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Quais as cartas de Trump?

Quais as cartas de Trump?

Quais as cartas de Trump?

Semanalmente, somos confrontados com uma declaração surpreendente divulgada pelo presidente Donald Trump ou por seus colaboradores, capaz de abalar o mundo.

Algumas são verídicas, outras são falsas, assemelhando-se a um jogo de cartas, com o presidente agindo estrategicamente ou simplesmente “enrolando”, para depois ser contestado e recuar em seu trono.

No atual mandato, ele tem utilizado a tática de ação e reação. Anuncia uma medida enérgica, o mundo reage e, em seguida, faz ajustes, seja adiando, recuando ou modificando o escopo da decisão.

Um exemplo claro foi o aumento das tarifas em abril de 2025. Tarifas elevadas foram anunciadas, porém, poucos dias depois, em uma nova declaração, foi decretada uma pausa de três meses para sua implementação. Conforme os países se adaptavam ou reagiam, as “punições” eram ajustadas.

A abordagem de ação tende a ser desigual. Já a reação depende do oponente em questão.

Em 3 de janeiro de 2026, os Estados Unidos capturaram Nicolás Maduro, acusado de ser líder narcoterrorista, em Caracas. Essa ação provocou um impacto significativo e evidenciou a disposição de Washington em ultrapassar limites antes considerados improváveis.

No Oriente Médio, ocorreram ataques aos Houthis no Iêmen, seguidos de advertências ao Irã, intensificando a tensão na região. Atualmente, porta-aviões americanos estão em operação próximos ao Estreito de Ormuz — será que há semelhanças com a situação na Venezuela?

Na Síria, os Estados Unidos atacaram alvos do Estado Islâmico em resposta a agressões contra suas tropas, reforçando a percepção interna de decisões rápidas em prol do “America First”.

Por outro lado, Trump se apresentou como mediador em um acordo de cessar-fogo entre Israel e Hamas, assinado em outubro de 2025, destacando-se como um líder comprometido com a paz.

Neste contexto, Trump busca redesenhar a estrutura geopolítica global. Seu Conselho da Paz proposto surge como uma entidade paralela capaz de resolver crises, desafiando o papel suposto da ONU.

Como lidar com essa incerteza?

Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, busca firmeza sem alarde. Evita confrontos verbais e busca apoio externo, delineando uma abordagem intermediária para evitar que Trump intensifique as tensões.

Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, procura desescalar publicamente e manter uma postura calma e institucional. Nos bastidores, prepara medidas de retaliação para uma resposta rápida da UE, caso as ameaças dos EUA se concretizem.

Emmanuel Macron, presidente da França, atua como contraponto político e simbólico, defendendo a autonomia europeia e destacando que a Europa não deve ser submetida a pressões comerciais, buscando transformar a tensão em coesão interna.

A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, destaca a defesa da soberania: a Groenlândia não está à venda. Evita bravatas e se apoia no direito internacional e na OTAN para manter as negociações dentro de um padrão institucional, afastando abordagens personalistas.

A China, sob a liderança de Xi Jinping, responde estrategicamente. Em vez de reagir impulsivamente, sinaliza ou impõe retaliações, demonstrando que os custos para os EUA podem ser altos e duradouros.

Por sua vez, a Rússia de Vladimir Putin age com frieza e cálculo, explorando divisões no Ocidente e apostando em um desgaste prolongado que lhe seja favorável, sem buscar consenso e confiando em sua capacidade de resistir à pressão.

A estratégia comum entre eles é manter a discrição em público, evitar a exposição excessiva, encarar cada anúncio como uma ameaça potencial e, quando possível, reagir de forma estratégica.
Ao mesmo tempo, elaboram planos para diferentes cenários, ampliam parcerias e promovem ações coletivas. Em resumo, a resposta ao comportamento volátil de Trump parece incorporar menos impulsividade e mais estratégia.

Retornando à analogia do jogo de cartas, esses líderes só entram na disputa se tiverem, no mínimo, uma boa carta. Com cartas fracas, arriscam-se diante da incerteza — uma incerteza que também permeia o mundo de Trump — e, em caso de dúvida, preferem não participar.

Otávio Santana do Rego Barros, General de Divisão da Reserva

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