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O anfitrião avesso – Meio

O anfitrião avesso – Meio

O anfitrião avesso – Meio

Ele se arvorou a colocar a medalha de honra em seu próprio pescoço. O penduricalho era uma versão portátil do prêmio maior, de mesa, que estava recebendo, para poder exibir por aí. Mas Donald J. Trump, presidente dos Estados Unidos, nem esperou Gianni Infantino, presidente da Fifa, agraciá-lo com o balangandã. Já foi tomando a insígnia da bandeja e se autoadornando. Bem, o efeito teria sido o mesmo se o dirigente mais bajulador da história da entidade futebolística tivesse dado a medalha. Toda aquela encenação patética era, no fim, um ato masturbatório de Trump. Depois de o presidente norte-americano perder o Nobel da Paz com o qual tanto sonha para María Corina Machado, Infantino inventou, quiçá a pedido do próprio Trump, um Prêmio Fifa da Paz para satisfazer a vaidade trumpista.

Era o dia 5 de dezembro de 2025, e a premiação aconteceu na cerimônia de sorteio dos jogos da Copa do Mundo 2026, sediada triplamente por Estados Unidos, Canadá e México. O slogan do Prêmio Fifa da Paz, recém-parido, é “O futebol une o mundo”. E seu primeiro laureado é o homem, potencialmente, mais divisivo do Ocidente das últimas oito décadas. O anfitrião da maior festa da bola está de mal com o mundo que a Fifa jura querer unir. E a Copa que tinha tudo para entrar para a história como a mais global, por ser a primeira com o recorde de 48 países participantes e a primeira com três nações-sede, pode ser lembrada justamente pelo paradoxo da hostilidade do principal host.

Tudo com a constrangedora cumplicidade da Fifa, que não poderia sequer alegar que estava desavisada. Para ficarmos apenas num intervalo curtíssimo, dois dias antes de Trump receber a honraria de pacificador, um encontro na Índia em busca de uma trégua na guerra entre Rússia e Ucrânia, com a presença de uma delegação americana, fracassou. Esse foi apenas um dos conflitos que Trump jurou falsamente ter encerrado para justificar seu desejo pelo Nobel da Paz.

No mesmo dia 3, Trump suspendeu todos os pedidos de imigração, como green cards e naturalizações, para pessoas de 19 países, que já haviam sido proibidas de viajar aos EUA meses antes. Doze dias depois do prêmio, ampliaria o travel ban para 39 países. Entre eles, República do Congo, Haiti, Senegal, Costa do Marfim, Irã e Somália, todos participantes da Copa de alguma maneira. O tratamento dispensado pelos Estados Unidos aos atletas, dirigentes, árbitros e torcedores dessas nacionalidades até aqui já está sendo usado como símbolo de como uma festa global, ecumênica e diversa pode ser transformada em um manifesto bélico, anti-imigração e antiglobalização.

Não que outras copas não tenham sido usadas de forma nefasta por líderes políticos para mascarar (ou celebrar) autoritarismos de variadas espécies. Uma das apropriações mais escandalosas foi na Copa de 1934, quando Benito Mussolini interferiu de todos os jeitos que encontrou para tornar sua Itália fascista vitoriosa. Numa ironia nada alentadora, em vez de rejeitar estrangeiros, naturalizou alguns para fortalecer o time da Azzurra, mudando a legislação para “importar” os chamados oriundi. Foi assim que descendentes de italianos como os argentinos Monti, Orsi e De Maria, o uruguaio Guaita e o brasileiro Guarisi acabaram jogando pela seleção italiana, que ganharia o título pela primeira vez.

Saltando mais de quatro décadas, a Argentina foi a anfitriã de 1978. Os estádios enchiam enquanto a ditadura sangrenta de Rafael Videla torturava nos porões. As Mães da Praça de Maio buscavam denunciar o regime e jogadores de outros países chegaram a boicotar a Copa. João Havelange, então presidente da Fifa, foi pressionado a mudar a sede e se negou. A Holanda, finalista contra o time da casa, ameaçou não aceitar as medalhas das mãos de Videla caso ganhasse. A Argentina ganhou. E Videla condecorou sua seleção.

Quarenta anos mais e chegamos à Rússia de Vladimir Putin. Sob escrutínio internacional por violações de direitos humanos e envenenamento de adversários políticos e pelo conflito na Crimeia, o ditador russo escolheu usar a Copa de 2018 para tentar lavar sua imagem e, na cerimônia de abertura do Mundial, apresentou seu país como “aberto, hospitaleiro e amigável”. No Catar, quatro anos mais tarde, outra ditadura, o inaceitável para os críticos eram, principalmente, a perseguição à comunidade LGBTQIA+ e às mulheres e as denúncias de trabalho escravo na construção dos estádios. Mas tudo foi ficando palatável com o tempo, com o clima festivo dos jogos e com a ajuda da Fifa, que, em nome dos lucros e com cada vez menos influência, foi mais do que complacente com autoritários. Foi amiga deles.

