Infraestrutura urbana não acompanha ritmo da digitalização | Tecnologia corporativa
À medida que empresas transferem operações para a nuvem, automatizam processos e ampliam o uso de inteligência artificial (IA), aumenta a importância de um fornecimento estável de energia elétrica e a infraestrutura urbana deixa de ser apenas um serviço público e passa a ser um componente essencial da competitividade.
O problema é que a digitalização avança em ritmo superior ao da modernização dos serviços essenciais, como energia, água, conectividade e saneamento. O Brasil investe cerca de R$ 250 bilhões por ano em infraestrutura, aproximadamente 2% do produto interno bruto (PIB). Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), seria necessário mais do que dobrar esse volume para modernizar redes de energia, telecomunicações, transportes e saneamento e sustentar o crescimento econômico.
Para Fabrício Silveira, superintendente de política industrial da CNI, esse descompasso limita a produtividade das empresas. “O atraso regulatório e a burocracia na expansão da infraestrutura limitam a transição digital da indústria, dificultando a automação e o uso de internet das coisas”, afirma.
Segundo ele, as prioridades incluem modernizar os sistemas de transporte e mobilidade, expandir a infraestrutura digital — com universalização do 5G e das redes de fibra óptica —, avançar no saneamento básico e adotar redes elétricas inteligentes (“smart grids”). “Esses investimentos ampliam a eficiência operacional, reduzem interrupções nos serviços, criam as condições para a adoção de tecnologias e fortalecem a competitividade da indústria brasileira.”
Para Mauricio Bouskela, coordenador do Núcleo de Economia Urbana, Cidades Inteligentes e Big Data do Insper Cidades, a competitividade urbana deixou de depender apenas da infraestrutura física. “As cidades sempre competiram por investimentos. Hoje, pesa cada vez mais a capacidade de integrar infraestrutura física, ambiente digital e dados para oferecer serviços urbanos mais eficientes.”
Embora ampliar os investimentos em infraestrutura continue sendo um desafio, tecnologias inteligentes já ajudam a tornar as cidades mais resilientes. Redes elétricas inteligentes utilizam sensores, automação, inteligência artificial e dados meteorológicos para monitorar ativos e antecipar falhas. “As empresas já atingiram um estado de maturidade em que não basta reagir às falhas. É preciso atuar de maneira preventiva”, afirma Fabio Castellini, diretor de “power systems” da Schneider Electric no Brasil. Segundo ele, plataformas de gestão conseguem prever impactos climáticos com até 72h de antecedência, permitindo mobilizar equipes antes das interrupções.
A tecnologia já é utilizada por concessionárias de energia que atendem cerca de 60% da população brasileira. “As plataformas integram dados históricos, informações operacionais em tempo real, condições meteorológicas e disponibilidade das equipes em um único ambiente, permitindo antecipar riscos, estimar com maior precisão o tempo de restabelecimento do fornecimento e acelerar a resposta a eventos extremos”, explica Castellini. Na prática, isso reduz os impactos das interrupções sobre hospitais, indústrias, centros logísticos e comércio.
Para Rodolfo Taveira, diretor de recursos naturais e energia da Oliver Wyman, o avanço central está na conexão entre ativos físicos e inteligência digital. “Sensores, internet das coisas, inteligência artificial, automação e gêmeos digitais permitem que a gestão da infraestrutura deixe de ser reativa e passe a ser preditiva, reduzindo falhas, custos operacionais e tempo de resposta.”
Essa combinação já produz resultados em operações nas quais a continuidade é indispensável. No Hospital Alemão Oswaldo Cruz, a modernização dos sistemas elétricos, o reforço da redundância energética e a migração dos principais sistemas para a nuvem evitaram um investimento estimado em R$ 7,9 milhões em um novo data center. Equipamentos como ressonância magnética, tomografia e medicina nuclear operam com disponibilidade média de aproximadamente 99%, enquanto o tempo para identificar incidentes digitais caiu para cinco minutos, com resolução em cerca de 22 horas.
“Em um hospital de alta complexidade, infraestrutura confiável não é apenas suporte operacional; é um componente direto da segurança do paciente, da qualidade assistencial e da capacidade de resposta clínica”, afirma José Marcelo de Oliveira, diretor-presidente da instituição. “Na prática, proteger a infraestrutura significa proteger a continuidade assistencial, a tomada de decisão clínica e a confiança do paciente.”
Para Taveira, o próximo passo para garantir um bom desempenho é integrar informações hoje dispersas entre concessionárias, empresas e poder público. “As organizações que conseguirem fazer essa integração estarão mais preparadas para operar com maior produtividade, menor exposição a interrupções e maior capacidade de adaptação.”



