a raiz silenciosa do feminicídio
Só não vê quem não quer, seja por ignorância, seja por interesse em manter uma estrutura que ainda trata a mulher como um objeto à disposição do homem.
O assassinato de Dayse Barbosa Mattos, comandante da Guarda Municipal de Vitória, morta pelo próprio companheiro, um policial rodoviário federal, escancara uma verdade incômoda: o feminicídio não nasce da violência em si, mas de um sentimento de posse.
E esse sentimento costuma se disfarçar.
Muitas vezes, ele se apresenta como cuidado. Mas há uma diferença essencial e perigosa entre cuidar e controlar. Cuidar é respeitar a autonomia do outro. Controlar é anulá-la. Quando o controle passa a ser confundido com afeto, abre-se o caminho para a violência.
Nenhum crime dessa natureza começa no momento da agressão física. Antes, existe o discurso. Existe a desumanização. Existe a construção cotidiana da ideia de que mulheres valem menos, devem obedecer mais ou precisam ser vigiadas.
O assassinato é apenas o estágio final de uma cultura que naturaliza o ódio contra mulheres. É o último ato de uma violência que começa muito antes, muitas vezes dentro de casa.
Porque a primeira mulher com quem um homem se relaciona é sua mãe. É nessa relação inicial que se aprende, ou não, o significado de respeito, limite e reconhecimento do outro como indivíduo.
Quando essa base é distorcida, seja pela ausência, pela violência ou pela reprodução de padrões de submissão, cria-se um terreno fértil para relações futuras marcadas por dominação, insegurança e necessidade de controle.
E hoje, esse processo começa cada vez mais cedo e ganha escala.
De acordo com pesquisas do NetLab da UFRJ, entre 2018 e 2024, conteúdos misóginos nas redes sociais acumularam cerca de 4 bilhões de visualizações no YouTube brasileiro. Pela primeira vez, há proporcionalmente mais adolescentes aderindo a discursos misóginos do que homens adultos.
Jovens estão sendo cooptados por comunidades digitais que transformam frustração, insegurança e solidão em ressentimento contra mulheres.
Já não se trata apenas do machismo tradicional. A misoginia é o ódio ativo e organizado. É a crença na supremacia masculina transformada em identidade coletiva, onde a violência deixa de ser exceção e passa a ser linguagem.
Nesse contexto, ganha relevância a aprovação, pelo Senado Federal, do projeto que criminaliza a misoginia, incorporando-a à Lei do Racismo. A proposta reconhece que o ódio às mulheres é estrutural e que a violência de gênero começa nas palavras, nas ameaças e na perseguição.
Combater o feminicídio exige enfrentar o ambiente cultural que o alimenta.
Exige distinguir, com clareza, cuidado de controle. Exige rever as primeiras referências, os primeiros vínculos, os primeiros aprendizados.
Porque toda sociedade que confunde amor com posse e tolera o ódio inevitavelmente contará suas vítimas.



