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Spike, o cacto, o primeiro de seu nome

Spike, o cacto, o primeiro de seu nome

Spike, o cacto, o primeiro de seu nome

Uma das lembranças mais marcantes que tenho da minha avó não é uma imagem, mas sim um ritual. Recordo-me dela caminhando lentamente pelo quintal, iluminada pelos raios que atravessavam as frestas do portão enferrujado, cantarolando e conversando com as plantas como se estivesse atualizando uma amiga íntima. O espaço não era grande, mas aos olhos de uma criança como eu, parecia uma floresta particular.

Sempre que precisava mover um galho ou colher uma flor, ela gentilmente pedia: “Licença, minhas queridas”. Esse pedido se repetia nos dias de poda, quando a tesoura e o inseticida entravam em ação. Nada ali era feito sem aviso, nem sem carinho. Crescer naquela casa despertou em mim um lado místico. Entre contos, superstições e veneração aos santos, aprendi desde cedo uma verdade: as plantas têm sensibilidade.

Os anos se passaram. Minha avó já não percorre mais o quintal, mas o costume de ter plantas ao redor floresceu em mim, talvez como uma forma de mantê-la presente. Hoje, imagino um apartamento repleto de vegetação, porém, na realidade, me adapto ao que é viável: espadas-de-são-jorge, cactos, jiboias. Plantas resilientes, que talvez estejam preparadas para lidar com o temperamento do seu cuidador.

Por um tempo, tudo prosperou. Até que percebi algo: minhas plantas pareciam refletir meu estado de espírito. A confirmação veio com a morte do meu cacto mais antigo: Spike, o primeiro de seu nome, que não resistiu após um período de ansiedade. Antes dele, outras suculentas também se foram, apesar de todos os cuidados descritos nos manuais. Faltava algo que nenhum manual ensina: equilíbrio. Elas sobreviveram a possíveis afogamentos, mas não resistiram às minhas fases de desordem interna.

Percebi que, nos dias felizes, as folhas pareciam mais viçosas. Não que as plantas exijam felicidade constante — muitas vezes, foram elas que me motivaram a levantar da cama em dias sombrios. Contudo, notei que as perdas ocorriam quando eu me encontrava perdido em meus próprios pensamentos. O aviso vinha de forma trágica, quase teatral, quase shakespeariana. Nunca fui um grande fã de Shakespeare, mas minhas plantas parecem apreciar uma boa tragédia. Talvez devesse apresentá-las a Homero, para diversificar o repertório.

Cuidar de plantas é um exercício de autocuidado disfarçado. A vida adulta se assemelha a ter raízes na terra: receber nutrientes não é suficiente. É necessário movimento, tempo e, acima de tudo, luz. Girassóis compreendem isso. Nós, por vezes, esquecemos.

Assumo a responsabilidade pelas partidas de muitas plantas que, como Spike, tentaram me lembrar de que a vida necessita de equilíbrio. Que viver requer clareza, mesmo para aqueles que preferem a sombra. Pequenas vitórias — uma conversa significativa, um banho relaxante, o silêncio — funcionam como adubo. É assim que nos regeneramos.

Não há uma conclusão definitiva, pois crônicas raramente têm um desfecho. Elas deixam sementes. Talvez minha avó já soubesse, quando pedia licença às plantas, que aquele gesto não se tratava apenas de folhas. Desde o início, era uma forma de pedir licença para cuidar de si mesmo — e dos outros.

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