Útil, mas também impreciso: ChatGPT Health divide opinião de médicos e especialistas
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A OpenAI lançou no início de janeiro o ChatGPT Health, que possibilita aos usuários esclarecerem dúvidas específicas sobre saúde. Entre médicos e especialistas em inteligência artificial consultados pela reportagem, no entanto, existem divergências sobre os efeitos do uso dessa ferramenta.
Alguns veem a novidade com otimismo. Outros expressam preocupação com a possibilidade de respostas imprecisas do chatbot, levantando questões sobre a qualidade das informações e a responsabilização em casos de falhas.
Conforme a OpenAI, o ChatGPT Health tem caráter informativo e educativo, não sendo destinado a diagnósticos ou tratamentos médicos, nem para substituir a assistência profissional de saúde. A empresa afirma em comunicado: “A ferramenta pode auxiliar as pessoas a organizar questionamentos, interpretar dados e se sentir mais preparadas para diálogos com profissionais da saúde”.
O CFM (Conselho Federal de Medicina) também se pronunciou, destacando que o ChatGPT Health pode servir como recurso adicional para orientar pacientes, porém “nunca deve substituir a avaliação clínica, o julgamento médico ou a responsabilidade profissional”.
O médico André Costa, especialista em clínica médica e diretor de operações da Rede Mater Dei de Saúde, alerta sobre os riscos de substituir uma consulta profissional por uma análise realizada por IA. Ele ressalta a importância da interação clínica para confirmar ou descartar diagnósticos.
Lara Salvador, diretora de inovação e experiência na mesma rede, aponta que o uso da ferramenta pode levar a interpretações equivocadas de sintomas e exames, além de ressaltar os perigos de confiar excessivamente em respostas automatizadas.
“A IA não possui acesso ao histórico clínico completo, não realiza exames físicos nem acompanha a evolução do quadro, elementos cruciais para decisões clínicas”, destaca.
Gustavo Zaniboni, fundador da empresa de consultoria em inteligência artificial Redcore, questiona a responsabilidade em casos de erros, levantando questões sobre o impacto das falhas geradas por IA.
Em comunicado, a OpenAI informa que treinou o ChatGPT Health com a colaboração de mais de 260 médicos de 60 países, incluindo profissionais brasileiros, que forneceram feedback sobre o modelo em mais de 600 mil ocasiões em 30 áreas específicas.
A ferramenta foi desenvolvida em estreita cooperação com médicos, segundo a empresa, ao contrário da versão aberta que utiliza dados das interações para treinar o sistema.
Emir Vilalba, responsável pelo setor de saúde da Semantix, empresa de tecnologia focada em IA, destaca a importância de garantir a qualidade das informações obtidas, salientando a necessidade de cautela ao utilizar o ChatGPT Health.
Nuria López, professora de direito digital da Universidade Presbiteriana Mackenzie e cofundadora da Technoethics, alerta que qualquer ferramenta, por não possuir o contexto completo do paciente ou a experiência humana, está sujeita a erros e imprecisões. Ela reforça que é fundamental compreender que a ferramenta é apenas um recurso.
A OpenAI afirma que o ChatGPT Health está sendo disponibilizado inicialmente para um grupo restrito de usuários, com planos de expansão gradual do acesso, sem priorização de um grupo específico.
Quanto à integração com prontuários eletrônicos, essa funcionalidade está disponível apenas nos Estados Unidos, sem previsão de chegada ao Brasil. No país, a utilização da nova ferramenta requer consentimento explícito do usuário para o tratamento de informações de saúde, em conformidade com a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados).
Contudo, a questão da guarda de informações de cidadãos brasileiros por empresas estrangeiras levanta debates sobre soberania e segurança de dados, principalmente diante da Cloud Act dos Estados Unidos, que permite o acesso a dados armazenados por empresas de tecnologia, mesmo fora do território americano.
No Brasil, o governo tem buscado garantir que os dados dos brasileiros estejam sob jurisdição nacional, com investimentos em tecnologia para construir uma nuvem soberana, como previsto no PBIA (Plano Brasileiro de Inteligência Artificial).
Em relação aos benefícios da ferramenta, os especialistas destacam que o ChatGPT Health pode ser útil para pessoas com dificuldade de acesso a profissionais de saúde.
Para López, a ferramenta deve oferecer resultados mais confiáveis do que pesquisas aleatórias na internet ou outras ferramentas gratuitas, proporcionando informações relevantes e protegendo os dados do usuário. Zaniboni acrescenta que indivíduos sem suporte médico adequado podem obter informações úteis para situações de emergência ou problemas simples.
De acordo com a OpenAI, mais de 230 milhões de pessoas em todo o mundo buscam informações sobre saúde e bem-estar no ChatGPT todas as semanas. Para Zaniboni, essas inovações são uma tendência irreversível, comparável à eletricidade em sua onipresença.
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