O ocaso de uma hegemonia – Meio
Título: O declínio de uma hegemonia – Meio
“Eu te avisei, você é um garoto comum. E vai começar a se comportar como tal. Não há nada de extraordinário em você”, diz uma irritada Tia Petúnia no teaser da nova série de Harry Potter. O rosto marcado pela cicatriz do protagonista de uma das sagas mais bem-sucedidas da cultura pop não pertence mais a Daniel Radcliffe, mas sim ao promissor Dominic McLaughlin. De forma natural, o trailer da nova produção acumulou 277 milhões de visualizações nas primeiras 48 horas, tornando-se o mais assistido na história da HBO, que abriga franquias de grande renome, como Game Of Thrones. Em pouco tempo, as cenas de Harry Potter já ultrapassaram em mais que o dobro o recorde anterior da plataforma.
Um documentário sobre a produção da série foi lançado no domingo de Páscoa e, embora os números de audiência não sejam públicos, o material permaneceu entre os 10 filmes mais assistidos da HBO Max desde então. Até mesmo os filmes originais da saga passaram a figurar na lista, aproveitando a onda de interesse. O primeiro dos oito episódios desta temporada — baseado no livro Harry Potter e a Pedra Filosofal — será lançado em 25 de dezembro deste ano, com um novo episódio a cada domingo.
Autora versus obra
Essa é a parte que a HBO está celebrando, mas há outro aspecto mais controverso. O posicionamento ideológico da autora JK Rowling voltou a ser alvo de debate nas redes sociais. Desde 2020, a escritora é associada à transfobia devido a postagens em suas redes sociais. Além de opiniões polêmicas, Rowling financiou e até fundou grupos que defendem a ideia de que o gênero é determinado apenas pelo sexo. Portanto, nem todos os criadores de conteúdo ou jornalistas de entretenimento estão dispostos a cobrir a série, e alguns sugerem abertamente o boicote à produção, na qual ela atua como supervisora de roteiro e produtora executiva.
É possível separar a autora da obra quando a autora (neste caso, autora) está viva e usa parte de seus ganhos para promover agendas anti-trans? Existe um consumo ético ou tudo não passa de hipocrisia por parte daqueles que se incomodam com Rowling? A obra de Harry Potter ainda pode ser considerada progressista em seus valores, por destacar a diversidade, ou existem problemas antes não percebidos?
A raiz da questão
Rowling costumava ser vista como uma autora com ideias progressistas, apoiadora e doadora do Partido Trabalhista e defensora da permanência do Reino Unido na União Europeia, uma bandeira da direita britânica. Devido a experiências de violência doméstica em seu primeiro casamento, sempre apoiou causas feministas.
Os livros da saga Harry Potter, por trás de todo o encanto e ficção, transmitem uma mensagem de inclusão e respeito às diferenças. O principal vilão, Lorde Voldemort, apresentava diversas semelhanças com Adolf Hitler, incluindo a defesa da ideologia de “sangue puro” dos bruxos (mesmo sendo ele próprio um “mestiço”), o autoritarismo e o fato de seus seguidores se identificarem por meio de um símbolo — a Marca Negra. Um estudo realizado por pesquisadores da Itália e do Reino Unido intitulado The Greatest Magic of Harry Potter: Reducing Prejudice aponta que “a exposição prolongada à leitura dos populares livros de Harry Potter melhora as atitudes em relação a grupos estigmatizados (imigrantes, homossexuais, refugiados)”.
No entanto, após as controvérsias sobre questões de gênero, críticos passaram a apontar um suposto antissemitismo — devido à semelhança dos duendes do filme com caricaturas feitas sobre judeus em relação à aparência e comportamento —, a representação caricata de algumas minorias e até o apoio à escravidão. No entanto, essa é uma interpretação enviesada, pois a escravidão dos elfos domésticos é combatida pelos protagonistas e retratada como vergonhosa no mundo bruxo.
Mas, em 2019, principalmente por meio de sua conta no X, a escritora começou a se posicionar sobre questões de gênero. Rowling expressou apoio público a Maya Forstater, que perdeu o emprego após publicar tweets considerados transfóbicos. No ano seguinte, a autora criticou o uso da expressão “pessoas que menstruam”, reafirmando que o termo correto seria “mulheres”. Diante da grande repercussão, Rowling usou seu site para redigir um ensaio explicando e defendendo seus posicionamentos.
“Estamos vivendo o período mais misógino que já experienciei. (…) Nunca vi mulheres serem desumanizadas a esse ponto”, afirma. “A linguagem ‘inclusiva’ que chama mulheres de ‘menstruadoras’ e ‘pessoas com vulva’ soa desumanizante e degradante para muitas mulheres.” Ela acrescenta: “Quero que as mulheres trans estejam seguras. Ao mesmo tempo, não quero que as meninas e mulheres cisgênero estejam menos seguras. Quando você abre as portas de banheiros e vestiários para qualquer homem que acredite ou sinta que é uma mulher, então você abre a porta para todos os homens que desejarem entrar”, argumenta.
Reação contrária
Se a intenção era suavizar as críticas, o efeito foi o oposto: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint e Eddie Redmayne, protagonistas dos filmes do universo de Harry Potter, emitiram comunicados e declarações em apoio à comunidade transgênero.
