Sauna para lavar dinheiro: áudio revela esquema na Fazenda de SP
Uma gravação obtida pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) jogou mais luz sobre o esquema bilionário de corrupção na Secretaria da Fazenda de São Paulo (Sefaz-SP). O áudio, feito em julho de 2023, flagra o então diretor de Fiscalização da pasta, André Weiss, dizendo que queria comprar uma sauna para lavar dinheiro. A revelação aumentou a pressão sobre a cúpula do fisco paulista e expôs o linguajar explícito usado pelos envolvidos.
A gravação foi feita pelo próprio auditor fiscal Artur Gomes da Silva Neto, conhecido como “Rei Artur”, apontado pelo MP-SP como um dos principais operadores do esquema. O arquivo ficou armazenado no celular de Artur por dois anos até ser apreendido na Operação Ícaro, em agosto de 2025. Desde então, o material vem sendo usado como prova nos desdobramentos da investigação, que já resultou em prisões e afastamentos de cargos na Sefaz-SP.
O diálogo na íntegra
Segundo a transcrição apresentada pelo MP-SP, Weiss afirmou durante um almoço com fiscais: “Você sabe que eu pensei em pegar dinheiro e comprar uma sauna em São Paulo… pra fazer reunião… vamos juntar uma grana e vamos pegar uma porra de uma sauna, né? E para lavar também é bom.” A declaração surpreendeu promotores pela naturalidade com que o ex-diretor tratava a possibilidade de utilizar um estabelecimento comercial para ocultar a origem do dinheiro desviado.
Na sequência, o ex-diretor argumentou que um estabelecimento do tipo facilitaria a circulação de dinheiro em espécie: “Quantas pessoas entram em sauna e pagam em dinheiro? Quase todas, cara. Pô, quem que vai passar um cartão em sauna? Ninguém.” Para os promotores, Weiss descrevia em primeira pessoa uma possível estratégia de lavagem de dinheiro por meio de um negócio com intensa movimentação de valores em espécie e baixo controle fiscal. Os autos não indicam que a compra tenha sido concretizada, mas a fala revela o planejamento do grupo.

Gravador e gravado
Artur Gomes da Silva Neto, o “Rei Artur”, foi quem registrou a conversa escondido. A ironia do caso chama atenção: enquanto contava aos colegas que um ex-delegado tributário teria dito que começaria a “gravar tudo” para não “cair sozinho”, era o próprio Artur quem registrava o almoço sem o conhecimento dos demais participantes.
O documento do MP-SP afirma que a gravação foi localizada no telefone do auditor e submetida a perícia do Núcleo de Computação Forense do Centro de Apoio Operacional à Execução (Caex), que verificou sua autenticidade e integridade. Não há indícios de edição ou adulteração do arquivo.
Para o Ministério Público, a fala fazia referência à divisão de valores relacionados aos processos discutidos pelo grupo. Em outro trecho, Artur também fala sobre sua participação em valores relacionados a um procedimento de ressarcimento. Segundo a transcrição, ele afirma que um operador externo responsável pelo trabalho separaria “uma parte que ele tinha combinado” com o auditor.
Preocupação com ostentação
Na mesma conversa, Weiss demonstrou preocupação com a possibilidade de chamar atenção caso exibisse sinais externos de riqueza. Ele mencionou uma Mercedes de R$ 250 mil e disse que a aquisição poderia levá-lo aos jornais e terminar com sua prisão. A fala indica que os envolvidos tinham consciência da ilegalidade dos atos, mas mesmo assim mantinham o esquema.
O áudio foi gravado menos de um mês antes da primeira entrega de propina relatada por Paulo Prado em seu acordo de colaboração premiada. Segundo Prado, a partir de meados de 2023 passou a pagar R$ 250 mil por mês a Weiss para permanecer à frente da Delegacia Regional Tributária do Butantã. O valor da propina mensal equivalia exatamente ao preço do carro de luxo mencionado pelo ex-diretor na gravação.
Operação Ícaro e desdobramentos
Artur foi preso na Operação Ícaro, deflagrada em agosto de 2025. As buscas realizadas contra ele e a análise de seus aparelhos eletrônicos revelaram que o esquema investigado era maior do que se imaginava inicialmente, quando as investigações estavam focadas apenas nas relações com a Fast Shop e a Ultrafarma.
Os investigadores encontraram 15 mensagens entre o e-mail pessoal de Artur e advogados do escritório Buttini, além de reuniões pelo Microsoft Teams e conversas por WhatsApp. O MP-SP afirma que o material extraído dos aparelhos do auditor demonstra a amplitude do esquema de corrupção que envolvia a cúpula da Sefaz-SP.
O caso já tem repercussão direta no governo paulista. Desde o início das investigações, servidores foram afastados e a Secretaria da Fazenda passou por mudanças internas. A revelação do áudio da sauna deve aumentar a pressão por novas investigações e possivelmente por novas prisões na pasta.
O que esperar daqui para frente
A divulgação do áudio pelo G1 e pela GloboNews coloca novamente o esquema da Sefaz-SP sob os holofotes. O MP-SP deve usar a gravação como prova em futuras denúncias e possíveis novos desdobramentos da Operação Ícaro. A defesa de Weiss ainda não se manifestou sobre o conteúdo do áudio.
O escândalo expõe fragilidades no controle da máquina pública paulista e levanta questões sobre a eficácia dos mecanismos de fiscalização interna da Secretaria da Fazenda. Por enquanto, a população de São Paulo acompanha os desdobramentos de um caso que já é considerado um dos maiores esquemas de corrupção já investigados no fisco estadual brasileiro.
Relembre o caso: Propina na Sefaz-SP — ex-número 3 é preso em nova operação
Com informações do G1
RedeBrasil




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