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São Paulo, a antiga cidade nova. São Paulo de todos os tempos.

São Paulo, a antiga cidade nova. São Paulo de todos os tempos.

São Paulo, a antiga cidade nova. São Paulo de todos os tempos.

 

                “Onde estão teus sobrados, de longos telhados, os teus lampiões? E os jovens da academia – na noite tão fria cantando canções? E sinhazinha delgada, pisando a calçada na tarde vazia?” – os versos que iniciam o samba-canção “Perfil de São Paulo”, escrito por Bezerra de Menezes e lançado no ano do IV Centenário (1954) mostram que, desde há muito, nossa cidade vive mudanças constantes, e são justamente essas mudanças a força identitária e poética do seu povo trabalhador.

                A pequena vila jesuíta, fundada pelos padres José de Anchieta e Manoel da Nóbrega, que já abrigava a primeira faculdade de Direito do Brasil, foi catapultada à capital mais importante do país quando o “ouro verde”, nosso café, tornou-se o principal produto de exportação brasileiro. Corria a segunda metade do século 19 e, com a substituição gradual da mão-de-obra escrava, o estado paulista recebeu diversos imigrantes; muitos em direção ao interior, para as lavouras cafeeiras, outros tantos estabelecidos aqui, como meu avô que veio da Itália, Umberto D’Urso. Vimo-nos cosmopolitas sem nem saber o que era isso: italianos, espanhóis, portugueses; anos depois, japoneses e outros tantos. Enquanto o Rio de Janeiro vivia em ecos do império, as veias de Piratininga pulsavam rápido. O Barão de Mauá, trouxe a ferrovia para escoar nosso café ao porto; o baronato, enriquecido, trouxe as primeiras indústrias para os bairros do Brás, do Ipiranga, do Bom Retiro e Barra Funda, aproveitando-se do leito férreo.

                A “Exposição de Pintura Moderna”, primeira individual de Anita Malfatti após retornar da Europa, em fins de 1917, causou o abalo inicial do que, cinco anos depois, em fevereiro de 1922, seria a importante “Semana de Arte Moderna”, realizada no Teatro Municipal. O paulistano Mario de Andrade, junto a Oswald, Bandeira, Tarsila do Amaral, a própria Anita, fizeram de São Paulo o motor da maior revolução artística brasileira. Três anos depois da Semana, em março de 1925, nascia aqui Inezita Barroso, a maior conhecedora do folclore brasileiro de que já se teve notícia, divulgadora das raízes da nossa terra – a rainha da música caipira, que nunca escondeu o orgulho de ser paulistana – foi ela quem lançou o samba-canção que abre este artigo. Inezita nos deixou aos 90 anos e fez questão de ter, sobre seu caixão, o brasão da cidade onde sempre viveu e que tanto amou.

                A Revolução Constitucionalista de 1932 derramou o sangue heroico da história no nosso chão, provando que São Paulo também não negava forças à luta por ideais. Falando em revolução, a segunda grande inovação artística do século XX também nasceu aqui: no meio de dois garotos e uma menina da Vila Mariana com suas guitarras e acordes dissonantes: Arnaldo Baptista, Sérgio Dias e Rita Lee formaram os Mutantes. Estava fundada a Tropicália. Rita Lee mostrou que a mulher também podia fazer rock, detonou preconceitos com sua atitude sempre irreverente e provocadora.

                O maior esportista brasileiro também é paulistano. A 21 de março de 1960, nascido Ayrton Senna da Silva, ergueu alto a nossa bandeira e encheu-nos de orgulho em momentos nos quais o país passava pela difícil política dos planos Sarney e Collor. Acordar aos domingos para ver Senna, sua garra e seu obstinado talento era respirar um ar de esperança, a crença de que, mesmo distante, havia uma luz, um herói. Além de ser o nome mais talentoso da Fórmula 1, reverenciado até hoje por outros pilotos e por chefes de equipe, mesmo quase 32 anos após sua trágica partida, Ayrton foi um humanitário por excelência, sempre preocupado com os mais necessitados e, sobretudo, com as crianças.

A cidade que nunca dorme, cidade que acolhe a todos, a mais fervilhante cultura, a melhor gastronomia. Só nós temos a Avenida Paulista, importante polo financeiro. Só nós temos museus como o MASP. São Paulo de paulistanos natos e de paulistanos pelo coração. De Adoniran Barbosa, o cronista do samba. Foi de Maria Esther Bueno, a bailarina das quadras de tênis. Foi de Ada Rogato, a primeira paraquedista brasileira. É de Marias, Josés e Franciscos. É do anônimo, de quem pega cedo no batente e vai deitar-se sem olhar as estrelas – mas tem as estrelas nos olhos e a esperança dos recomeços. Por isso, o aniversário desta terra é, simbolicamente no dia 25 de janeiro; porém, na realidade, ela renasce a cada amanhecer.

Parabéns, São Paulo!

* Clarice Maria de Jesus D’Urso – Secretária da Diretoria do Conselho Estadual da Condição Feminina.

* Umberto Luiz Borges D’Urso – Vice-presidente do conselho da ACRIMESP