Isso porque, como o próprio ex-secretário-geral da entidade Jérôme Valcke admitiu em 2013, lidar com autocratas é bem mais fácil do que com democratas. “Menos democracia às vezes é melhor para se organizar uma Copa do Mundo. Quando você tem um chefe de Estado forte, que pode decidir, assim como Putin em 2018, é mais fácil para nós organizadores do que um país como a Alemanha, onde você precisa negociar em diferentes níveis”, confessou Valcke. “A principal dificuldade que temos é quando entramos em um país onde a estrutura política é dividida, como no Brasil, em três níveis: federal, estadual e municipal. São pessoas diferentes, movimentos diferentes, interesses diferentes, e é difícil organizar uma Copa nessas condições.”

Ou seja, Infantino não inaugura uma tendência covarde da Fifa, mas um novo patamar de intimidade com um governante. E Donald Trump estreia um jeito novo de sediar uma Copa do Mundo.

A jogada de cada um

Os líderes autoritários, completos ou aspirantes, costumam usar o torneio para vender uma ideia de nação feliz e receptiva e de que eles, os líderes, são fortes, mas benevolentes. Usam a oportunidade como um cartão de visitas, ainda que frequentemente falso, de suas conquistas e da alegria simulada de seu povo. Trump explode isso. Internamente, segue com as medidas anti-imigratórias violentas que fazem parte do mundo se arrepiar. Externamente, dá continuidade à sua política de virar as costas para aliados históricos, de destruir canais diplomáticos e de atacar instâncias multilaterais, mirando agora a mais festiva delas, a Copa do Mundo.

De saída, Trump não está interessado na Copa ou em futebol. Seu gosto esportivo se deposita mais no basquete — e ele foi recebido com fortes vaias num jogo da final da NBA em Nova York — e no UFC, a ponto de marcar para um domingo de Copa do Mundo em seu país um inédito dia de lutas na Casa Branca. Some-se a isso que não se importar muito com o que vão pensar sobre sua hospitalidade ou com as consequências de seus atos faz parte de seu show. Mas os julgamentos e as consequências virão de qualquer forma. O episódio da expulsão do árbitro somali Omar Artan de solo norte-americano representa, até aqui, o ponto alto dos efeitos negativos que essa escolha de Trump podem gerar. Considerado um dos principais árbitros da África e eleito o melhor árbitro masculino do continente em 2025, Artan seria o primeiro árbitro da Somália a atuar em uma Copa do Mundo. Foi barrado em Miami sem uma justificativa clara.

Ao retornar a Mogadíscio, foi recebido por um estádio lotado, como se tivesse ele próprio ganhado a Copa. A Uefa escolheu Artan para apitar a Supercopa 2026, em agosto, entre Paris Saint Germain e Aston Villa. Herói e vilão do Mundial, antes de seu início, já estavam estabelecidos. Questionado pela imprensa sobre o caso, Infantino pediu que os jornalistas “chill and relax” sobre o assunto.

Nem todo jornalista esportivo é vergonhosamente sabujo de jogadores e dirigentes, ainda bem. Um repórter da BBC confrontou Infantino diretamente sobre a dificuldade de algumas seleções, torcidas e até jornalistas se locomoverem nos EUA e receberem seus prometidos vistos. “Você está envergonhado pelo que está acontecendo? E você precisa aceitar que perdeu o controle do seu torneio?”. O semblante fechado de Infantino deu lugar a um sorrisinho sem graça. “Você é da BBC. Em 2035, possivelmente o Reino Unido vai receber a Copa Feminina de Futebol. Você acharia normal que a Fifa determinasse ao governo britânico quem deixar ou não entrar no país?”, respondeu perguntando. “Em todo país, há governantes. Não é fácil ter 300 mil pessoas para processar a entrada… Nosso mundo é muito agressivo. Segurança vem acima de tudo. Quando eu peço para vocês relaxarem, não é porque não faremos nada. É para confiar que estamos trabalhando nos bastidores para entender…”

Os bastidores da relação Trump/Infantino foram esmiuçados pelo New York Times e revelam que já há pleno entendimento mútuo. Os dois se conheceram em 2018 no Salão Oval, quando a América do Norte ganhou o direito de sediar a Copa. Infantino presenteou Trump com uma camisa personalizada e um conjunto de cartões de advertência, que os dois brincaram que poderiam ser usados para punir a imprensa. Desde então, Infantino tornou-se presença regular na Casa Branca, esteve na primeira fila da posse de Trump em janeiro de 2025 e o acompanhou em visitas de Estado, numa parceria difícil de justificar.

