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Perna Cabeluda, Oscar, ditadura e a origem da lenda

Perna Cabeluda, Oscar, ditadura e a origem da lenda

Perna Cabeluda, Oscar, ditadura e a origem da lenda

Enquanto a cerimônia do Oscar deste domingo (15) em Hollywood premia os destaques do cinema com estatuetas douradas – incluindo o filme brasileiro “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, indicado nas categorias de Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Direção de Elenco e Melhor Ator pela atuação de Wagner Moura – um lendário fantasma recifense atravessa discretamente o tapete vermelho. A Perna Cabeluda ressurge na obra como se nunca tivesse saído de cena, não mais correndo pelas praças nos anos 1970, mas sugerida na atmosfera de desconfiança que o filme recria e leva ao mundo do cinema.

Cinquenta anos após surgir em um plantão policial e virar manchete em tempos de censura, a lenda que já ocupou páginas proibidas e, mais recentemente, desfilou em fantasias de Carnaval, encontra seu espaço nas telonas. A Perna jamais precisou de um corpo inteiro para sobreviver. Apenas precisou de um hospital e uma cidade disposta a completar sua imagem.

Por que isso é relevante?

  • Um recurso lúdico do filme “O Agente Secreto”, a Perna Cabeluda carrega simbologia de uma época ditatorial em que ousar revelar a verdade, seja nas ruas ou na mídia, poderia representar risco à vida e evidencia como o humor e o fantástico se tornam refúgios culturais de resistência.

Em 1975, na rampa do Hospital da Restauração, no Recife, repórteres aguardavam por novas pautas no plantão da madrugada. Sem assessoria de imprensa ou ar-condicionado, tinham apenas café requentado e a expectativa de alguma história surgir antes do amanhecer. Entre eles, Jota Ferreira, repórter da Rádio Repórter, acostumado a circular entre hospitais e delegacias em busca de notícias.

Jota relatou à Agência Pública que estava em um plantão comum até que um comissário do hospital, conhecido como Cobrinha, o chamou e informou sobre uma mulher gravemente ferida na triagem. Ela fora espancada durante a madrugada em uma área do Recife conhecida por abrigar bordéis à época. Com o rosto inchado e dentadura quebrada, mal conseguia articular palavras. Ao ser questionada pela polícia sobre quem a agredira, ela não soube identificar, apenas repetiu que fora atacada por “uma perna cabeluda”. Não explicou se era um apelido ou descrição do agressor.

De volta à redação, o termo foi mencionado ao vivo por Geraldo Freire, apresentador da Rádio naquela época, que abordou o caso em seu programa matinal, com grande audiência no Recife. A história se espalhou e, a partir de então, a expressão “perna cabeluda” passou a ser frequentemente repetida sempre que alguém não conseguia identificar o responsável por algum problema. Um barulho no telhado, um quintal revirado, uma porta arrombada, uma agressão sem autor conhecido, tudo poderia ser atribuído à perna.

Jota recorda que a expressão passou a circular nos corredores do hospital e nas delegacias. “Havia pessoas que chegavam com problemas de saúde ou relatando agressões, e quando eu, no plantão, perguntava quem fora, a resposta era sempre: ‘foi a perna cabeluda’. Mas quem seria essa perna cabeluda? Ninguém sabia explicar”, relembra.

O assunto se tornou tema diário no rádio, às vezes tratado com humor e outras com preocupação. Participantes entravam ao vivo para debater, faziam piadas, discutiam entre si, enquanto parte da audiência se divertia e outra parte levava a história a sério. “Isso acabou gerando medo e pavor em algumas pessoas”, relata o jornalista.

A lenda e o contexto da ditadura

Jota Ferreira afirma que a história da Perna Cabeluda se propagou por ser fácil de lembrar e difícil de verificar. Não havia uma descrição clara do suspeito, nem registro formal de alguém com aquele apelido. Quando perceberam, Jota e Geraldo já estavam sendo chamados pela Polícia Federal para explicar a origem da história, em plena época de repressão militar durante a ditadura.

O regime militar só terminou 10 anos após o surgimento da lenda, em 1985. No Recife, cidade marcada por forte repressão política e históricos movimentos de resistência social, a vigilância era intensa e a censura era uma realidade nas redações. Reportagens de diversas editorias poderiam ser barradas horas antes da publicação e trechos eram suprimidos sem explicação.