Desde então, Rowling intensificou suas posições. Dois livros de sua série de romance policial, que narra casos resolvidos pelo detetive Cormoran Strike, chamaram a atenção nesse aspecto. Ainda em 2020, ela lançou Troubled Blood, que apresenta um assassino que se veste de mulher para atacar suas vítimas. Dois anos depois, a sequência das histórias trouxe Coração de Nanquim, no qual uma cartunista do YouTube é acusada de ser racista, capacitista e, surpreendentemente, transfóbica. A personagem é morta à facadas.
Além disso, a autora compartilhou no X uma notícia falsa durante as Olimpíadas de Paris, alegando que a boxeadora argelina Imane Khelif, medalhista de ouro, era na verdade uma mulher trans. Recentemente, Rowling reiterou a informação falsa, para comemorar a decisão do Comitê Olímpico Internacional (COI) de proibir a participação de mulheres trans em competições femininas oficiais a partir dos Jogos Olímpicos de 2028, em Los Angeles.
Neste mesmo ano, outro post gerou controvérsia, quando a autora foi vista fumando charuto, bebendo uísque em um iate. “Adoro quando um plano dá certo”, postou ela no dia em que a Suprema Corte britânica determinou que o conceito de mulher é definido pelo sexo biológico. E não parou por aí. Ela respondeu ao próprio post com ironia. “Para aqueles que estão celebrando o fato de eu estar fumando um baseado: é um charuto. Mesmo que ele se identificasse como um baseado para esta ocasião, ainda seria, objetivamente, comprovadamente e demonstravelmente, um charuto.”
Os apoios da autora
Existem pelo menos cinco grupos e organizações que JK Rowling apoiou, financiou ou até mesmo criou, que fazem parte da pauta conhecida por alguns como “feminismo radical” ou “feminismo trans-excludente”. Um deles é a LGB Alliance (sim, sem o T e as outras letras da sigla atualizada), um grupo que se desvinculou da Stonewall em 2019 e argumenta que a defesa dos direitos trans está prejudicando os direitos de lésbicas, gays e bissexuais. Rowling doou £70 mil para a organização, que tem sido rotulada por opositores como um grupo de ódio. Outra organização semelhante é a Sex Matters, co-fundada por Maya Forstater (a mulher demitida em 2019 que recebeu apoio público de Rowling). Essa entidade recebe apoio financeiro e logístico da rede de Rowling.
Em outras três organizações, ela é ainda mais ativa. O J.K. Rowling Women’s Fund se descreve como um fundo jurídico para mulheres que lutam pela proteção de seus direitos com base no sexo em todas as áreas da vida, incluindo no ambiente de trabalho, esportes, clubes e espaços exclusivos. O site da organização destaca vitórias legais (consideradas retrocessos por ativistas trans) que o fundo apoiou ou pelos quais fez lobby, incluindo a decisão da Suprema Corte. O fundo não opera como uma instituição de caridade registrada, mas como uma entidade privada financiada diretamente pela fortuna pessoal de Rowling, estimada em mais de US$1,2 bilhão.
A escritora também fundou o Beira’s Place, descrito como um serviço privado de apoio para mulheres vítimas de violência sexual, localizado na Escócia. Estabelecida em 2022, a organização se apresenta como um “serviço exclusivo para mulheres” e não emprega nem atende mulheres trans. A exclusividade do atendimento para mulheres cisgênero é enfatizada em vários trechos. No “sobre nós”, JK Rowling é mencionada como fundadora e financiadora, destacando seu histórico como vítima de violência doméstica e agressão sexual.
E o maior desses grupos é o For Women Scotland. Na perspectiva da organização, “os direitos das mulheres e meninas estão em crise na Escócia” e, portanto, campanhas são realizadas para proteger esses direitos, sempre com a crença de que “existem apenas dois sexos, que o sexo de uma pessoa não é uma escolha e não pode ser alterado”. Em uma seção de curiosidades e estatísticas, o For Women afirma que 80 a 95% das pessoas que se identificam como trans optam por não receber nenhum tratamento médico e que, portanto, “mulheres trans são simplesmente homens que acreditam subjetivamente ser mulheres. Apenas isso”. Há uma relativização da violência contra pessoas trans e o texto chega a afirmar que é mais provável uma mulher trans matar alguém do que ser morta no Reino Unido — o que não é confirmado pelos dados.
Organizações de direitos humanos apontam inconsistências nessas conclusões. Embora o número absoluto de homicídios de pessoas trans seja baixo no país, a amostra é considerada estatisticamente pequena demais para gerar uma taxa de probabilidade conclusiva. Além disso, argumentam que há subnotificação, já que o registro policial muitas vezes usa o sexo biológico e que a comparação da taxa de criminalidade de um grupo minoritário pequeno com sua taxa de vitimização exigiria um método mais sólido.
A percepção do público
Apesar da intensa polêmica nas redes sociais e dos embates entre grupos que apoiam pessoas trans e aqueles que se opõem, essa discussão parece não atingir o grande público. O sucesso do trailer é apenas um exemplo. Produtos da marca Harry Potter continuam vendendo bem, os parques temáticos na Universal Studios, em Orlando, são populares, e o videogame Hogwarts Legacy foi o jogo mais vendido de 2023, recebendo prêmios e elogios da crítica — e apresentando uma personagem trans na trama.
O lançamento da nova série coloca o público diante de um dilema persistente. A principal mente por trás desse universo usa sua influência e recursos em questões que impactam diretamente a vida de pessoas que, muitas vezes, encontraram nos seus livros um refúgio. Entre os desiludidos, os fãs leais e os novos interessados na obra, a discussão sobre a ética de consumir a obra de Rowling promete muitas reviravoltas.



