Renan Santos propõe fim da autonomia de universidades
O candidato do Partido Missão à Presidência, Renan Santos, defendeu nesta quinta-feira (10) o fim da autonomia universitária no Brasil e a restrição dos programas de financiamento estudantil Fies e ProUni. A proposta gerou polêmica ao colocar em xeque um princípio constitucional que garante às universidades públicas liberdade para definir sua gestão e seus rumos acadêmicos.

Em entrevista ao G1, o candidato afirmou que a autonomia universitária permite que reitores administrem as instituições como bem entendem, sem levar em conta os interesses da população. “A autonomia universitária faz com que reitores de universidades administrem a universidade como ele quer, mas se o povo brasileiro está pagando por universidade pública, a universidade pública tem que ceder ao interesse do povo brasileiro”, declarou.
Renan Santos tem 2% das intenções de voto em São Paulo, segundo a mais recente pesquisa Quaest, divulgada no início de setembro. O partido Missão, legenda de centro-direita, aposta em um discurso de crítica ao sistema educacional público como diferencial na campanha presidencial. Nas redes sociais, o candidato tem investido em vídeos curtos nos quais ataca o que chama de “indústria do diploma”.
Fim do Fies e do ProUni nos moldes atuais
O candidato também defendeu a reformulação radical dos programas de acesso ao ensino superior. Para ele, o Fies e o ProUni empurram estudantes semialfabetizados para universidades privadas de baixa qualidade, gerando endividamento e diplomas sem valor no mercado de trabalho.
“No ensino médio, o foco será no ensino técnico. Políticas como ProUni e Fies pegam alunos que saem semialfabetizados das escolas e os colocam em uma universidade privada ruim, endividando eles. Eles ganham um diploma e depois vão fazer Uber. Isso vai acabar”, afirmou.
Renan defendeu que apenas universidades privadas consideradas “muito boas” continuem recebendo financiamento público. A declaração acendeu alerta entre entidades estudantis, que veem na proposta um risco de elitização do acesso ao ensino superior. A União Nacional dos Estudantes (UNE) já reagiu publicamente, classificando a ideia como “retrocesso” e “ataque à democratização do ensino”.
Educação técnica como prioridade
O candidato do Missão propôs ainda a ampliação do ensino técnico já no ensino médio, inspirado no modelo alemão. “Todo mundo acha lindo o modelo alemão. É lindo. Cinquenta por cento dos estudantes saem com o ensino técnico já do ensino médio, prontos para ter um emprego”, disse.
Segundo Renan, o Brasil passou a valorizar excessivamente a obtenção de diplomas universitários sem que isso resultasse em aumento proporcional da produtividade. “Venderam para o brasileiro de maneira malandra que basta ter um diploma que tudo vai dar certo. Não foi o que aconteceu. As pessoas conseguiram mais diplomas nos últimos anos, só que a nossa produtividade ficou estagnada perante o mundo”, completou.
Especialistas em educação apontam, no entanto, que a comparação com a Alemanha desconsidera diferenças estruturais entre os dois países. Na Alemanha, o sistema de ensino técnico é integrado a uma economia industrial robusta que absorve os profissionais formados. No Brasil, a realidade do mercado de trabalho é distinta, e a ampliação do ensino técnico precisaria vir acompanhada de políticas de desenvolvimento industrial.
O debate sobre a autonomia universitária no Brasil também envolve a capacidade das instituições de definir seus currículos, pesquisas e projetos pedagógicos sem interferência política. Críticos da proposta de Renan Santos argumentam que o fim da autonomia abriria espaço para ingerência do governo federal nas universidades, comprometendo a liberdade acadêmica e a independência das pesquisas científicas.
Impacto na eleição paulista
Embora seja candidato à Presidência, as declarações de Renan Santos repercutem com força em São Paulo, estado onde o candidato aparece com 2% das intenções de voto, segundo a Quaest. O estado concentra algumas das principais universidades públicas do país, como USP, Unicamp e Unesp, que seriam diretamente afetadas por uma eventual mudança no regime de autonomia.
A campanha de Renan Santos aposta em um discurso de ruptura com o que chama de “establishment acadêmico”, mas enfrenta resistência até entre eleitores de centro-direita, que veem nas universidades públicas um patrimônio do estado. Além disso, a proposta de restringir o Fies e o ProUni atinge diretamente a base eleitoral de candidatos ao Senado e à Câmara que dependem do voto de estudantes beneficiados por esses programas.
Para o eleitor paulista, o tema tem peso ainda maior. São Paulo tem a maior rede de universidades públicas do país e uma forte tradição de autonomia universitária, consolidada desde a Constituição de 1988. A proposta de Renan Santos coloca o candidato em rota de colisão com reitores, professores e movimentos estudantis do estado, que já articulam manifestações contra a ideia.
O desafio do candidato, porém, é transformar o discurso em tração eleitoral. Com apenas 2% das intenções de voto em SP, Renan Santos disputa espaço com outros postulantes que também miram o eleitorado conservador. Resta saber se a pauta da educação, que até aqui dominou a campanha de Lula e Flávio Bolsonaro, será capaz de furar a bolha do candidato do Missão até o primeiro turno, marcado para 4 de outubro.
Com informações do G1. Leia também sobre o desempenho de São Paulo no Pisa em ano eleitoral.
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