenda. No cartão fictício, constava o número do voo: TP 1143.



