Quando a intimidade se transforma em pintura
Foto: Laryssa Machada/Divulgação
Artistas escolhem certos pontos de partida para construir as próprias narrativas. Para Fayra Moreira, em A Linguagem do Transe, sua primeira exposição individual que será inaugurada na Galeria Homero Massena, parece-nos que a pintura é seu ponto de partida e antecede a palavra: a memória, o afeto, os silêncios, segredos e as tantas camadas invisíveis que atravessam uma vida.
Ao longo de anos de pesquisa, a artista desenvolveu uma produção que encontra na abstração o lugar para investigar as permanências do amor. Cor, textura e gesto organizam uma pintura em que a experiência do olhar percorre superfícies densas, ritmos e silêncios.
A Linguagem do Transe: memória e intimidade
O título da exposição dialoga com uma passagem do documentário Orí (1989), em que Beatriz Nascimento afirma que “a linguagem do transe é a memória”. A reflexão oferece uma chave para compreender um conjunto de trabalhos que percorre diferentes formas de afeto — o amor romântico, familiar, coletivo e dirigido a si mesma. Em Fayra, essa investigação também desloca imaginários que, por muito tempo, limitaram as possibilidades de representação das experiências de mulheres negras e travestis.
Detalhe da obra da artista Faya Moreira. Foto: divulgação.
Obras em destaque e a intimidade da artista
Entre as obras apresentadas, Mãe ocupa um lugar central ao reunir as memórias da relação com sua mãe em uma pintura de grandes dimensões. Já a série Ele vem me visitar nos meus sonhos de vez em quando organiza dez pinturas segundo o ritmo cardíaco de um coração apaixonado. São trabalhos em que a abstração preserva a força daquilo que não se deixa reduzir, mantendo a pintura num espaço onde algo, de fato, nos acontece: um lugar onde a memória revela a intimidade para além do arquivo pessoal, um convite reflexivo para ver e ser vista.
Aliás, a intimidade e seus impasses parecem tocar o trabalho da artista, como uma lacuna no saber sobre si mesma. Distante de ser uma confissão, a obra de Fayra aparece como um modo de refletir sobre o que escapa à lógica linear.
Onde e quando visitar a exposição
A primeira individual de Fayra Moreira revela uma pesquisa que vem sendo construída de forma consistente entre o Espírito Santo e o Rio de Janeiro. A exposição permanece em cartaz até 27 de setembro, na Galeria Homero Massena. A abertura será no sábado, dia 25 de julho, com visita mediada das 10h às 13h.



