De Santa a “Cálice”: livro articula memória materna e canção de Chico Buarque
O lançamento do livro ‘De que me vale ser filha da santa’, agendado para o dia 1º de abril, representa um marco na trajetória da produtora cultural, escritora e educadora capixaba Thalia Peçanha, reforçando sua presença no universo da literatura e ampliando o alcance de uma pesquisa artística desenvolvida entre São Mateus, Aracruz e a Região Metropolitana da Grande Vitória. A obra, baseada em relatos que abordam memória, herança e corporeidade negra, parte do nome de sua mãe, Santa, como ponto de partida para explorar temas como pertencimento, religiosidade, silêncio familiar e continuidade histórica.
O título estabelece uma dupla referência: à mãe da autora e à expressão da icônica canção Cálice, de Chico Buarque, ampliando o simbolismo da obra ao unir experiências pessoais e memória cultural brasileira. Entre relato, elaboração literária e reflexão, a escrita aborda questões sobre o que é herdado, o que falta e o que se perpetua, conectando experiências individuais e coletivas e destacando a literatura como espaço de memória e resistência.
Com atuação diversificada em literatura, teatro, produção executiva e formação cultural, Thalia desenvolve projetos que combinam criação autoral e construção de redes independentes. Seu trabalho tem como foco a conexão entre vivências locais e estruturas de poder que atravessam o estado, especialmente no que diz respeito às corporeidades negras e às lutas por representatividade simbólica.
O livro faz parte de um percurso literário que se expande também para o teatro. Em 2024, foi encenada a peça Carambolas – Algumas Verdades em Memória de Dona Santa, que dialoga com a memória ancestral e narrativas femininas. Além de suas próprias produções, Thalia coescreveu a dramaturgia do espetáculo O Roubo do Sol, ampliando sua presença nas artes cênicas. Seus textos entrelaçam elementos pessoais com contextos sociais mais amplos, proporcionando leituras que transitam entre subjetividade e estrutura histórica.
No âmbito educacional, Thalia Peçanha conduz processos formativos e ações de mediação cultural que buscam integrar criação artística e pensamento crítico. Suas atividades incluem oficinas, leituras públicas e experiências educativas voltadas para diferentes faixas etárias. Sua abordagem educativa parte do pressuposto de que o acesso à arte deve ser acompanhado de reflexão e contextualização. Ao unir prática e análise, seus projetos visam formar público e enriquecer repertórios culturais.
Entre as iniciativas que coordena está a Cafetinaria, produtora cultural dedicada à concepção, estruturação e execução de projetos artísticos e formativos. O trabalho envolve a elaboração de propostas para editais públicos, planejamento financeiro, produção executiva e estabelecimento de parcerias. A iniciativa concentra-se principalmente no apoio a artistas e coletivos independentes, com uma atenção especial a pessoas dissidentes e grupos historicamente sub-representados. O objetivo não é apenas viabilizar projetos pontuais, mas também estabelecer condições para a continuidade e circulação de iniciativas culturais no Espírito Santo.
O Circuito Avessinho, voltado para o público infantil, foi concebido por Thalia como uma estratégia para fortalecer a base cultural desde os primeiros anos de vida. O projeto oferece apresentações, oficinas e atividades artísticas que aproximam as crianças de experiências criativas relacionadas ao seu entorno. A iniciativa visa ampliar o repertório simbólico e construir laços culturais, reconhecendo a infância como um momento crucial na formação de público e na consolidação de uma cena artística diversificada.
O núcleo Elas Tramam, coordenado por Thalia, completa dez anos de atuação no Espírito Santo. Composto por mulheres, pessoas trans e não-binárias, o grupo se dedica à escrita e divulgação de dramaturgias autorais produzidas no estado. Ao longo de sua trajetória, o coletivo promoveu processos colaborativos de criação, realizou leituras públicas e publicou cinco livros. O núcleo também foi reconhecido por suas ações em defesa dos direitos humanos da comunidade LGBTQIA+, consolidando-se como um espaço de experimentação dramatúrgica e debate crítico.
No Centro de Vitória, o Espaço Cultural Má Companhia atua há 13 anos como um território independente de pesquisa e produção artística. Sob coordenação de Thalia em parceria com Erica Vilhena, o local abriga ensaios, formações, leituras dramáticas e apresentações. Sede do Elas Tramam e da Repertório Artes Cênicas, o espaço se tornou um ponto de encontro para artistas da cena capixaba. A manutenção de atividades ao longo de mais de uma década reforça a proposta de permanência e fortalecimento coletivo como estratégia de sustentabilidade cultural.
A atuação de Thalia engloba literatura, teatro, produção executiva e formação como dimensões interligadas. Ao trabalhar simultaneamente com criação autoral e organização estrutural de projetos, ela contribui para a consolidação de redes culturais no Espírito Santo. Sua trajetória evidencia uma prática que combina gestão cultural e investigação artística, articulando memória, território e construção de futuro como eixos permanentes de trabalho.