A proximidade entre ambos, como tudo que Trump empreende na Casa Branca, rende frutos financeiros. A Fifa aluga, desde o ano passado, uma sala no 17º andar da Trump Tower em Nova York, pagando aluguel à família do presidente. O Departamento de Justiça, por sua vez, encerrou investigações criminais de longa data contra a entidade. O auge desse namoro, até aqui, foi mesmo na concepção do Prêmio Fifa da Paz. Segundo o Times, Infantino comunicou aos altos funcionários da entidade o nome do primeiro contemplado no mesmo dia em que anunciou a criação do prêmio. O troféu, como todo o resto, foi improvisado: uma peça miniatura de um escultor que era pai de um funcionário foi retirada da coleção de bugigangas da entidade. A entrega do prêmio foi em Washington, cidade escolhida a pedido de um aliado do presidente, para garantir a presença de Trump.

Acontece que, como se aprende arduamente, Trump não é um aliado confiável. Quando a seleção iraniana precisou de autorização para entrar nos Estados Unidos, Trump respondeu: “Se Gianni disse, estou de acordo”. A Copa começou e a delegação iraniana enfrenta toda sorte de dificuldade tanto com vistos quanto com acomodações — e não só ela. Trump também fez eco às críticas à política absurda de preços de ingressos da Fifa, deixando Infantino na chuva para se explicar.

Sejam mal-vindos

Poderia se justificar o caso iraniano com o fato de que os EUA estão realmente em guerra com o Irã neste momento, apesar das 37 vezes em que ele já anunciou, falsa ou precipitadamente, um acordo de cessar-fogo com o país. Mas Trump e sua administração impuseram obstáculos a diversas delegações e torcidas. Um atleta iraquiano foi submetido a sete horas de entrevista no aeroporto. Torcedores, até de aliados como a Escócia e a Argentina, tiveram vistos negados. Outros desistiram de embarcar com medo das restrições. Ainda mais grave, Trump segue usando sua milícia anti-imigrantes, o ICE, e assustando inclusive aqueles que entraram no país legalmente.

Na Copa do Mundo de Clubes da Fifa, disputada nos EUA entre junho e julho do ano passado, o ICE emitiu um alerta recomendando os não americanos que fossem aos estádios a levar prova de sua situação migratória. Agentes dessa força especial eram vistos circulando estádios e migrantes que já tinham comprado ingressos correram para revendê-los, aterrorizados. Como reflexo, há agora um temor generalizado de batidas do ICE ao redor dos estádios, e organizações chegaram a pedir que empresas patrocinadoras pressionem por uma trégua durante a Copa.

Sua retórica também não está em nada mais suave. No ano em que os EUA foram escolhidos como uma das sedes da Copa, vazou que Trump se referira a países da África e ao Haiti como “shithole countries”. Agora, no mesmo dezembro em que foi escolhido pacificador pela Fifa, Trump classificou a Somália, de Omar Artan, como “podre” e um lugar que “fede”. Pressionado sobre a desproporcional rigidez com vistos, afirmou que está assegurando que somente as “pessoas certas” entrem nos EUA.

Enquanto o México abria a Copa do Mundo, na quinta-feira, com uma cerimônia que festejou dos astecas ao reggaeton, Trump postou, do absoluto nada, contra o “birthright citizenship”, que concede cidadania automática a crianças nascidas em solo norte-americano, mesmo de imigrantes. Poucas horas depois, uma imagem com armas apreendidas, segundo ele, de cartéis mexicanos, usadas para “matar milhares de americanos todos os anos”.

México e África do Sul fizeram o jogo de abertura da Copa a despeito de Donald Trump e seus ataques. Como bem apontou Tanguy Baghdadi, professor de relações internacionais, foi bastante simbólico assistir a dois países que lutam arduamente contra muros — comerciais, raciais e literais — festejando o futebol em contraponto a quem tenta arduamente erguer esses muros. Aliás, o México já tem sido celebrado nas redes sociais como o verdadeiro, legítimo e baladeiro (como sói ser em copas) anfitrião deste 2026, com uma pitadinha de generosidade com o Canadá, o simpático e pacífico co-host ao Norte. A sequela da aspereza do anfitrião yankee tem sido o fortalecimento dos anfitriões latinos e canadenses aos olhos do mundo.

Esse realinhamento, ou a preterição dos EUA como referência, tende a ser também a sequela de todas as escolhas bélicas, anti-imigratórias e antiglobalização e multilateralismo que Trump tem feito, como alerta Ian Bremmer, da Eurasia, em entrevista a Ezra Klein. “Os EUA são hoje o principal propulsor da incerteza geopolítica no mundo. Trump e os americanos estão conduzindo isso, com tarifas e política industrial, com a guerra no Irã. Eles estão conduzindo isso com a falta de previsibilidade com os europeus. Eles estão impulsionando isso com a mudança nas estruturas, nas regras e nas normas dentro do maior mercado do mundo”, diz Bremmer. “É isso que vejo acontecer nos EUA neste momento, os EUA estão se retirando unilateralmente das suas alianças. Estão dizendo: não queremos ser confiáveis. Então, vocês fazem o que quiserem.” A questão é que o mundo talvez aceite. E o futebol pode unir o mundo — sem ou contra os EUA.

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