Smart Sampa: falha expõe 58 mil câmeras e Nunes minimiza
Uma falha de segurança no Smart Sampa, programa de vigilância e reconhecimento facial da Prefeitura de São Paulo, permitiu o acesso indevido a imagens de mais de 58 mil câmeras. O caso veio à tona nesta terça-feira (20) em reportagem do UOL e foi confirmado pelo prefeito Ricardo Nunes (MDB), que defendeu o sistema como “absolutamente seguro”.
Segundo a prefeitura, não houve invasão ou hackeamento. O acesso teria ocorrido por meio de senhas disponibilizadas ilegalmente por um servidor concursado, que entrou na administração em 2023 e trabalhava no setor responsável por guardar essas credenciais.
O que o Smart Sampa controla em São Paulo
Lançado em 2024 como principal aposta da gestão Nunes na segurança pública, o Smart Sampa reúne imagens de câmeras públicas e privadas em uma central que funciona 24 horas por dia. O investimento mensal gira em torno de R$ 10 milhões.
O programa usa inteligência artificial para comparar os rostos captados com bases oficiais de procurados pela Justiça e de pessoas desaparecidas. A tecnologia também identifica veículos roubados, furtados ou com suspeita de clonagem de placas, como detalha a reportagem do g1 sobre o vazamento. Em junho de 2026, a prefeitura lançou o aplicativo Smart Sampa Cidadão, que permite ao morador ajudar na identificação de veículos com restrição pela câmera do celular.
Segundo o balanço mais recente da prefeitura, o programa já havia contribuído para a captura de 3.628 foragidos da Justiça e para a localização de 284 pessoas desaparecidas. A gestão também anunciou a contratação de um helicóptero equipado com tecnologia de monitoramento, com custo estimado de R$ 2 milhões por mês.
Nunes diz que prefeitura monitorava servidor com “isca”
Em entrevista coletiva, Nunes afirmou que a administração já sabia da falha e vinha acompanhando o caso. “A prefeitura já tinha conhecimento e vinha monitorando, numa espécie de isca, pra ver se tinha acesso irregular”, declarou o prefeito.
Ele disse que o servidor foi demitido depois que o vazamento se tornou público e que a apuração corre na corregedoria. Nunes também garantiu não haver registro de uso indevido das imagens. “Garantimos que o sistema tem nível de segurança muito alto e muito seguro”, completou.
Questionado sobre a ausência de verificação em duas etapas para autorizar o acesso à plataforma, o prefeito respondeu que “os níveis de segurança vão aumentando gradativamente”. Segundo ele, nos próximos meses os servidores terão de fazer cadastro de biometria facial para entrar no sistema.
Falha ficou exposta por quase um ano
A reportagem do UOL aponta que os dados sigilosos ficaram acessíveis na internet por cerca de 11 meses. Na prática, quem tivesse as credenciais vazadas poderia acompanhar imagens de ruas, prédios e áreas monitoradas da capital em tempo real.
A diferença entre o alcance real do problema e a versão oficial da prefeitura virou o centro da polêmica política. A gestão municipal sustenta que o sistema segue operando normalmente e nega prejuízo aos moradores.
Pedido de CPI e investigação do MP
Na Câmara Municipal, a vereadora Amanda Paschoal protocolou requerimento para abrir uma Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a falha. O pedido cita a exposição das 58 mil câmeras ao longo de quase um ano.
O Ministério Público de São Paulo também abriu procedimento para apurar o caso. A investigação ficará sob responsabilidade da Promotoria de Justiça do Patrimônio Público e Social.
Estudo do CESeC questiona eficácia do programa
A eficácia do Smart Sampa já vinha sendo contestada antes do vazamento. Um estudo do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), intitulado “Smart Sampa vigia, mas não protege”, concluiu que a instalação do sistema não produziu redução estatisticamente significativa em furtos, roubos e homicídios na capital.
A pesquisa comparou indicadores da cidade com os de municípios paulistas que não adotaram o programa. O levantamento também apontou erros de reconhecimento facial nos primeiros meses de 2025, como o caso de um policial militar fardado confundido com um foragido e o de um jardineiro preso injustamente.
Os pesquisadores relacionam as falhas a algoritmos com viés racial e a bancos de dados desatualizados. Um levantamento do MIT, de 2018, mostrou que sistemas de reconhecimento facial erravam até 34 por cento ao identificar mulheres negras, contra 1 por cento no caso de homens brancos.
O que está em jogo para a vigilância na capital
O vazamento reacende o debate sobre custo, transparência e limites da vigilância em São Paulo. A cidade tem hoje a maior rede de câmeras integradas do país, bancada com dinheiro público e operada por um contrato de milhões por mês.
Para o programa de inteligência artificial e videomonitoramento da capital, a falha coloca em xeque a promessa de segurança que sustentou a expansão do Smart Sampa desde 2024.
Com Câmara e Ministério Público pressionando por respostas, o caso tende a render mais desgaste à gestão. A pergunta que segue aberta é como 58 mil câmeras ficaram expostas por tanto tempo sem que a prefeitura alterasse as senhas.
Com informações do g1 e do UOL
RedeBrasil



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