Mesmo assim, a história da Perna Cabeluda chegou às páginas impressas e ganhou outra dimensão. O Diario de Pernambuco desempenhou um papel central na consolidação da narrativa. Em dezembro de 1975, publicou chamadas indicando locais de aparição, sendo a primeira em Tiúma, bairro de São Lourenço da Mata, em Pernambuco. A cada nova edição, a Perna mudava de local como se seguisse um mapa invisível. As agressões sem autoria conhecida passaram a ser interpretadas como um símbolo, em um momento em que as autoridades raramente eram questionadas ou responsabilizadas por seus atos. Parte da população acreditava que as ações estavam relacionadas a agentes do Estado.

A professora de comunicação da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Minas Gerais, Fernanda Sanglard, observa que o sensacionalismo usado nesses contextos não se restringe a regimes autoritários. Modelos como a penny press e o chamado yellow journalism já exploravam dramaticidade e apelo popular no século 19. O que muda em contextos de censura é a função adicional que essas narrativas podem assumir.

“Todos os jornais, de alguma forma, enfrentaram a censura prévia, porque era um Estado autoritário que adotava a censura como prática sistemática de controle das informações”, destaca. Nesse cenário, escolhas editoriais específicas podem ter adquirido outra conotação: “O que pode ser considerado sensacionalista por alguns foi, por vezes, uma estratégia jornalística para responder àquele momento, diante das limitações impostas.”

Dessa forma, a lenda começou a ganhar camadas simbólicas. A criatura que pulava muros podia ser interpretada como uma metáfora involuntária da presença militar que adentrava portas sem aviso prévio. A agressividade atribuída à Perna fazia lembrar as práticas reais de repressão. A ausência de um corpo completo, apenas um fragmento, evocava a dificuldade de identificar os responsáveis em um sistema em que as ordens vinham de cima e os executores permaneciam anônimos.

Sem declarar explicitamente, a narrativa permitia que o leitor atribuísse significados. O jornal não mencionava tortura, mas relatava atos de violência noturna. Não denunciava operações, mas descrevia invasões.

O sensacionalismo e a subversão lado a lado

No Recife dos anos 1970, a Perna Cabeluda possibilitava manchetes cativantes e explicava os medos da época. É nesse ponto que a análise do professor de comunicação da Universidade de Brasília (UnB), Paulo José, contribui para a compreensão do mecanismo. “Sensacionalismo é fundamentalmente o exagero, em que um fato, real ou não, é relatado de forma exagerada pelo jornalista com o intuito de chamar a atenção”, destaca. “Ao chamar a atenção, aumenta-se a venda, seja em jornais ou revistas, ou a audiência, se em rádio ou televisão. Assim, o sensacionalismo se baseia no exagero para aumentar a visibilidade”.

Ele ressalta que a relação entre a cobertura policial e o sensacionalismo é intrínseca: “A conexão entre o jornalismo sensacionalista e a cobertura policial está na essência do sensacionalismo. Porque essas narrativas são facilmente absorvidas pelo público. No jornalismo policial, que impacta rapidamente as emoções do público devido à natureza dramática do sangue e ao envolvimento de inocentes, o sensacionalismo se aproveita disso”.

Para o professor, essa lógica persiste nos dias atuais, adaptada às métricas digitais. “Hoje, não se fala apenas em tiragem ou audiência tradicional. Agora, são as visualizações, os likes e compartilhamentos. Porém, o elemento central permanece o mesmo.”

Segundo o historiador da UnB Elias Moura, a construção simbólica desse tipo não surge por acaso em contextos repressivos. “Regimes autoritários não criam apenas leis de exceção e atos institucionais; também criam atmosferas”, destaca. “Quando as pessoas sabem que algo pode acontecer a qualquer momento, mas não conseguem identificar claramente os responsáveis, a imaginação coletiva tende a condensar essas experiências em imagens. A Perna Cabeluda é um exemplo interessante disso: não é um personagem completo, é um fragmento. E, justamente por ser fragmento, permitia que cada indivíduo projetasse seus temores ali”.

Quase cinquenta anos depois, ao inserir a referência em “O Agente Secreto”, Kleber Mendonça Filho não resgata apenas uma lenda urbana. A Perna Cabeluda ressurge, contribuindo para a atmosfera de desconfiança e vigilância que permeia a narrativa situada nos anos 1970. Embora não seja a protagonista, ela ajuda a reforçar o estado de tensão constante presente no filme. Moura observa que: “Se nos jornais a Perna ocupava espaços deixados pela censura, no cinema ela ocupa o espaço da memória”.

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