Protesto em Porto Alegre denuncia intervenção dos EUA e defende soberania latino-americana
Título: Manifestação em Porto Alegre denuncia intromissão dos Estados Unidos e defende a soberania latino-americana
A Praça da Matriz, localizada no Centro Histórico de Porto Alegre, foi palco de engajamento político e solidariedade internacional na tarde de quarta-feira (28). Promovido pelo Comitê de Apoio ao Povo Venezuelano, o evento reuniu partidos políticos, sindicatos, entidades estudantis e movimentos sociais em apoio à autonomia dos países latino-americanos e em repúdio ao que os organizadores caracterizam como uma investida imperialista liderada pelos Estados Unidos contra a Venezuela.
Após a concentração inicial, os manifestantes seguiram em marcha até o Palácio Piratini, onde se uniram a uma vigília contra o feminicídio que estava em andamento no local.
A escolha da data para a manifestação continental coincidiu com o aniversário de 12 anos da criação da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), um mecanismo de integração regional pautado na cooperação política e econômica sem a influência de potências estrangeiras. Para os organizadores, a comemoração da Celac ressalta a importância da união em meio a um cenário internacional instável, marcado por disputas geopolíticas e econômicas.
União latino-americana diante do avanço do imperialismo
A dirigente do Partido Comunista Revolucionário (PCR), Claudiane Lopes, enfatizou durante o evento que a mobilização tinha como objetivo denunciar o que considerou um ataque à soberania venezuelana. Segundo ela, o ocorrido foi um atentado terrorista que resultou no sequestro de um presidente democraticamente eleito, referindo-se ao episódio envolvendo o presidente Nicolás Maduro e a primeira-dama Cília Flores. Na visão da militante, essa ação representa uma grave violação do direito internacional, demandando uma resposta coordenada dos povos latino-americanos.
Rodrigo Callais, da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), também ressaltou a seriedade institucional do incidente. Para ele, o sequestro de um presidente eleito pelo voto popular é algo sem precedentes, alertando para possíveis repercussões em outros países da região caso não haja uma reação política e diplomática adequada. Callais sublinhou que a solidariedade internacional é uma ferramenta histórica da classe trabalhadora frente a agressões externas.
Jussara Cony, ex-deputada estadual pelo PCdoB e integrante do Comitê em Defesa da Venezuela, destacou a importância de uma ampla articulação entre organizações populares, partidos e sindicatos. Em sua fala, enfatizou que a unidade e a amplitude são fundamentais, sendo pilares da esperança e chave para a vitória, defendendo que a luta pela soberania venezuelana está intrinsecamente ligada à defesa da democracia e da autodeterminação dos povos latino-americanos.
Interesses econômicos e a disputa pelo petróleo
Além das questões políticas levantadas, os participantes do evento apontaram os interesses econômicos como motivação por trás da ofensiva contra a Venezuela. Edson Puchalski, dirigente do Partido Comunista do Brasil (PCB), afirmou que a disputa pelas maiores reservas de petróleo do mundo é central para compreender a conjuntura atual. Ele destacou que os interesses econômicos, especialmente em relação ao petróleo venezuelano, estão por trás dessas ações, avaliando que os Estados Unidos reagem ao avanço de um mundo multipolar por meio de medidas agressivas e instáveis.
Priscila Voight, da Unidade Popular pelo Socialismo, criticou o discurso oficial utilizado para justificar intervenções internacionais, apontando que a alegação de combate ao narcotráfico serve como cortina de fumaça para encobrir interesses econômicos. Voight ressaltou que a justificativa de matar e bombardear pessoas em nome do lucro revela uma lógica de guerra contínua, afetando principalmente a população civil e agravando crises humanitárias.
Riscos regionais e impactos no Brasil
A preocupação expressa durante o evento também abrangeu o território brasileiro. Claudiane Lopes alertou que as riquezas naturais do Brasil, como a Amazônia, as reservas de petróleo e as terras raras, colocam o país em uma posição vulnerável. Ela destacou que a ambição de Donald Trump em explorar as riquezas do povo brasileiro representa uma ameaça, devido à situação econômica delicada do país.
O diretor do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região e da Central Única dos Trabalhadores (CUT/RS), Tiago Pedroso, relacionou o imperialismo ao enfraquecimento de empresas estratégicas e à retirada de direitos trabalhistas no Brasil. Ele apontou que eventos ocorridos após 2016, como a diminuição do papel da Petrobras e de grandes construtoras nacionais, fazem parte de uma reorganização econômica que favorece interesses estrangeiros. Pedroso ressaltou que, quando o imperialismo ataca, são os negros, os pobres e os jovens que sofrem as consequências, evidenciando o impacto da precarização do trabalho e da economia de plataforma.
Guilherme Bourscheid, do Cpers Sindicato, salientou que a política externa dos Estados Unidos mantém uma postura agressiva independentemente do governo em exercício, apesar de reconhecer que figuras como Donald Trump intensificam esse comportamento. Ele argumentou que líderes envolvidos em intervenções militares deveriam ser responsabilizados por crimes de guerra em instâncias internacionais.
Da cooperação internacional à luta contra o feminicídio
A marcha até o Palácio Piratini conectou a agenda internacional com questões locais. No local, os manifestantes se uniram à vigília contra o feminicídio, denunciando a violência sistemática contra mulheres no Rio Grande do Sul. Maristela Maffei, vice-presidente do Partido dos Trabalhadores em Porto Alegre, destacou que a busca pela paz entre os povos está intrinsecamente ligada à luta contra as injustiças do dia a dia. Segundo ela, a defesa da paz significa resistir a todas as formas de injustiça, relacionando a violência de gênero às estruturas de exploração e desigualdade.
Fabiano Negreiros, do Fórum Social das Periferias, ressaltou a importância de levar o debate político às comunidades onde a classe trabalhadora reside. Ele enfatizou que a organização popular nas periferias é essencial para enfrentar tanto a violência social quanto a exploração econômica. Negreiros defendeu a necessidade de levar a discussão para os territórios onde as pessoas vivem, destacando a importância das cozinhas comunitárias, associações locais e espaços de resistência cotidiana como locais-chave para a disseminação de ideias e a mobilização.
O evento foi encerrado com a defesa da criação de uma coalizão duradoura entre movimentos populares, sindicatos e partidos políticos, capaz de enfrentar a ofensiva imperialista global e, ao mesmo tempo, fortalecer as lutas locais por direitos, justiça social e dignidade.



