Carne bovina brasileira atinge maior preço de exportação desde 2022
O valor médio de exportação da carne bovina brasileira atingiu US$ 5,78 por quilograma nos primeiros 15 dias úteis de março de 2026, o preço mais elevado desde outubro de 2022, de acordo com informações da Secretaria de Comércio Exterior.
Esse resultado representa um aumento de 18% em relação aos US$ 4,90/kg registrados no mesmo período de 2025, consolidando um período de alta que já havia gerado o melhor fevereiro da série histórica: receita de US$ 1,44 bilhão, um aumento de 38,2% em comparação com fevereiro de 2025, com o embarque de 267.319 toneladas.
O cenário que impulsiona esses preços está relacionado ao mercado americano. Em fevereiro de 2026, o varejo de carne bovina nos Estados Unidos atingiu US$ 9,64 por libra, estabelecendo um novo recorde histórico e se aproximando da marca de US$ 10/lb, conforme o Livestock Marketing Information Center (LMIC).
No ano de 2025, a demanda por carne bovina fresca nos EUA alcançou 138, um aumento de 10 pontos em relação a 2024 e o maior crescimento em 25 anos. Com o rebanho americano ainda em processo de recuperação após anos de redução, os importadores buscaram suprir a lacuna de oferta no mercado externo, e o Brasil ocupou uma posição estratégica.
A cota tarifária americana para a carne bovina brasileira, que garante isenção de impostos, foi preenchida em apenas seis dias no início de 2026. Essa velocidade superou todos os registros anteriores: em 2025, o limite foi atingido em 17 de janeiro; em 2024, em março; e em 2023, somente em maio.
O fato torna-se ainda mais significativo pelo fato de que a cota foi reduzida pelo governo americano antes do início do ano. O presidente Donald Trump realocou 13.000 toneladas da cota originalmente designada ao grupo ‘Outros Países’ para o Reino Unido, como parte de um acordo bilateral que garante acesso recíproco da carne americana ao mercado britânico. Assim, o Brasil viu sua cota reduzida de 65.000 toneladas para 52.000 e esgotou o volume reduzido em menos de uma semana.
Com o encerramento da cota, toda a carne bovina brasileira exportada para os EUA durante o restante de 2026 passa a ser tarifada em 26,4%. O custo adicional não impediu os embarques, mas levou a indústria a adotar uma abordagem mais seletiva, concentrando-se nos cortes de maior valor agregado, nos quais a tarifa ainda possibilita margem de lucro para o exportador e preços competitivos para os importadores americanos.
Recorde de exportações no bimestre
No acumulado do primeiro bimestre de 2026, as exportações brasileiras de carne bovina totalizaram 531.298 toneladas e US$ 2,84 bilhões em receita, o que representa um crescimento de 23,8% em volume e 39,2% em valor em relação ao mesmo período de 2025, conforme dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC). Janeiro também registrou um marco, com US$ 1,404 bilhão provenientes do embarque de 264.000 toneladas, o melhor desempenho do mês na série histórica. Em fevereiro, a China manteve-se como o principal destino, com 106.702 toneladas, seguida pelos Estados Unidos, com 39.440 toneladas, já dentro da faixa tributada após o esgotamento da cota.
A ABIEC está em processo de negociação para ampliar o acesso a novos mercados. Japão, Coreia do Sul e Turquia estão entre os destinos prioritários para 2026. A associação tem indicado que o foco do setor neste ano é melhorar a qualidade da lista de produtos exportados, aumentando a presença de cortes especiais e de maior valor por quilo embarcado, em vez de buscar apenas um crescimento em volume. Essa estratégia está alinhada com os resultados do bimestre, nos quais a receita cresceu proporcionalmente mais do que o volume.
O principal risco para a continuidade desse cenário positivo é a recuperação da oferta global. A Austrália e a Argentina, que enfrentaram rebanhos reduzidos nos últimos ciclos devido a secas e questões sanitárias, estão em processo de reconstrução. Caso a oferta desses países aumente significativamente no segundo semestre, a pressão sobre os preços internacionais poderá reverter parte dos recentes ganhos. Por enquanto, o mercado ainda não reflete esse movimento, mas o setor está atento aos indicadores de abate e estoque nesses dois países.



